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Pier Luigi Bersani

Ingovernabilidade. Este é o resultado das eleições gerais italianas que deixa em ansiedade toda a Europa e gera mais um fracasso dos mercados financeiros. A aliança de centro-esquerda entre o Partido democrata e Sel – Esquerda, Ecologia e Liberdade (algo parecido a uma junção entre o Ps e o Bloco de esquerda portugueses), que todas as sondagens davam como grande favorita, só chegou ao 29,54% dos votos na Câmara, contra o 29,18% do bloco de direita constituído pelo Povo da liberdade do “Caimano”, Silvio Berlusconi e o partido xenófobo da Liga Norte, e contra o 25,55% do MoVimento 5 Estrelas do actor cómico Beppe Grillo, que não era candidato mas criou e assumiu-se como único porta-voz conhecido do tal dito movimento, formado por umas “pessoas quaisquer”, algo parecido ao movimento dell’”Uomo Qualunque”, de 1944. Tudo isto traduz uma situação de empate entre três forças com uma quarta, a do professor europeista e primeiro-ministro cessante Mario Monti, reduzida a um 10,56% que lhe confere um papel marginal na composição do novo governo.

Mesmo assim, a absurda lei eleitoral – que todos os partidos afirmaram pretender querer mudar, e que de facto ninguém mudou – confere à aliança vencedora de Pd e Sel 55% dos assentos na Câmara baixa. Para além de ser discutível – por um partido com menos de 30% dos sufrágios poder mandar numa parte do parlamento – isto já não chega a compôr um governo, pois na câmara alta, o Senado, a lei eleitoral é diferente e entrega o prémio de maioria de 55% não a nivel nacional, mas sim a nível regional. O que quer dizer que os 55% dos assentos disponíveis por cada região vão para o partido que naquela região registou maior número de votos. Isto faz com que a aliança de centro-esquerda, que também no senado alcançou mais votos a nível nacional (31,63% contra os 30,62% de Berlusconi e os 23,79% de Grillo) não tenha os assentos necessários para mandar, porque perdeu nas regiões mais populosas: Lombardia, Campania, Veneto e Sicilia, que bem se podem chamar como os “Ohio italianos”, tendo por base a uma lei eleitoral que, para o Senado, é parecida com o sistema americano. “Por coincidência”, todas estas são regiões em que os partidos de direita – nomeadamente a Liga Norte em Lombardia e Veneto, e os Cristãos Democratas do Pdl em Campania e Sicilia – têm estado historicamente entre os principais.

Assim, a mesma lei eleitoral que numa situação de empate como esta, confere um grande prémio de maioria na Câmara baixa ao centro-esquerda, faz com que não haja governabilidade no Senado, onde Pd e Sel só têm 120 assentos, à frente dos 117 do Pdl-Liga Norte, dos 54 do 5 Estrelas de Grillo e os 18 do professor Monti. Para mandar no Senado, era preciso chegar no mínimo a 158 assentos, uma meta que o centro-esquerda não vai conseguir nem fazendo uma aliança com Monti, cujo fracasso eleitoral era inesperado bem como o êxito de Grillo.

De facto, as sondagens de véspera davam uma vantagem ao centro-esquerda em termos de votos, mas tendo em conta esta maldita lei eleitoral (que até o seu extensor, o ex ministro da Liga Norte Roberto Calderoli, definiu “uma porcada” (ver vídeo) e foi feita em 2005 pelo governo de centro-direita para complicar a anunciada vitória do centro-esquerda, na altura liderado por Romano Prodi, às eleições de 2006) já todo o mundo sabia que, para mandar, o secretário do Partido democrata Pier Luigi Bersani precisava do apoio do Mario Monti no Senado. Mas o partido de Monti, Scelta civica, acaba por conseguir tão poucos votos que se tornam irrelevantes em todo este processo.

O cenário que se abre agora é o de criar um “governo de saúde pública” com Pd e Pdl, mas isso poderá significar a morte definitiva dos “velhos” partidos, já confinados às esquinas pelo movimento de Grillo que, por seu lado, sempre disse não querer apoiar nenhum governo, mas só as propostas de lei em conformidade com as suas propostas. Então, o impasse em que fica Pier Luigi Bersani é que a matemática impede-lhe de fazer um governo por si próprio, enquanto a política impede-lhe de fazer uma “grande aliança” com o eterno inimigo Berlusconi. E assim, a solução mais provável é a composição de um governo provisório que mude a lei eleitoral para depois convocar novos sufrágios. E tudo isto sem esquecer que há também que eleger um novo Presidente da República já na próxima primavera, tendo Giorgio Napolitano chegado ao fim do mandato. E já há quem proponha prolongar a estadia de Napolitano ao Palácio de Quirinale por uns meses, ou até anos.

