Home

Sempre me atraiu a ideia do corpo humano estar dimensionado para suportar quedas e impactos na fronteira das suas possibilidades de acção primárias. A velocidade que somos capazes de atingir em corrida em solo plano está ajustada à própria resistência dos nossos ossos, não se partindo estes nem nos magoando nós gravemente em caso de choque ou desequilíbrio. Da mesma forma, a queda da copa de uma árvore de fruto média pode ser sustida pelo corpo, na generalidade das situações, sem que os danos sejam demasiado avultados.

O desporto, porém, está já muito além disso, e conquanto possa ser sinónimo de estatuto elevado, de reconhecimento e forma de sucesso, o desporto não é para o Homem ritual de acasalamento, forma de disputar parceiros sexuais. Não contamos, portanto, o desporto entre as nossas acções primárias. A natação de competição não se dirige já à pesca ou à sobrevivência em paisagens aquáticas, assim como o lançamento do dardo não se destina à caça, da mesma forma como o remo já não pretende levar ninguém de ilha em ilha ou como a maratona já não é forma de expedir o correio. Sabemos que o desporto é, hoje, a procura da superação do Homem pela simples superação: mais depressa, mais alto, mais longe, mais forte (e, talvez, também mais rico). Porque sim. Porque se converteu a vitória no único e mais desejável valor universal. Sabemos que o desporto é feito de recordes e de extraordinários. Sabemos que o desporto se faz de extremos, e, assim sendo, o que lhe dá espectacularidade, além dos brilhantismos técnicos e das grandes conquistas, estou convencido, é o seu inverso: a proximidade com o perigo, o facto das coisas poderem evidentemente correr mal. O desporto vive à sombra da ruptura, da lesão, do acidente.

Já tão dentro de si, o desporto nega a sua etimologia: des- [separação, fora] + portare [carregar, levar]. Da actividade sem preocupações, portanto, do passatempo, lúdico e sem responsabilidades, o desporto de competição veio afirmar-se como encargo maior, fardo ulterior que exige uma vida de sacrifícios a ele dedicada, um programa de treinos, restrições alimentares e de tudo aquilo que configura prazeres para os comuns mortais. «Tudo o que é demais é mau», dizemos sobre tudo, mas que ninguém nos ouça dizê-lo do desporto, hedonismo desvirtuado, só alcançável pelo extorquir da fama ao corpo vitorioso.

Pelo excesso, o desporto atinge a sua recusa. O desporto pede ao corpo que se supere, e o corpo vinga-se do desporto lesionando-se, destruindo-se, furtando-se à equação e tornando assim impossível o próprio desporto. A lesão é interrupção. O acidente é o grito vingativo do corpo, dizendo ao desporto que foi a ele que se superou. A seguir ao acidente desportivo segue-se a condenação do excesso (já o vimos nas grandes voltas de ciclismo, e vemo-lo também no escândalo do doping, que é só outra forma do corpo se retirar da equação), segue-se o debate acerca da regulamentação dos esforços e da avaliação cuidada das condições físicas dos atletas (vemo-lo amiúde no futebol, que nos últimos anos tem assistido à morte de atletas mais ou menos jovens).

A morte de um atleta, evento humanamente trágico, ou mesmo a sua lesão, são sobretudo golpes disferidos no estômago do desporto. Negam-lhe os valores, negam-lhe tudo. O desporto é sempre promessa e possibilidade: de chegar mais longe, de passar à fase seguinte, de conseguir uma medalha, de bater mais um recorde, de ser mais e mais e mais.

É por isso que a lesão e o acidente são vingança. Eles abortam a competição a meio. Não deixam chegar a prova à divulgação dos resultados. Colocam um DNS, Did Not Start, ou um DNF, Did Not Finish, na tabela, à parte de todos os tempos ou pontos. Só a lesão liberta o atleta. Só a lesão impõe respeito à lógica excessiva do desporto de alta-competição, que deve sacrificar-se à economia, como tudo o resto, aliás. Só a lesão pode evitar que o capitalismo mais circense se aproprie do corpo, e que o desporto, atreito a tais conluios, o destrua.

Sintomaticamente, Rinaudo, jogador do Sporting que uma grave lesão parou por três meses em 2011/2012, disse: «Joguei três anos seguidos sem me lesionar, sem parar por causa dos play-offs na Argentina, até que o corpo disse “basta”. Em algum momento teria de parar. (…) O meu corpo precisava da lesão (…) Acho que me vai fazer bem.»

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

Advertisements

One thought on “Lesões: o corpo contra o desporto

  1. Pingback: Quando lo sport e il calcio fanno male | Sosteniamo Pereira

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s