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Quando o leitor se senta no sofá, munido da expectativa e do entusiasmo em ver as grandes estrelas do futebol internacional em dribles perfumados, passes de cortar a respiração e golos de bandeira, todo o seu sistema nervoso se acende; os cinco sentidos aprumam-se e o volume da televisão ascende aos limites permitidos pelos tímpanos dos vizinhos. Os jogadores, quais cirurgiões magos cobertos pelo manto  heróico da fama, sobem ao relvado debaixo dos aplausos fervorosos das bancadas. O ambiente de celebração e euforia mistura-se com o nervosismo antecipado, o coração bate acelerado e a cabeça flutua consoante o êxtase colectivo que emana do terceiro anel: o futebol é uma droga alucinogénia. E como todas as formas de contornar a realidade, esconde por detrás da sua própria ilusão uma outra veracidade, mais dolorosa, mais sombria e mais desajustada. Quando o apito final grita pela boca do árbitro, deveria, tanto o comum adepto como o drogado mais encartado, deixar que a distorcida realidade venha ao de cimo e tome conta do seu bom senso, do seu corpo ainda trémulo de todas as sensações extremas que uma partida de futebol provoca. Mas não. Tanto um como outro optam por chutar essa dura realidade para canto: análises frívolas ao jogo por parte de comentadores duvidosos, discussões facciosas, mediatismos bacocos e redutores (substituindo a imprensa um Barcelona vs. Real Madrid por «Messi contra Ronaldo»…) e frases feitas repetidas até ao mais mecânico dos reflexos: «Agora é levantar a cabeça», dizem os intervenientes, que não sabem o que dizem. Mas nem eles nem ninguém, levanta a cabeça. Porque se o fizessem, descobririam, por entre a inebriante felicidade passageira dos golos ou a fúria de ser sportinguista, uma realidade que é, na realidade, uma decadência comparável a poucas outras realidades: as dívidas. Demasiada realidade para si, caro leitor? Dêmos, por instantes, as boas-vindas à sobriedade. É um caminho árduo para o amante da modalidade, mas antes verdadeiro que feliz, como diria Nietzsche; e a conclusão é esta: o desporto-rei vai nu.

Vai nu, sim. E se o leitor ainda confunde tal cenário com a passagem de um qualquer corso carnavalesco na Mealhada, é bom que sacuda a cabeça porque mais alguns minutos de sobriedade se lhe exigem. O futebol internacional está falido. Completamente falido, financeiramente decadente e totalmente viciado em gastos supérfluos e intermináveis, qual comprador compulsivo que não consegue parar de se endividar. Vivendo numa bolha artificial que nada tem a ver com a realidade daqueles que sofrem pela bola, o futebol mantém-se a viver muito acima das suas possibilidades, seja em Portugal, em Espanha, na Inglaterra ou mesmo na Itália. A crise financeira das dívidas soberanas, aliada às decrépitas economias do Ocidente, tem vindo a fazer estragos na banca, no imobiliário, nos créditos, e mais importante que tudo isso: no bolso das famílias. A bolha financeira rebentou com estrondo (a banca foi salva dos seus pecados abissais…) na grande maioria dos países e os esforços austeros custam demasiado a todos nós, mas o futebol continua a deslumbrar com ostentação e brilho. As contratações milionárias sucedem-se, os salários ascendem a quantias inqualificáveis para o comum mortal, os hotéis têm jacuzzis, a malta espatifa Ferraris e tem suficiente mau gosto para pagar ao cabeleireiro para lhes suicidar o penteado. Outros, como o David Luiz, devem-lhe ter partido o vidro da montra: é por isso que eu simpatizo com jogadores poupadinhos.

