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Estenda-se o tapete vermelho, preparem-se as objectivas e as câmeras de filmar, acendam-se as luzes da ribalta para uma das noites mais esperadas do ano: os Óscares estão prestes a chegar. A cerimónia de entrega das tão desejadas estatuetas douradas vai decorrer já na próxima madrugada de 24 para 25 de Fevereiro num enorme tom de incerteza, com os nomeados a disputarem uma renhida luta em que os vencedores permanecerão incógnitos até ao último segundo. Já dizia alguém que “prognósticos só no final do jogo”, mas a minha paixão pela sétima arte faz com que me aventure a elaborar a minha própria avaliação daqueles que seriam os justos merecedores da vitória. A tarefa não parece fácil, mas vamos a isso.

Se os prémios fossem atribuídos em função das nomeações, “Lincoln” e “A Vida de Pi”, nomeados respectivamente para 12 e 11 categorias, estariam já condecorados como os maiores triunfantes, seguidos de perto por “Os Miseráveis” e “Guia para um Final Feliz”, ambos com 8. Mas a longa história dos Óscares conta-nos que não poucas vezes os grandes favoritos passam num ápice de prováveis vencedores a efectivos perdedores, ao passo que aqueles que jamais ousariam sonhar com a estatueta dourada acabam lavados em lágrimas com ela entre mãos; é este o encanto mágico desta gala de dimensão planetária, e outra coisa não seria de esperar.

argoA dúvida começa desde logo com a maior de todas as categorias, a de Melhor Filme. A emocionante operação de resgate de cidadãos norte-americanos das incendiadas terras iranianas decorrida no ano de 1979 valeu a “Argo” o prémio máximo tanto nos Globos de Ouro como nos BAFTA, mas a forte concorrência de “Lincoln” poderá destronar a produção de Ben Affleck na derradeira batalha que são os Óscares. A enorme componente histórica do filme que relata o processo de aprovação da emenda que aboliu a escravatura dos Estados Unidos, aliada à influência do selo de qualidade de Steven Spielberg, acaba por conferir uma ligeira vantagem à obra mais nomeada deste ano. Ainda assim, a minha preferência não recai sobre nenhum deles nem mesmo sobre o polémico “Django Libertado”. Baseado na obra homónima de Victor Hugo, o musical “Os Miseráveis” tem na elevada carga dramática o seu maior trunfo, capaz de fazer sonhar o espectador e de encantar até aqueles que não se dizem apreciadores deste género cinematográfico. As suas probabilidades de vencer são muito diminutas face à fraca tradição de musicais na edições mais recentes dos Óscares, mas o reconhecimento do seu valor seria de maior justiça em especial se atendermos à singularidade das suas características face às dos filmes que com ele competem nesta categoria.

Já no que concerne à Melhor Realização o caminho parece estar aberto para Steven Spielberg conquistar o terceiro Óscar individual da sua carreira, depois dos imortais sucessos de “A Lista de Schindler” (1994) e “O Resgate do Soldado Ryan” (1999). A verdade é que as incompreensíveis ausências de Ben Affleck, realizador do ano para o Sindicato Norte-Americano dos Realizadores e vencedor de prémio equivalente nos BAFTA e nos Globos de Ouro pelo filme “Argo”, e do sempre genial Quentin Tarantino pelo feroz “Django Libertado”, colocam quase à priori a estatueta nas mãos de Spielberg, sendo Ang Lee o único candidato que lhe poderá fazer alguma concorrência pela direcção de “A Vida de Pi”.

hugh jackmanPara Melhor Actor são dois os candidatos que surgem isolados na recta final desta equilibrada corrida. Bradley Cooper, protagonista em “Guia para um Final Feliz”, e Denzel Washington, personagem principal em “Decisão de Risco”, são cartas fora do baralho em virtude da fraca qualidade dos respectivos filmes, sendo que o papel de psicótico veterano da Marinha desempenhado por Joaquin Phoenix em “O Mentor” ainda que brilhante não se apresenta à altura dos restantes dois pesos-pesados. A singular caracterização do Presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln por Daniel Day Lewis é de facto representativa do talento de um actor já vencedor de dois Óscares (“Meu Pé Esquerdo” e “Haverá Sangue”), que vê a sua vantagem consolidada em função da multiplicidade de prémios já conquistados este ano pelo seu mais recente papel. Com ligeiro atraso nesta maratona surge Hugh Jackman, versátil artista que tem a melhor performance da sua carreira na pele do heróico Jean Valjean de “Os Miseráveis”, fazendo uso da sua até então desconhecida expressividade musical para se catapultar para o tão desejado trono dourado, restando agora saber se o salto terá sido suficientemente alto para o alcançar. Day Lewis é brilhante, mas a mestria com que Jackman encarnou uma personagem a todos os níveis mais complexa e difícil de executar parece constituir-se como um argumento decisivo e capaz de fazer pender a balança para o lado do actor australiano.

