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Nem Agüero, nem Drogba, nem Alexis Sánchez  e nem sequer  Lisandro López. A outrora imponente Serie A caminha a passos largos para um plano secundário no futebol europeu e afasta, ano após ano, as principais estrelas dos mais fortes campeonatos do velho continente.

O mês de Janeiro chegou ao fim e a Turim não chegou (nem vai chegar) Sergio Agüero. O argentino, que ainda não conseguiu confirmar no City os créditos evidenciados em Madrid, continua por Manchester e com a capital espanhola no horizonte, onde os milhões e o prestígio do seu antigo rival lhe parecem ser bem mais tentadores do que as promessas de uma “Vecchia Signora” altamente competitiva mas ainda verde no contexto europeu. Quem também não se sentiu seduzido pelo projecto de Antonio Conte, nem sequer pelos chocolates Caffarel, foi o chileno Alexis Sanchez, actual culé, tal como o possante Didier Drogba, igualmente alvo do Milan, e o ex-Porto Lisandro López.

O campeonato italiano perdeu competitividade e já não consegue atrair as maiores estrelas do futebol mundial (como Agüero), recuperar as de plano intermédio e ascendente (Alexis Sanchez) e convencer as de plano inferior e descendente, como Lisandro López. Por outro lado, os grandes craques em fim de carreira (como Didier Drogba) já não parecem ver interesse (€) na competição, completamente ultrapassada, a vários níveis, pelos hoje principais palcos do futebol europeu (Madrid, Barcelona, Londres e Manchester) e por outros menos protagonistas mas com grande desenvoltura em termos económicos (Paris, Moscovo, São Petersburgo, Munique ou Istambul).

E nem com o esforço criativo da imprensa desportiva italiana e com a excentricidade dos seus títulos e parangonas,  a coisa vai lá. Os nomes sonantes associados a Juventus, Milan e Inter alimentam o sonho dos tiffosi mas afastam-nos da dura realidade, radicalmente diferente daquela que em tempos colocou a Serie A no topo do futebol mundial.

Longe vão os dias de glória do calcio, aqueles que levaram para Milão, Florença, Turim, Nápoles e Udine algumas das maiores estrelas de sempre da história do desporto-rei. Foram os “loucos anos 80/90” para o futebol italiano, tão loucos e avassaladores que tiveram um efeito quase alucinogénio sobre a sua classe dirigente. A ilusão e o entusiasmo gerados com o Mundial de 1982 elevaram o campeonato a um patamar superior, atraindo estrelas emergentes como Michel Platini, Zico e Maradona, e reforçando o estatuto dos pesos pesados do país a nível internacional. Ao ritmo da tarantella, as equipas italianas foram coleccionando títulos e exibindo um domínio imperial na Europa, que se traduziria na subida ao primeiro lugar do ranking da UEFA. Os estádios novos, as equipas exuberantes, os jogadores-estrela, os treinadores de nomeada – a Serie A toda ela emanava modernidade. Também a nível económico a supremacia era evidente, com a enorme pujança financeira dos clubes italianos a ser mais um dos sinais da prosperidade da competição, líder das grandes transferências de jogadores do mercado futebolístico. O dinheiro, proveniente de algumas das maiores multinacionais do país, era muito e serviu de “inspiração” para os valores que hoje continuam a ser transacionados na indústria.

Mas o tal “efeito alucinógeno” viria a ser fatal para este domínio. Os anos passaram e a Liga antes rainha e senhora do futebol não se soube adaptar a um mundo em constante mudança. Os estádios deixaram de ser novos e ficaram ultrapassados; as equipas perderam o brilho, o dinheiro dos patrocinadores e os resultados avassaladores; os craques envelheceram e as novas estrelas internacionas não quiseram entrar;  e os melhores treinadores, mestres da táctica, preferiram emigrar a ficar.  O início do novo milénio trouxe a ascensão de uma Liga extraordinariamente competitiva e “estetica e moralmente” mais apelativa, com estádios cheios, de adeptos e fair-play, jogos emocionantes e um “ambiente limpo”. Percebendo as mudanças de um mundo globalizado e as vantagens do capitalismo, o futebol inglês aceitou a passagem de testemunho dos fratelli italiani e abriu a janela de transmissões televisivas dos seus jogos para novos mercados, como a India ou a China. Paralelamente, os italianos começaram a sofrer com os excessos cometidos durante a época dourada: a situação económica do país e a falência de alguns dos principais patrocinadores fez desaparecer o dinheiro. As constantes suspeições à volta da transparência da competição, nomeadamente o grande escândalo de corrupção associado à compra de resultados desportivos, o “Calciocaos” (2006), acabaram por ajudar a desenhar a curva descentente da Serie A.

A recente ascensão do futebol espanhol (que já vem desde 2008) acabou por vir acentuar ainda mais o declínio das equipas italianas, por um lado, e polarizar as competições europeias entre Espanha e Inglaterra, por outro. Este ciclo, apenas quebrado nos últimos anos com o Inter de José Mourinho (e antes pelo poderoso AC Milan de Ancelotti), é ainda reforçado pelos êxitos de equipas de outras ligas menores como a portuguesa, que coloca a Serie A num actual 4.º posto do ranking europeu, com apenas 3 equipas posicionadas na Liga dos Campeões.

A liga italiana está fraca, envelhecida e desactualizada. Velha é mesmo a palavra-chave definidora do actual estado do campeonato, que precisa urgentemente de se modernizar e descolar de alguns “tiques” de vedetismo do passado. Não que tenha deixado de ser apaixonante, não. Não que tenha deixado de ter grandes jogadores, também não. Não que tenha perdido o simbolismo e encanto dos seus valores, muito menos. Mas precisa essencialmente de se adaptar a uma nova realidade. É óbvia a necessidade de modernizar as infra-estruturas, de rejuvenescer os plantéis, de voltar a apostar na grandíssima qualidade dos jovens futebolistas da formação que desde sempre o país se habituou a ter. Mas é ainda mais nuclear que os dirigentes (e por que não a imprensa) percebam que as suas equipas já não são as melhores da europa e os seus jogadores já não são as grandes estrelas do futebol mundial que em tempos foram. Quando esse momento chegar, o calcio pode muito bem voltar a lutar por um lugar entre os melhores, já que a paixão do povo italiano pelo desporto e a qualidade dos seus jogadores irá sempre prevalecer.

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

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One thought on “Calciocarie: Do brilho à podridão

  1. A verdade é que não só a crise económica mas também o clima de suspeição constante motivado por escândalos de doping ou apostas afectam e cada vez mais descredibilizam a liga italiana.

    O facto de grandes equipas estar em envolvidas mancha o futebol italiano e afasta do adepto comum do estádio.

    Este cocktail permite que a Liga Italiana esteja num patamar abaixo das principais ligas europeias ao ponto de um jogador como o Berbatov preferir jogar numa equipa pequena e sem história como o Fulham do que alinhar num histórico mundial e actual campeão italiano como a Juventus e é evidente que em casos destes não podemos falar apenas de factores económicos.

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