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O futebol engana-nos com o seu glamour postiço. Engana-nos com o sorriso pernicioso de uma injustiça social que é temível quando analisada à lupa e com racionalidade, mesmo para um aficionado do jogo como eu. Porque os tempos são de aflição, de dificuldade e de pobreza crescente, não só em Portugal como no resto da Europa. Porque os salários encolhem e a fome aperta a cada esquina, e nós, amantes da bola que andamos pelas simplórias ruas do país, constatamos essa realidade: a verdadeira realidade do povo. Por detrás do pano do espectáculo, descobrimos que as dívidas se acumulam de modo galopante, centenas e centenas de milhões de euros empilham-se em obrigações pagas todos os anos a juros elevados, e eternizam-se, com a complacência da banca e a tolerância infinita do sistema financeiro global. A mesma tolerância que não é dada à família que falha o pagamento mensal da casa ou ao trabalhador por conta-própria, esse malandro, que não declarou uns míseros euros. No futebol a música é outra e por conseguinte, a dança é tão mais apetecível. A banca tolera dívidas inimagináveis e permite empréstimos impossíveis a clubes totalmente falidos; as autoridades reguladoras fecham os olhos aos negócios corruptos, as comissões são gordas e os salários das vedetas internacionais cobrem a nossa vida e multiplicam-nos a existência por mais mil vidas. E é aí que o ainda aturdido leitor retorque: «Mas eles justificam o que ganham porque também dão milhões a ganhar aos clubes». Falso. E é aqui que entram os números, porque não é só com os golos nem com as camisolas vendidas (argumento vencido faz tempo) que a matemática do futebol se faz. Longe disso. Um estudo recente da UEFA demonstra que, dos 650 clubes europeus analisados, podemos retirar uma dívida conjunta que ascende aos onze mil milhões de dólares. Apesar do aumento de receitas, o desporto-rei gasta infinitamente mais que aquilo que produz. E qual a maior fonte de prejuízo dos clubes? Exacto, os salários astronómicos dos seus jogadores: segundo um estudo do professor José  Gay, da Universidade de Barcelona, 85% dos gastos da média dos clubes da Liga Espanhola são unicamente com salários do plantel. Por entre as fintas sucessivas de Messi e os remates certeiros de Ronaldo, está uma dívida de 4.6 mil milhões de dólares que a mais mediática liga do mundo não consegue liquidar, por muito que ganhe e publicite. Já a histórica e competitiva Liga Inglesa é deficitária em 4.1 mil milhões de dólares, com clubes como Portsmouth em falência administrativa e Manchester United e Liverpool enterrados em dívidas consideradas «tóxicas» pelo Royal Bank of Scotland. Mesmo as entradas de mecenas endinheirados, não salvam, sequer a médio prazo, as contas globais do declínio irremediável: «Exercem um efeito danoso e inflacionário nos salários e nas transferências», afirma Tom Cannon, professor na Universidade de Gestão de Liverpool. De facto, apesar da aparente saúde financeira actual, clubes como o Manchester City registaram, em 2011, perdas de 230 milhões de euros, um recorde na história económica do futebol. «Todos estão desesperados para se qualificar para a Champions, todos querem pôr as mãos no jackpot e isso fá-los agir irracionalmente. Gastam uma fortuna em transferências e salários para tentar ir à competição», esclarece Bernd Frinck, professor de Economia na Universidade de Paderborn.

A lógica deste sistema falível é redundante e condenada à partida. Os clubes gastam o que têm e o que não têm de modo a ganhar, porque ganhar dar-lhes-á mais dinheiro. Então gastam e pedem mais emprestado, ganham e logo de seguida gastam ainda mais, pois a pornografia salarial impõe-se e as vedetas exigem recompensações constantes. E como a partir de umas boas vitórias a expectativa e a sede de vencer aumentam, pede-se um pouco mais emprestado, para comprar mais e melhor. Entretanto as dívidas são um monstro, e os ganhos não cobrem minimamente as perdas sucessivas. Os passes dos jogadores, sempre estupidamente inflacionados, traduzem uma realidade financeira inexistente, só resistente na cabeça iludida de quem os negoceia. O futebol profissional da actualidade negoceia dinheiro irreal, transacciona pessoas com preços catalogados no lombo e não pára de abrir um fosso escabroso que um dia rebentará na cara do adepto mais acéfalo. Porque há sempre qualquer coisa para nós pagarmos. Sempre. Do «subprime» americano às injecções de capital na banca, passando pelos submarinos encalhados e pelas auto-estradas fantasma, o pobre contribuinte tem sempre uma moeda no bolso para dispensar. E o futebol, outrora desporto das gentes e do povo, devia virar humilde e ter vergonha. Devia repensar a sua actuação mercantilista e ostentadora, pois está tão teso como aquele que não tem nem para mandar cantar um cego. Devia pagar o que deve, mas demonstra tanto respeito como aquele que o governo nos reserva. O desporto-rei vai nu, e eu não tenho o mínimo prazer em ver-lhe as miudezas.

Bruno Cardoso desenho

Bruno Falcão Cardoso 

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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