Na categoria de Melhor Actriz encontra-se a situação mais delicada. O estatuto de outsider de Quvenzhané Wallis, jovem protagonista de “Bestas do Sul Selvagem”, e de Emmanuelle Riva, na produção austríaca “Amor”, coloca as duas actrizes fora da disputa, a menos que algum milagre aconteça. Por outro lado, o sofrimento de Naomi Watts em “O Impossível” parece muito forçado, a frieza de Jessica Chanstain em “00:30 Hora Negra” demasiado plastificada e a ousadia de Jennifer Lawrence em “Guia para um Final Feliz” vulgar em excesso. Provavelmente a escolha da Academia será uma destas duas últimas artistas, ainda que nenhuma das cinco nomeadas seja merecedora na sua plenitude da estatueta dourada.

No que se refere aos Actores Secundários, as escolhas parecem bem mais facilitadas. No género masculino, Christoph Waltz, carismático caçador de bandidos em “Django Libertado”, apresenta-se como o mais forte candidato ao Óscar, arriscando-se desta forma a ser o salvador da honra do filme de Quentin Tarantino, ainda que o prémio também pudesse assentar que nem uma luva tanto a Tommy Lee Jones, em “Lincoln”, como até mesmo a Philip Seymour Hoffman, mestre espiritual em “O Mentor”. Na mesma medida, a Melhor Actriz Secundária tenderá a ser com toda a justiça Anne Hathaway, Valentine em “Os Miseráveis”, ainda que Sally Field possua também algumas hipóteses neste contexto pela representação em “Lincoln”.

spielbergApontados os argumentos e feitas as contas, a 85ª edição dos Óscares poderá ser o palco perfeito para o regresso ao estrelato cinematográfico do género musical. “Os Miseráveis” é um sério candidato às estatuetas de Melhor Filme, Melhor Actor por Hugh Jackman e Melhor Actriz Secundária por Anne Hathaway, às quais se podem adicionar ainda algumas hipóteses nas categorias relativas à Direcção Artistica e ao Guarda-Roupa. Todavia, para que tal aconteça o filme de Tom Hooper terá que superar em todas estas valências a pesada concorrência de “Lincoln” e seus intervenientes, obra de Steven Spielberg que ao somar ainda as nomeações nas áreas da Realização, Actor Secundário por Tommy Lee Jones e Argumento Adaptado por Tony Kushner se arrisca a ser o grande vencedor da noite.

Fica apenas a faltar uma referência a três películas, merecedoras de destaque por diferentes motivos. Em primeiro lugar “A Vida de Pi”, que apesar das 11 nomeações e de toda a sua beleza muito provavelmente terá que se contentar com algumas premiações em categorias técnicas relacionadas com o som e com a imagem, pormenores em que o filme denota uma imaculada perfeição; em segundo, o filme austríaco “Amor”, um drama forte e realista que demonstra o lado mais negro da velhice, cujas 4 nomeações demonstram o crescente reconhecimento do valor dos filmes gravados em língua francesa por parte da prestigiada e não poucas vezes parcial Academia Norte-Americana de Artes e Ciências; a terceira menção é tudo menos honrosa e vai para “Guia para um Final Feliz”, uma produção mediana que passaria despercebida por entre o habitual leque de filmes que as televisões generalistas nos habituaram a exibir nas tardes de domingo, que com 8 nomeações corre desde já isolada para o lugar de maior derrotada da noite.

Tudo isto são suposições que pouco valem na hora da condecoração do que de melhor de fez na sétima arte em 2012. O passar dos anos pôs a nu toda a imprevisibilidade que pauta esta cerimónia, restando-nos esperar que as surpresas decorram sempre no sentido de premiar quem realmente merece. O agora denominado Dolby Theater de Hollywood, em Los Angeles, é o palco escolhido para uma gala conduzida pelo sempre bem-disposto Seth MacFarlane ao longo da madrugada portuguesa de 24 para 25 de Fevereiro. Um espectáculo a não perder, transmitido para território nacional em directo pela TVI.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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