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Quem lê o título deste artigo remete logo o seu pensamento para uma possível crítica ao facto da equipa principal do Benfica não ter enraizada uma táctica alternativa ao 4-2-4 ‘suicida’ de Jorge Jesus. Mas não é das tácticas de Jorge Jesus nem sequer da equipa principal que hoje aqui escrevo. Outro dia será.

O que hoje trago a discussão é a estratégia adoptada pelo Benfica para o relançamento da sua equipa B. Depois de ultrapassada uma primeira fase de controvérsia relacionada com a introdução das equipas secundárias de seis dos principais clubes nacionais (dos três grandes mais Braga, Vitória de Guimarães e Marítimo) na Liga Orangina, gerou-se um certo consenso em torno da mais-valia destes projectos para o futebolista jovem português.

Nunca gostei de entrar no campo da futurologia. Também não o farei aqui. Mas não posso deixar de manifestar um certo desconforto com a forma comos estes projectos foram desenvolvidos, desde a fase embrionária até à actualidade. Vou centrar-me, a partir daqui, na realidade que me é mais próxima: a do Benfica B.

Os primeiros indicadores apontavam para uma estratégia pensada ao mais ínfimo pormenor. A equipa B dos encarnados serviria de ponte entre os júniores e a equipa principal e de plataforma para o sempre difícil momento em que um jogador transita dos escalões jovens para o futebol sénior. Até ao nível da infra-estrutura a coisa parecia ter sido decidida com pinças: o Estádio da Luz era demasiado para as modestas assistências previstas e sofriria um desgaste do relvado incomportável; o Caixa Futebol Campus, pelo contrário, era muito pequeno e já tinha o campo principal destinado aos juniores. A solução encontrada foi o Estádio do Bravo, no Seixal. Porém, o desuso obrigava a um período de obras, factor tão a gosto de Luís Filipe Vieira.

A prática não podia ter ficado mais longe da teoria. À Luz chegaram jogadores oriundos das mais exóticas paragens e, após meio ano, o Benfica B continua a jogar num Estádio da Luz completamente deserto e com um relvado que cada vez mais parece o areal de Copacabana. Mais: as obras no Estádio do Bravo foram canceladas e não há previsão de qual será a futura casa dos ‘Bês’ do Benfica (várias hipóteses avançadas – Restelo, Reboleira/José Gomes, Coimbra da Mota – mas todas parecem longe de ser concretizáveis).

A falta de uma ligação entre a equipa principal e a equipa B do Benfica começa logo a ser evidente na escolha das tácticas: Jorge Jesus mantém-se fiel aos dois avançados, numa espécie de 4-2-4; Luís Norton de Matos optou pelo 4-3-3, com um único avançado e um meio campo mais povoado. Vemos jogadores a desempenhar funções na equipa B que não existem na táctica de Jorge Jesus: o trinco puro (normalmente o pouco talentoso Luciano Teixeira) ou o médio ofensivo centro (função que já foi de vários jogadores e que na minha opinião deveria ser do ainda júnior Bernardo Silva).

Nem a boa performance da equipa na Liga Orangina, derivada sobretudo de uma primeira volta muito bem conseguida, pode escamotear o que de mal tem sido feito no projecto B. Aqui, mais do que os resultados, conta o suporte dado à equipa principal e o crescimento individual dos jogadores, permitindo que cheguem à equipa principal. Seria ilusório pensar que todos os jogadores vão integrar a equipa principal encarnada. O problema é que neste momento vejo poucos capazes de dar o salto. André Gomes e André Almeida chegaram às mãos de Jorge Jesus devido a circunstâncias peculiares, pela necessidade de cobrir vagas que ficaram vazias depois de uma péssima abordagem ao mercado de transferências. Miguel Rosa já deveria fazer parte da equipa principal há muito, mesmo que volta e meia continuasse a manter o ritmo e a elevar a qualidade dos ‘Bês’. Ivan Cavaleiro começou muito bem, pelo que na altura deveria ter tido uma oportunidade de Jorge Jesus, mas foi perdendo fulgor. Todos os outros são jogadores medianos que nunca serão uma mais-valia na equipa principal, jovens promessas que ainda nem na equipa ‘B’ mostraram qualidade para estas andanças, ou meros ‘figurantes’ cuja falta de qualidade faz corar qualquer ‘Lêndea Benfiquista’ escolhida pelo Bruno Gomes.

