Home

Em Portugal é difícil ser português. Porque o país não avança, não progride e nem sequer se consegue pôr de pé por si mesmo. Com o tempo a passar e a pressionar a conquista deste tão ansiado estágio,  a nação vai desfiando um caminho desconhecido completamente incapaz, debilitada, frouxa, não conseguindo dar um passo firme que seja sem largar as mãozinhas dos papás autoritários.  Se as largar – dizem – a queda será inevitável, calamitosa, devastadora, irreversível. Mas enquanto  as for segurando – constatamos dia após dia – o domínio da qual está refém impedi-la-á, sempre, de aprender a caminhar sozinha.

Enquanto esse dia não chega, e porque ou é isto ou não é nada,  vai-se cortando o mais possível em tudo quanto tenha sido superfluamente gasto, em tudo o que não interessa, em tudo o que não produz,  em tudo o que gasta a mais, em tudo o que paga de menos. Porque subtrair é apenas subtrair, apenas e só.

Nesta missão de cortes desenfreados, os velhos são aqueles que menos importam. Fundamentalmente porque vão ao encontro de todas as possibilidades aptas a resolver a épica equação da austeridade. No conjunto, são os que menos interessam, são muitos e ocupam demasiado espaço – espaço esse que deveria ser ocupado pelos mais novos. Chamam-lhes gastos desnecessários do Estado, por não serem prioritários, vitais, por ocuparem um degrau inferior na hierarquia definida pelos técnicos e especialistas que tomaram conta do nosso país. Pagam pouco pelo que não produzem, e por não produzirem devem ser penalizados.

Resolvida a equação, puramente matemática (e não podia ser de outra forma), segue-se o efectivo corte, puro e duro. Se a cultura dominante, como acontece por aqui, for dando uma ajudinha, a matança faz-se de forma silenciosa, para que o estrebuchar e os berros do estrangulamento sejam o menos notados possível.

Assim, uma intervenção directa, eficaz e abrangente acaba por cortar o mal pela raíz, que é como quem diz as áreas da saúde e da segurança social, uma espécie de sabugo da despesa pública portuguesa. Mexidas matemáticas e científicas como cortes nas comparticipações de medicamentos, supressão de privilégios com a reestruturação dos sub-sistemas de saúde, congelamento de pensões, aumento da carga fiscal e eliminação de benefícios sociais são medidas infalíveis que se traduzem numa contribuição de mais de 2 mil milhões de euros dos idosos portugueses para o cumprimento do défice orçamental, independentemente das suas vidas e sobrevivência estarem a ser postas em causa.

No naufrágio português, assim como no irlandês (o do navio, não o do país), a prioridade de salvamento é dada  às crianças, primeiro, aos jovens, depois, e aos adultos, logo a seguir. A inovação surge precisamente na operação de resgate dos mais velhos. Aqui não lhes é concedido o último lugar na escala prioritária que alimenta o sonho da sobrevivência, mas antes umas frágeis bóias de salvação que são mais suicidas do que outra coisa.

E depois surge o contributo da cultura, ainda antes de qualquer crise económica ou resgate financeiro. Esta cultura dominante, fortemente instalada, é uma cultura que acredita que os velhos, tal como o país em que vivem, são incapazes, inúteis, fracos, e como tal não merecedores dos mesmos direitos dos mais novos. É uma cultura onde os seniores são tratados com desrespeito e desdém; que permite que sejam largados como animais em Hospitais, Lares e Casas de Saúde; e que sejam  verbal, física e sexualmente violentados um dia atrás do outro.

É ainda uma cultura que moralmente se acha no direito de reduzir os velhos ao papel de avós, papel esse hipocritamente difundido e subvertido. Uma cultura onde já se tornou banal a apropriação das reformas dos idosos por parte de parentes e familiares.

É uma cultura que acha que os velhos só servem para os bancos de jardim, e que a sua felicidade deve ser preterida em favor dos mais novos. Os velhos, por serem velhos,  já não podem aspirar à felicidade, mesmo que nunca tenham sido felizes. E assim sendo, o normal é que  se sintam tristes, angustiados  e depressivos, pois o peso da sua idade assim o justifica. Tal como é perfeitamente natural que o grosso do esforço exigido pelos técnicos  lhes seja atribuído.

Daí a colocação dos reformados e pensionistas ao mesmo nível dos trabalhadores: um salário de 500 € é um salário miserável para um trabalhador, mas uma reforma acima de 485 € é um valor mais do que suficiente para um velho que só precise de meia dúzia de tostões para “as suas coisinhas”.

A perda de benefícios na utilização dos transportes públicos ou no acesso à saúde são também relativizados e encarados como algo natural, até potencialmente gerador de uma melhora na qualidade dos serviços. O peso dos descontos e das contribuições pelos idosos é uma vez mais ignorado pelo sistema e pela sociedade em geral.

Em Portugal os velhos não caminham seguros de si sobre a calçada. O passo é quase sempre incerto, o olhar circunspecto, a pose cabisbaixa e submissa, como se a velhice fosse um privilégio concedido pelos mais novos. Assim, arrastam-se e definham-se com a conivência do país que ajudaram a construir, mas onde hoje não têm lugar. Fortemente debilitados em termos económicos, eles demonstram uma subserviência própria de quem não tem forças nem alento para agir de outra forma. E enquanto vão sendo asfixiados pelo sistema da calculadora, vão-se curvando ainda mais perante aqueles permitem, e concordam, com esta estrangulação.

Esta realidade  é cada vez mais dramática e sobretudo preocupante face à inércia da sociedade portuguesa e a indiferença perante a situação de milhões e milhões de reformados. A recessão não explica tudo e há definitivamente uma questão cultural por resolver nas próximas décadas. E 2050 aqui tão perto.

???????????????????????????????André Cunha Oliveira


Anúncios

2 thoughts on ““Este país não é para velhos”

  1. Muitíssimo bem escrito! Vivi parte grande da minha vida em Moçambique, um país cuja cultura valoriza os mais velhos e onde eles não são um fardo mas sim uma peça importante da família e da sociedade. Por isso é sempre um choque para mim perceber a forma como os mesmo são tratados em Portugal. Espero que esta mentalidade portuguesa se vá invertendo, e que não demore muito!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s