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A explosão de André Villas-Boas em 2011 foi tão repentina e efémera quanto a sua queda um par de meses depois. O Chelsea, aposta arriscada e quase fatal para o treinador português, assiste agora ao ressuscitar de uma lenda por muito pouco convertida em mito. 

 Iludido pelas (falsas) promessas de Roman Abramovich, André Villas-Boas aceitou o desafio londrino a 22 de junho de 2011, numa decisão arriscada mas devidamente calculada pelo ex-adjunto de José Mourinho. No entanto, a “vassoura e o livro de cheques” prometidos pelo magnata russo nunca lhe chegaram a ser entregues, e o habitual complot da “velha guarda” do balneário blue acabou por ditar a sua saída.

Na altura, o projecto de AVB, desenhado para os três anos de contrato assinados com o Chelsea, assumiam o risco de uma primeira época em que jogadores como Peter Chech, John Terry, Ashley Cole, Frank Lampard e Didier Drogba, todos já veteranos e alguns deles em final de contrato, poderiam passar a conviver mais tempo  no banco de suplentes de Stamford Bridge. Compreendendo a necessidade de rejuvenescimento do seu plantel, o proprietário do clube londrino não só apoiou a proposta de Villas-Boas, que já conhecia os cantos à casa, como lhe prometeu umas centenas de milhões de euros em contratações para o verão seguinte. A aposta natural na conquista da primeira Liga de Campeões do clube em detrimento do campeonato (face à própria natureza desequilibrada do plantel) seria o ponto de ordem. Mas nenhuma palavra se torna mais relativa no mundo do futebol do que o conceito de “projecto”. À primeira sequência de maus resultados da equipa, e antevendo uma repetição do que acontecera dois anos antes com Scolari, Roman Abramovich acabou por esquecer todas as promessas feitas a AVB e afastou-o do cargo, devolvendo o comando técnico da equipa a um italiano alguns meses depois do seu anterior ataque de fúria, dessa vez com Carlo Ancelotti. Para ele, o resultado não poderia ter sido melhor (conquista da LC por Di Matteo), mas para André Villas-Boas o êxito dos seus antigos pupilos era, por outras palavras, o fracasso final do novamente apelidado de “mini-Mourinho”, agora na acepção mais depreciativa da expressão.

A desgraça londrina exigia da parte de Villas-Boas uma grande ponderação na escolha do seu próximo desafio profissional, algo que o treinador português acabou por revelar ao assinar pelo Tottenham, uma equipa de topo mas onde a pressão da vitória é substancialmente inferior à dos Blues.

Em White Hart Lane,  AVB encontrou um plantel bem estruturado e recheado de bons jogadores, ainda que em desvantagem com os principais candidatos ao título e com a concorrência das inúmeras equipas que normalmente lutam pelos lugares cimeiros em Inglaterra. Os primeiros resultados não foram animadores e em parte justificados por alguns problemas iniciais: Perdeu Modric e Van der Vaart e com isso praticamente toda a capacidade criativa de um meio-campo já debilitado pela prolongada ausência de Scott Parker, o único 8 do plantel. Não recebeu nenhum nome sonante no verão e ficou com Leandro Damião e Willian atravessados na garganta, face à pouco entusiasmante frente de ataque ao seu dispôr.  Mas assegurou também contratações importantes e cirúrgicas como Hugo Lloris, Jan Vertonghen, Dembele, Dempsey e Sigurdsson. A equipa, essa,  lá acabou por “engrenar” e conseguir boas séries de resultados que nesta altura a colocam no quarto lugar, a apenas um ponto do  Chelsea. A vitória por 3-2 em Old Traford serviu de estímulo e o bom futebol evidenciado desde Dezembro traduz o trabalho de AVB no seu segundo desafio em Londres, onde já conseguiu ultrapassar o número de vitórias obtidas no Chelsea em igual número de jogos. A marca do treinador fica também vincada na aposta em jogadores jovens como Steven Caulker, Kyle Naughton e Kyle Walker, todos eles utilizados no último jogo da equipa para a Premier League, frente ao Newcastle. article-2278845-17967516000005DC-738_634x418[1]Uma partida onde voltou a pontificar Gareth Bale, um portento de jogador agora verdadeiramente potenciado, em todo o seu esplendor, pelas mãos do técnico português. “Tenho um Cristiano Ronaldo na minha equipa”, afirmou AVB sobre a sua estrela maior após novo bis do galês, esta quinta-feira, com o O.Lyon. A diferença (na influência e no número de golos marcados) está na posição mais adiantada no terreno atribuída pelo português ao avançado, cuja vocação ofensiva o terá afastado, definitivamente, do lugar de lateral-esquerdo dos Spurs.

 Retirar o melhor dos jogadores não é algo novo para André Villas-Boas.  Já antes, no FC Porto, atletas como Álvaro Pereira, Maicon, Sapunaru, Guarin e Belluschi viram o seu rendimento ser finalmente exponenciado quando o treinador asssumiu a equipa, tornando-se, todos eles, em pedras basilares do onze vencedor de 2010/2011. Outros, como Hulk e Falcão, saltaram para outro nível futebolístico nessa mesma temporada. A mudança de um jogo matreiro e feito de transições, com Jesualdo Ferreira, para outro de posse e domínio, com AVB, mudou o futebol dos azuis e brancos e potenciou a qualidade técnica de todos os seus jogadores. A tripleta conquistada na primeira época de Villas-Boas ao mais alto nível, como se já não bastasse, foi acompanhada por um conjunto de recordes históricos que marcarão para sempre a história do futebol português. É claro que nunca ninguém poderá agradar a gregos e a troianos, muito menos a sportinguistas e benfiquistas. Se os primeiros tiveram AVB à porta mas acabaram por levar com Paulo Sérgio, os segundos nunca mais se esquecerão do célebre “apagão da luz” e  da conquista do campeonato pelos rivais no seu próprio reduto.  O reconhecimento do treinador em Portugal, algo tão ou mais difícil de conquistar do que os troféus vencidos na sua ainda curta carreira, terá de ser reforçado por novas vitórias, tantas quanto sejam capazes de apagar a imagem de clone de Mourinho que sempre o perseguiu. A ele e a José Couceiro, Vitor Pontes, Luís Campos e qualquer outro treinador bem falante e sem bigode que aparecesse no futebol português.

Para já, André Villas-Boas, o treinador mais jovem de sempre a conquistar uma competição europeia, procurará recuperar no Tottenham a aura de vencedor alcançada no verão de 2011. O futebol atraente da sua actual equipa, e os resultados positivos que ela vem alcançando, podem muito bem ser o ponto de viragem de que ele tanto precisava.

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

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3 thoughts on “Tottenham Hotspur: Segunda vida para AVB

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