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A condenação do norte-americano Lance Armstrong, vencedor de sete edições do Tour de France, veio, mais uma vez, expor a problemática do doping no ciclismo. O mundo foi célere em condenar o atleta e todo o seu refinado esquema batoteiro, que de facto, dissimulou a verdade desportiva e lançou reforçadas suspeitas sobre a credibilidade da modalidade. Dos testemunhos de colegas de equipa, passando pelo veredicto final até à mediática confissão, o processo foi acompanhado por um crescente ódio ao atleta, que já é, actualmente, o desportista mais odiado na História dos EUA. Na Europa, o sentimento não é diferente: Lance é mentiroso, é criminoso, é trapaceiro. Iludiu os fãs e escreveu, por linhas altamente tortas, parte da História do desporto. E em tudo isso a opinião pública tem razão. Mas acaba aí.

E porque a razão se esgota nesse simplório raciocínio, devemos analisar toda a realidade, aprofundando o seu enquadramento e recorrendo ao máximo de informação possível, pois só com discernimento e retrospecção podemos entender verdadeiramente o fenómeno do doping. E a primeira verdade de fundo que encontramos é esta: o desporto de alta competição tem um problema global de doping. A análise cuidadosa do passado dos desportos demonstra, sem reservas, que a presença do uso de substâncias ilegais e potenciadoras da capacidade física é omnipresente, e escreveu, pelas mesmas linhas tortas de Armstrong, uma porção gigantesca e indefinidamente fatídica da História do desporto de alta competição. Os exemplos são reais e estão documentados. Tal como no ciclismo, as evidências são repetitivas também no futebol. Em 1925 o jogo do Arsenal, comandado por Leslie Knighton, era complementado com «pequenos comprimidos brancos» que transformavam os jogadores em «gigantes super-carregados», como descreveu Knighton. Na década de 30, injecções contendo nutrientes de glândulas testiculares foram administradas a jogadores do Wolverhampton e do Portsmouth. Mas é a partir da década de 50 que o doping ganha um relevo de carácter ininterrupto. No Mundial de 1954, seringas foram encontradas no balneário da selecção da Alemanha Ocidental, vencedora da competição: as maiores suspeitas apontam para a utilização de Pervitin, um poderoso estimulante dado aos soldados na Segunda Guerra Mundial. O caso de Maradona é outro exemplo flagrante da tolerância que é dada ao doping por parte das instituições desportivas: «Eles metem-te algo no café que te faz correr mais. Grondona (à data, Vice-Presidente da FIFA) sabe bem disso. Ele disse-nos que não haveria controlos», afirmou o craque, na década de 80. Também a fabulosa Juventus de Zidane, Deschamps e Vialli, da década de 90, foi manchada pelo doping, tendo o esquema ficado provado em tribunal. Zidane e Vialli admitiram em tribunal a política sistemática de doping no clube italiano, tal como Matias Almeyda, internacional argentino, no seu livro autobiográfico: «No Parma davam-nos gotas intravenosas antes dos jogos. Quando entrava no campo sentia que podia saltar até ao céu». A selecção francesa, vencedora do Mundial 98, foi descrita, pelo seu médico, como tendo apresentado níveis de hematócritos anormais – a lógica dopante dos clubes (Zidane admitiu ter tomado creatina para recuperar mais rapidamente a forma muscular, enquanto que Deschamps acusou um nível de hematócritos de 51.2%, invulgarmente alto) pode ter, facilmente, beneficiado as selecções nas suas competições. Já a selecção canarinha, nesse mesmo ano, viu um Ronaldo apático e cambaleante, durante a final do Mundial: a força dos patrocínios falou mais alto e o jogador, lesionado, foi forçado a jogar, altamente dopado em cortisona e em xilocaína, a ponto de ter convulsões e vómitos. Mais tarde, relatos do staff brasileiro confessaram que o jogador jogou infiltrado toda a competição.

Estes são casos flagrantes e sistemáticos. No ciclismo, como no futebol. Vários são os médicos de equipas de futebol que são conotados por práticas criminosas e dopantes. Del Moral (banido do desporto, ligado ao Valência e à US Postal, de Armstrong), Escribano (trabalhou em Tottenham, Getafe, Bilbao…) Padilla, Segura e Eufemiano Fuentes são somente alguns deles: Segura é hoje médico do Barcelona (e era-o à data do caso de nandrolona acusada por Frank de Boer); Fuentes (com ligações à equipa US Postal) acompanhou ou aconselhou equipas como Barça e Real Madrid, tendo afirmado em tribunal ter trabalhado com «futebolistas, ciclistas, tenistas, andebolistas e boxeurs». Está a ser julgado pelo caso «Operación Puerto», escândalo da alegada rede de doping montada pelo médico espanhol, que envolve centenas de nomes do desporto mundial, até hoje envoltos em mistério. A sua afirmação, em 2010, colocou em sobressalto o futebol internacional: «Se eu falo, a Espanha fica sem Europeu e sem Mundial…».

