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Na semana em que vi o espanhol Capel afirmar, em declarações aos meios de comunicação, que o Sporting tenta recuperar terreno mas os outros é que não perdem, logo me ascendeu à cabeça, qual tontura sincopada, a imagem do governo triunvirato que lidera Portugal. Assim como o Sporting não faz se não perder e os outros teimam em vencer, também o governo de Passos, Gaspar e Relvas, insiste em cortar e não perceber porque raio as previsões continuam a ser uma desgraça completa, sempre abaixo das suas alucinadas expectativas. Se no Sporting as derrotas abalam, no país abalam ainda muito, muito mais. Se no Sporting a defesa tinha, até anteontem, o Xandão, nós, cidadãos e eleitores deste país, continuamos a ter, para mal dos nossos pecados, um Relvas de sorriso hipócrita, um Relvas cantarolando, de nó na garganta, a «Grândola Vila Morena», um Relvas dado à mais precoce das equivalências: a do ridículo.

Ora, este preâmbulo é simplesmente para situar o leitor. Numa altura em que o país atinge um novo recorde de desempregados, que roça agora os 17%, os cortes vertiginosos impostos pela política da Troika prometem elevar a miséria crescente para um novo patamar: quatro mil milhões de euros aguardam novo corte no Estado Social, e os economistas são unânimes em afirmar que entrámos numa espiral recessiva, que nos atirará para um poço ainda mais profundo. No Sporting, a crise de resultados mergulhou, tanto a equipa como a instituição, noutro poço, por sinal também ele fundo, e do qual ninguém parece conseguir ver a saída. A 27 pontos dos primeiros classificados à décima nona jornada, o nome do meio do clube deveria ser, não «clube», mas «crise». E é aqui que traço a paralela. A crise de uns é exactamente a mesma crise dos outros. Tanto o Sporting como Portugal têm ambos sido clubes de paus-mandados, governantes incapazes de programar com critério, de perspectivar o futuro e de idealizar, com sensibilidade, um modelo funcional que permita erguer, ainda que lenta e gradualmente, a sua instituição das cinzas. Portugal porque se verga humilhantemente às directivas atrozes de uma troika tecnocrata e insensivelmente robótica, que ignora a pobreza e carrega os portugueses com o fardo insuportável do desemprego galopante. O Sporting porque, ao longo dos anos, se deixou enredar totalmente pela generosa teia da banca, que emprestou e empresta, milhões atrás de milhões: a banca viciou o Sporting. Viciou e corrompeu, usando a enorme dívida para, calmamente, chegar ao topo da estrutura administrativa e directiva do clube. E com dívidas se escravizam, quer as instituições, quer as democracias. Neste momento, tanto o Sporting como Portugal estão nas mãos dos seus maiores credores, que manipulam informação, gerem ideologias e condicionam as legítimas opções democráticas dos seus afiliados e eleitores. A troika, ao elaborar o famoso estudo sobre as áreas onde deveriam incidir os cortes, analisou dados incorrectos, enumerou situações irreais e fez contas que não lembram ao menino Jesus; tudo para justificar um número tão avassalador como os quatro mil milhões de euros. Já no Sporting, em início de campanha eleitoral, corre a mensagem de que serão necessários 25 milhões de euros a quem deseje avançar com a candidatura ao cargo de presidente. Ora, isto, como disse o jornalista Paulo Garcia, e bem, «é resumir o Sporting a um cheque». É passar por cima do pluralismo ideológico, por cima das diferentes opções democráticas, por cima da verdade e do esclarecimento que os adeptos e sócios do clube necessitam a fim de exercerem o seu voto em consciência. Espalhar nos meios de comunicação uma ameaça velada deste tipo tem o fim de amedrontar putativos candidatos, com vista a diminuir o leque de opções e a aumentar as desistências perante uma quantia que poucos têm. Poucos ou nenhuns…excepto a banca. Curioso? Sim, curioso e viciante, como as espirais recessivas.

Primeiro falou-se em Figo para avançar com uma candidatura em prol dos interesses da alta finança. Ao seu nome associou-se o de José Maria Ricciardi, do BES, que estaria a tentar convencê-lo. Curioso? Sim, pois a popularidade do antigo jogador do Sporting traria votos em barda. Curioso e viciante, como as demagogias. Tendo eventualmente recusado ser marioneta num processo onde seria sempre somente um testa-de-ferro, Figo escapuliu-se, e fez bem. Já Couceiro não se sabe. O que se sabe é que o Sporting precisa de clarificar a sua situação financeira aos sócios, e não se deixar passivo enquanto banzam com o seu passivo e especulam com informações obscuras que ninguém se dá ao trabalho de provar ou comprovar. O Sporting precisa de se organizar administrativamente, precisa de expor a realidade das suas contas, precisa, terminantemente, de bater o pé à banca e rejeitar mais empréstimos malignos, que como em todos os clubes (Porto e Benfica não escapam, mais cedo ou mais tarde, a este precipício…) vão viciando a administração e engordando a dívida e os juros, a ser pagos ad eternum. E para isto tem de delinear um plano que explicite a estratégia económica a desenvolver: um bom princípio seria voltar a apostar na formação, enquanto se reduz progressivamente os custos com transferências erradas e salários incomportáveis. No Sporting clube, como em Portugal, é urgente enfrentar a banca e impor limites ao roubo orquestrado que tem arrasado, tanto as famílias e os desempregados, como os adeptos que desesperam nas bancadas. É imperativo criar uma noção colectiva e social que compreenda que a banca tem de saber o seu lugar, que é o de emprestar com critério, com fiabilidade mútua e com ética negocial. As ingerências e interferências, quer nos clubes, instituições ou mesmo nos Estados, como o nosso, têm de ser refreadas e reavaliadas com um determinado «basta». Sob pena de assistirmos, como temos assistido até hoje, a um golpe de Estado gradual que tem minado a democracia, limitado a pluralidade ideológica e sufocado o Estado Social, cada vez mais desigual, cada vez menos social. Porque as pessoas são isso mesmo, pessoas, e não…não aguentam tudo.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso   

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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