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O mês de Fevereiro ficou este ano mais uma vez marcado pelas tradicionais festividades carnavalescas. De Bragança a Loulé, passando por Elvas e pelo inevitável espéctaculo madeirense, foram milhares os foliões que desfilaram com alegria pelas ruas do nosso país num cínico tom de celebração que há muito devia andar afastado deste cada vez mais pequeno pedaço de terra à beira mar plantado. Também os telejornais foram contagiados pela cor dos enormes cabeçudos caricaturados de figuras públicas portuguesas e pelo perfume do inconfundível samba do Rio de Janeiro. Passada a euforia e atribuídos todos os prémios, o Carnaval finalmente terminou. Mas a farsa continua.

No fim de contas, a paródia que pautou estes dias não é em nada diferente da que podemos presenciar durante o resto do ano. Nos desfiles e um pouco por todo o lado andaram pessoas mascaradas de ladrões, de mendigos, de proxenetas, de prostitutas, de banqueiros endinheirados, de políticos corruptos, de Duartes Limas, de Fernandos Ulriches, de Sócrates, de Coelhos, de Relvas, de toda uma corja socialmente culpabilizada pelo degredo que se encontra este país. Fazem-no com a intenção de ridicularizarem os seus alvos, mas quando a festa acaba a verdade é que eles existem mesmo e continuam em cena com o protagonismo de um actor principal, enquanto a plebe encarneirada se despe num ápice de tais fantasias e volta nos seus trajes habituais à rotina que lhe é imposta.

MáscaraNum contrastante paralelismo com o fantástico espírito do Carnaval, encontra-se a triste brincadeira que pauta numa escala global a actividade de todos os ramos da nossa sociedade. Equipas de futebol que ganham troféus sucessivos graças a acordos sujos feitos com os árbitros, igrejas que se dizem a favor dos mais desfavorecidos mas que não perdem uma oportunidade para ostentar com ouro e diamantes a sua riqueza, políticos que roubam às claras e que saltam de poleiro em poleiro entre o público e o privado numa permanente troca de favores, deputados que se agridem com as suas falsas garras nos debates da Assembleia mas que na hora do almoço comem todos da mesma lagosta; e toda a gente sabe quem é que a paga.

O povo percebeu, agora mais do que nunca, que é sobre si mesmo que recai a factura de todos estes excessos, mas limita-se a cumprir resignadamente o seu papel secundário dentro deste enorme teatro. Já os Pintos continuam a defender com um sorriso amarelo a verdade desportiva e a negar a todo o custo a veracidade das escutas telefónicas que puseram a nu a podridão do nosso futebol, os Papas a comer caviar no Vaticano enquanto pedem aos pobres para ajudarem outros pobres, e os Relvas laranjas, rosas, azuis ou vermelhos a protagonizar negócios obscuros que acabam sempre por lesar a seu bel-prazer os contribuintes, em valores astronómicos cujos zeros à direita ultrapassam o entendimento de qualquer cidadão.

Nós sabemos de tudo isto, e eles sabem que nós sabemos, mas tudo continua na mesma. Já dizia Shakespeare que “All the world’s a stage”, ninguém pode duvidar da sensata lucidez desta afirmação: vivemos hoje num constante baile de máscaras em que figuras públicas, quais gladiadores cobardes da nova era, fazem uso das suas armaduras de ferro para abafar o fedor dos seus actos criminosos e atirar para os nossos olhos uma areia contaminada com mentiras pegajosas e falsos moralismos, enquanto desfilam alegremente pela nossa comunicação social com a impunidade que é conhecida. E já não é Carnaval.

Mas como este baile só ganha sentido quando dançado a pares, do outro lado da barricada encontram-se pessoas comuns que fazem os possíveis e os impossíveis para acompanhar o compasso acelerado a que o cortejo vai avançando, sem outra alternativa que não a de se adaptarem a esta realidade travestida em que valores e ideais se perdem em função das imperativas necessidades primárias de cada um. O sistema social obriga-nos a fazer viagens sucessivas pelos confins da nossa imaginação em busca de uma máscara que nos permita sobreviver perante as dificuldades. Qual é a sua?

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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