No meio de tudo isto, salvam-se duas ou três excepções de boa utilização deste projecto: Jardel ganhou ali ritmo no início da época quando se esperava pelo castigo de Luisão; Urreta voltou à competição pelas mãos de Norton de Matos e rapidamente chegou à equipa principal; Miguel Vítor, Roderick e Kardec vão jogando e fazem a ponte entre as duas equipas; Guzzo, Fábio Cardoso ou João Nunes mostram que já existe ligação aos juniores. A isto junta-se um mercado de inverno interessante, com a aquisição de três jogadores que serão uma mais-valia na Orangina e que, a breve-prazo, podem chegar à equipa principal: Diogo Rosado, Bryan e Rui Fonte (agora lesionado).

Quero acreditar que os erros até aqui cometidos advêm do facto do projecto ser novo. Tenho dificuldade em fazê-lo, admito. Que Luís Filipe Vieira, Jorge Jesus, Luís Norton de Matos e a força suprema do Coraçãozinho de Satã me mostrem que quem está errado sou eu.

PS: A equipa principal do Benfica joga quinta-feira mais um importante desafio europeu. A passagem à próxima fase não está tão próxima como muitos querem fazer crer e os excessos de confiança pagam-se caros. Na Alemanha não foi apenas Jorge Jesus que rodou a equipa. A dupla Hyypia-Lewandowski também deu prioridade à Bundesliga, competição para a qual jogou 42 horas depois do desafio europeu. A Liga Europa já foi colocada num segundo patamar de prioridades por parte de Jorge Jesus. Acho muito bem. Mas uma eliminação deixa sempre sequelas na confiança e na motivação dos jogadores. Mais ainda se em casa for desperdiçada a vantagem alcançada na Alemanha.

joni_desenhoJoni Francisco

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4 thoughts on “Um Benfica sem plano B

  1. Parabéns Joni pelo artigo achei muito interessante e pertinente nesta altura falar disso existem muitas falhas na ligação entra a equipa A e equipa B a começar pela falta de qualidade de parte dos jogadores, passar por jogadores que assinaram e nunca os vi lá e pela importantíssima parte que é a diferença táctica entre o 4-2-4 suicida como dizes e concordo plenamente e que acho incompreensível com o 4-3-3 da equipa B que para mim tem sido um dos factores que tem sido responsável pelo aparente sucesso da equipa no campeonato.
    Por mais que seja uma equipa equilibrada a B tem uma falta de qualidade técnica gritante.
    No entanto espero que a estratégia para a próxima época melhore e vamos ver também o destino do Jesus que é outra questão que penso que é complicada e digna de análise detalhada.
    Continuem o bom trabalho.

  2. Obrigado por nos seguires e pelos elogios grande Marcos. O tema da renovação do Jorge Jesus ainda será muito falado por aqui, certamente.
    Quanto à equipa do Benfica, esperemos que os responsáveis aprendam com os erros. Mas, como disse no texto, tenho dúvidas que isso aconteça porque já conheço bem as pessoas que estão à frente do nosso clube.
    Abraço

  3. A linha de governação do Vieira não tem sido propriamente eficaz embora tenha sempre muitas festas e foco em objectivos cumpridos que apesar de serem positivos não os considero suficientes pelo menos para mim. Gostava de ver um clube com estrutura com uma característica de jogo definida independentemente do treinador. O Benfica parece quase refém de um presidente que é o Vieira e de um treinador que é o Jesus e o que querem fazer parecer é que sem eles aquilo desaba.
    Para mim não é esta a linha que se pretende no Benfica, devemos conservar os valores da instituição tanto fora como dentro de campo entristece-me e não me revejo numa equipa que marca um golo e depois fecha as linhas e baixa no campo por muitas más equipas que tenhamos tido principalmente na última década isso nunca foi um hábito e no ano do Trapo em que fomos campeões foi quase um escândalo.
    Vamos ver como termina esta época eu pessoalmente não nos vejo a jogar como campeões acho que temos plantel para fazer muito mais jogar muito melhor e dominar as partidas sem descer as linhas que isso para mim não é controlar é defender que são coisas diferentes.
    Quanto ao Jesus isso vai dar muita conversa e cá estaremos para para dar opiniões na altura eu pessoalmente não sei se renovaria.

    Abraço

  4. Pingback: Para que serve o Caixa Futebol Campus? | Palavras ao Poste

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