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Olhando de revés para um título em tão grande medida abstracto, o leitor poderá desde logo perguntar a si mesmo qual o tema escolhido pelo autor para esta publicação inaugural do blog Palavras ao Poste. Não se apoquente se foi exactamente esta a questão que lhe passou pela cabeça e fique por aqui até ao final do texto: prometo-lhe desde já que não falarei da linda cor das águas do mar nem da beleza da tonalidade de um céu limpo por alturas do nascer do sol.

Na verdade, o que pretendo aqui abordar é uma questão que como sportinguista que sou muito me tem atormentado. Fazendo uma análise ao plantel de futebol profissional do FC Porto vejo que nele constam quatro jogadores que noutros tempos foram ídolos dos adeptos do Sporting CP e que hoje lutam por títulos num dos seus eternos rivais. Aos recentes casos de Liedson e Izmailov (ou Izmaylov, como se preferir), somam-se Silvestre Varela e João Moutinho, a quem alguém veio a chamar um dia de “maçã pobre”.

Estes quatro profissionais passaram assim de bestiais e bestas para os simpatizantes do clube de Alvalade que, na sua maioria, recriminam este tipo de “traições” e não perdem uma oportunidade para insultar os mesmos que há algumas épocas aplaudiam. Esta é uma posição que pode ser classificada como sendo normal no mundo do fanatismo por vezes irracional do futebol, mas quais são os verdadeiros motivos para que esta migração de jogadores de Alvalade para o Porto aconteça cada vez com mais frequência?

A resposta não é tão óbvia como pode parecer à primeira vista. Uns dirão que é a força do dinheiro, outros que é a falta de paixão ao clube, outros ainda que é a fome de conquistar grandes troféus, algo que para o Sporting não tem passado de uma miragem nos últimos tempos. Eu diria que todos eles têm a sua razão, mas atrevo-me a acrescentar outros dois motivos que considero fundamentais: má gestão dos activos próprios por parte dos dirigentes do Sporting (aproveitada com grande eficácia pelos seus principais adversários) e incapacidade de fomentação interna da cultura do clube nos seus profissionais. Moutinho e Liedson são exemplos disso mesmo. O primeiro era capitão, titular indiscutível, com talento reconhecido a nível internacional e um dos maiores valores da equipa do Sporting, foi vendido a preço de saldo para as Antas e mostra-se agora um portista orgulhoso. Tão ruinoso negócio demonstra a incompetência negocial das personalidades que dirigem o Sporting, que não poucas vezes deixam a ideia no ar de que existem trocas de favores entre amigos e muita corrupção no seio destas elites que de geração em geração têm dominado Alvalade. Já Liedson é um caso diferente, um jogador que depois de sete anos de leão ao peito se despediu dos seus adeptos de lágrimas nos olhos e que época e meia mais tarde volta para Portugal com a frase de que sempre desejou jogar no Porto.

De quem é então a culpa? Guarda-redes e capitão da equipa de futsal do Sporting, João Benedito condenou na sua página de facebook a atitude de Liedson, demonstrando-se incrédulo com a ingratidão do futebolista brasileiro para com o clube “que tudo lhe deu”. O que Benedito disse corresponde de facto à verdade, mas não me parece ainda assim sensato culpabilizar somente o atleta, ainda para mais não sendo este um caso isolado. O problema do Sporting é interno e tem na sua origem a incompetência e falta de credibilidade de dirigentes incapazes de implementar uma cultura de vitória e de paixão ao clube e que, não bastando isso, ainda se mostram orgulhosos de vendas que os deveriam envergonhar. Depois tudo isto funciona como um ciclo vicioso: não se conquistam troféus, as receitas diminuem, o dinheiro escasseia, a capacidade de negociação diminui, os jogadores ficam insatisfeitos e querem sair a qualquer custo e, porque nunca se sentiram sportinguistas, não têm qualquer problema em ir para o SL Benfica ou para o FC Porto, clubes que se fortalecem com estes jogadores e que com eles ampliam ano após ano a já abissal diferença de qualidade entre os seus plantéis e o do Sporting.

Exposto todo este raciocínio, o leitor tenderá a perguntar-me qual a solução objectiva para todo este problema, ao qual eu respondo de forma muito simples: não sei. Não tenho a fórmula mágica nem nada que se pareça, mas parece-me claro que um dos pontos a trabalhar com maior urgência são estas transferências directas de jogadores do Sporting para o Porto, que tanto mexem com o orgulho dos sportinguistas e os afastam cada vez mais do clube. Se existe a necessidade de vender um jogador, que o vendam para o estrangeiro e que se acabe com esta falsa parceria amigável com o FC Porto que só favorece o clube nortenho, enriquecendo-o com um plantel que tem quase tanto de azul como de verde. Quanto ao resto, que as mudanças se façam com a ponderação e o radicalismo necessários, de preferência tendo já como ponto de partida para a revolução as eleições de dia 23 de Março.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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2 thoughts on “Azul em tons de verde

  1. É legitimo que os jogadores sonhem com títulos e contratos melhores.Respeito quem quer subir na vida, mas é preciso gratidão e carácter.

    Moutinho foi sempre bem tratado, capitão cedo, tinha um contrato principesco renovado um ano antes de sair e com um gordo prémio de assinatura.

    Percebo que quisesse sair já que não vencia títulos e jogar no Porto podia dar lhe isso. Mas há que ter respeito e carácter e ele preferiu enquanto via os colegas treinaram se arduamente na pré-época, ficar trancado num quarto a enviar mensagens ao presidente a pedir para ser vendido enquanto como capitão de equipa se recusava há dias seguidos a treinar. Dominado pelo futuro patrão que faz inúmeras contratações assim conseguiu convencer uma débil direcção que mais uma vez foi suave com o “aliado” portista. Enquanto sportinguista e acima de tudo como homem perdeu todo o respeito que algum dia lhe tive.

    Izmailov saiu do SCP porque o clube quis, não forçou nada. Sempre achei que os seus problemas físicos eram mais mentais e isso está a revelar-se correcto. De qualquer forma como profissional foi em busca do sucesso e nunca o ouvi a ser deselegante com o clube que o trouxe a Portugal. O facto de em 6 anos no País não falar português só mostra o amadorismo da estrutura do Sporting.

    Liedson estava fora do clube e aceitou ir para um rival que na verdade era a melhor opção neste seu fim de carreira, agora chegar e declarar que sonhava com isso há anos é de um desrespeito muito grande para quem fez dele aquilo que é hoje.
    Benedito disse e bem que aturamos muitas coisas, mas falta de carácter não.

    Mas mais do que isso é importante que o Sporting se assuma como clube grande que historicamente é e deixe de lado este aliado que só serve os seus interesses e os de alguns dirigentes dos leões que parecem trabalhar mais para si do que para o clube. Os fortes não precisam de se aliar, muito menos ao inimigo. Chega de brincadeiras é preciso rigor, disciplina e profissionalismo.

  2. Concordo com o que dizes, por vezes, o princípio do carácter tem de ser mais forte e mais prioritário que o resto. Moutinho esteve pessimamente mal, ainda por cima tendo responsabilidades de capitão. Já Izmailov, parece-me um personagem intrigante, estranho e incompreensível. Nunca deu sinal de vida no SCP a não ser de modo intermitente, recusou-se a jogar (contra o At. Madrid) e de repente está bem e recomenda-se. Mas a história dos jogadores russos em Portugal nunca deu certo. Yuran, Kulkov, Karyaka…

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