Mas como foi possível chegar a este ponto? Como é que o Pd desperdiçou a grande vantagem que ainda tinha em Dezembro passado? E como é que Berlusconi conseguiu renascer das próprias cinzas? E como um movimento criado por um cómico pôde tornar-se no primeiro partido de Itália? (na Câmara, de facto, o Pd consegue ultrapassar o 5 Estrelas apenas devido aos votos de Sel).

Há várias razões: em primeiro lugar, a derrota do jovem autarca de Florença Matteo Renzi nas primárias do centro-esquerda privou o Pd do único líder capaz de tirar votos ao centro-direita, tendo também em conta que, com un candidato com menos de 40 anos de idade como o Renzi, nunca Berlusconi, por sua iniciativa, teria voltado a candidatar-se.

Mas aqui é que Il Cavaliere deu o seu primeiro “golpe de génio”: em plena campanha pelas primárias do centro-esquerda, ele apoiou publicamente Matteo Renzi, dizendo que, com ele ao comando do Pd, a esquerda italiana abandonaria finalmente o próprio passado comunista para tornar-se num partido social-democrata de patamar europeu. E claramente, estes “carinhos não pedidos” cortaram as asas a Renzi face aos eleitores de esquerda que, de facto, acabaram por entregar a vitória ao velho secretário Bersani, o “antigo comunista” do “glorioso” Pci de Togliatti e Berlinguer.

Outro golpe de génio berlusconiano foi o de tirar o apoio ao governo Monti em dezembro, após de ter votado todas as suas leis ao longo do ano, inclusive do imposto sobre as casas, o Imu, que depois, em campanha eleitoral, o mesmo Berlusconi prometeu devolver aos italianos. Nesta situação, o Pd apoiou o governo tecnocrata de Monti juntamente com os mesmos partidos de centro que têm apoiado o actual primeiro-ministro na campanha eleitoral recém-acabada.

Assim, uma vez arrancada tal campanha eleitoral, Berlusconi voltou protagonista e logo o Pdl, que com a liderança de Angelino Alfano caíra para os 12-13% nas sondagens, voltou a voar. O Cavaliere invadiu as televisões, as suas e as outras principais redes públicas e privadas, conseguindo assim, à mercê de promesas populistas e ilusórias como a dita restituição do Imu, retomar uma parte dos votos perdidos.

Mas mesmo assim, há que realçar que o centro-direita perdeu votos muito significativos em relação a 2008: na altura, de facto, o Pdl obtera 37,4% e a Liga Norte  8,3%, por um total do 45,7% dos votos. Desta vez, o Pdl ficou pelos 21,5% e a Lega apenas pelos 4%. O que significa que, em cinco anos, mais ou menos 20% dos italianos que votaram no centro-direita acabaram por o abandonar. Mas o que mudou na cena política italiana nos últimos anos foi mesmo a explosão do Movimento de Beppe Grillo, que tirou votos um pouco a todos os partidos e nomeadamanete aos de centro-esquerda, com o Partido democrata que desceu de 33% em 2008 para 25% em 2013, embora tenha estado na oposicão a Berlusconi até Novembro de 2011.

O que os eleitores de esquerda não perdoaram ao Pd foi de não ter ido a eleições logo depois da queda de Berlusconi, e de ter aceite, pelo contrário, apoiar em conjunto com o centro e com a direita o governo dos técnicos de Mario Monti. Por seu lado, Bersani sempre disse “não querer ganhar sobre os cascalhos do país” e que, por isso mesmo, renunciou a votar no inverno passado.

 Depois, houve os escândalos políticos que todo o mundo sabe e que atingiram todos os partidos, cujo último caso foi o do banco Mps em que expoentes do Pd tiveram sérias responsabilidades. Tudo isto, afastou ainda mais os eleitores pelos partidos tradicionais, e aproximou-os ao movimento de protesto de Grillo.

 O último erro do Pd, e nomeadamente de Bersani, foi o de quase ter renunciado a fazer campanha eleitoral, pensando que a vantagem em termos de imagem e carinho popular ganha pelas primárias de Dezembro chegasse para vencer o Caimano. Há também que dizer que as promessas demagógicas de Berlusconi eram dificilmente questionáveis no mérito, e que isso foi o terceiro grande golpe de génio do Cavaliere encantador de serpentes: falando frente a um eleitorado imaturo, ele apareceu como o único que queria baixar os impostos e até devolver aos italianos o Imu pago em 2012, enquanto Monti e Bersani, os dois, apareceram como os ávidos tecnocratas que, para além de querer manter o Imu, até queriam introduzir um salgado imposto patrimonial.

E assim, entre a responsabilidade um pouco manchada de políticos velhos (Bersani) e novos (Monti), e a demagogia de velhos (Berlusconi) e novos (Grillo) histriões, ganhou a segunda.

Marco Gaviglio

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