Também o ténis merece aqui atenção. Depois de décadas de rebaldaria e pouco controlo, as novas regras anti-doping prometem apertar a supervisão dos atletas, talvez de uma forma até persecutória, muitos acusam. A verdade é que a modalidade tem sido criticada por vários atletas, que retratam a realidade escondida deste desporto: «Há demasiada batota. Simplesmente as pessoas não querem falar sobre isso…Eu preferia parar de fingir. Esta hipocrisia é exasperante», afirmou Christophe Rochus, tenista profissional. Também John McEnroe é peremptório da análise que faz: «Nota-se logo quando alguém está a tomar esteróides. O tipo fica maior, ganha um novo corpo e nunca se cansa…Vemos estes rapazes e raparigas nos tours, a falar dos seus novos programas de treino e dietas…mas nunca nos contam as drogas que tomam…». O actual nº1 do Ténis, Djokovic, que apelidou Armstrong de uma «vergonha», tem, durante o último ano e meio, beneficiado das maravilhas potenciadoras do chamado ovo pressurizado, um mecanismo hiperbárico que aumenta a capacidade de oxigenação do sangue, melhorando a performance e reduzindo o cansaço. Em que fronteira ficará este dispositivo? Dentro ou fora das artimanhas que dão ao atleta um avanço sobre os demais competidores? O debate tem sido suscitado e as certezas são poucas. Certeza real, apenas a de que Djokovic deveria ter a mesma relutância em responder a Armstrong tanto quanto teve para responder à questão sobre se usava ou não o dito dispositivo.

A realidade do doping continua a mostrar uma sistematização do seu uso, de forma constante, programada e altamente profissionalizada, de modo a poder fugir aos limites legais. As brechas nos controlos, a facilidade em escapar ao rigor dos testes (muitos resultados são mascarados com substâncias que anulam testes positivos) e a ausência de supervisão regular (o ciclismo é dos poucos desportos que controla os atletas fora do prazo competitivo) traduzem uma realidade desportiva em negação, qual viciado compulsivo que continua a mentir a si próprio quanto ao vício que carrega. O caso de Armstrong é somente uma ínfima parte de tudo isso, a sociedade não pode continuar a ignorar as restantes evidências. A filosofia da vitória a todo o custo, para lá do normal esforço humano, tem vindo a deteriorar o desporto a nível mundial, catapultando o uso do doping e manchando a competitividade sadia entre pares. Quando um desporto se entrega ao poder imparável do dinheiro, dificilmente permanece desporto: tende a tornar-se negócio. E nos negócios vale tudo. Vivemos numa hipócrita cultura de doping que é sustentada pela nossa urgente vontade em vencer sempre, seja qual for o limite: 200 km por dia no Tour de France, 70 jogos numa época futebolística, ou 3 horas de um ritmo frenético no Grand Slam. A verdade é que a nossa cultura desportiva e estética tem um grave problema de doping, e uma voraz (e assustadora) vontade de tudo vencer: um vício do qual ninguém tem a frontalidade de se acusar.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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3 thoughts on “A nossa cultura tem um problema de doping

  1. Assunto problematico e cada vez mais dificil de detectar. Ainda à tempos li o livro do futebolista Fernando Mendes que narrava os varios esquemas usados. Interessante até ao ponto, de forma muito escondida, ele descrever consequências e metodos que os clubes usavam para fugir ao controlo. Depois de ler o livro ainda pensei nos tristes incidentes dos jogadores Feher e Bruno Baião, se poderá ou não haver historia por trás ainda a explicar.

  2. Exacto Miguel, muito provavelmente existe uma relação bem directa entre mortes fulminantes e o uso de doping. Vários especialistas apontam o doping como causa dessas mortes. Aliás, existe até um estudo que liga o doping no Calcio (nas décadas de 70, 80 e 90) a um número anormal de escleroses em ex-jogadores de futebol italiano. As mortes de Foé, Puerta e por aí fora, todas muito estranhas…

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