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PROENÇA2

Os minutos passavam, e o golo, estava visto, não iria surgir. Não estava nada bem, não estava nada visto. A inaptidão de uns, somada ao anti-jogo de outros, queimava os últimos pavios de um jogo sem fio – de jogo. Futebol entreligado só a espaços, e o rapazote do Urreta já no duche, depois daquele livre de se lhe tirar a chiclete a Jesus. Vai daí, Cardozo resolve entrar em acção: pontapeia Marçal e vê Proença erguer-lhe o vermelho na cara. Justíssimo. Mas a coisa ainda tem, no pouco tempo que faltava, tempo para melhorar: e vai daí, entra Proença em cena, gesticulando o vermelho frente a um sérvio incrédulo – foi a primeira vez que vi um sérvio incrédulo. O Proença, que assentava o nome de Matic, mostrava cara de quem tinha a certeza do que acabara de ver. Uma cotovelada na cara do Candeias, e uma decisão às avessas. Proença vira, mas errara limpidamente: o sérvio é como o algodão, não engana. No dia seguinte, os jornais rezavam a frase de Proença para Cardozo, depois daquele desaguisado momentâneo: «Isto vai sair-te caro…» diz-se ter alertado o árbitro para o paraguaio. E foi aí, nesse segundo cosmológico e fatídico em que leio pela primeira vez a frase, que esta crónica se começou a escrever sozinha.

Não no papel, mas nos actos. Aquela frase premonitória estava presente na minha mente enquanto eu abria uma carta de um banco que me acabara de ser entregue em mãos – um aviso, claro e frio, como os olhos terminantes de Proença. A carta, gentilmente cínica, exigia um pagamento em falta, que, se não fosse imediatamente saldado, me custaria uma queixa ao Banco de Portugal. A fraudulenta quantia deixou-me estupefacto: nove euros. Todo eu tremi num tumulto de incumprimento, qual caloteiro que se preze. Se eu tivesse uma bandeja na mão, deixá-la-ia cair, só por propósitos dramáticos. «Nove euros…» pensei para comigo, «e agora como é que eu me vou governar…?» ­­­­­­ – Aparentemente, devia-se à abertura de uma conta (patrocinada por uma faculdade que adora fazer parcerias com bancos para impingir contas e potenciais créditos a alunos seus…) que nunca fora usada, que nunca contera um único cêntimo. E é aqui que entra o Vitor, não o Gaspar, mas o Constâncio. O tal Vitor, actual vice-presidente do Banco Central Europeu, que foi promovido ao cargo depois de ter ocupado o posto de governador do Banco de Portugal aquando do escândalo financeiro do BPN. Vou repetir, adicionando um número e uns nomes: o Vitor, aquele que estava a cargo de supervisionar, detectar e reportar práticas de gestão danosa dos bancos. O Vitor, aquele que não viu, simplesmente não viu nem ouviu falar nem sequer suspeitou, de 900 milhões de euros a passarem-lhe debaixo do nariz com um travo indistinto a fraude e a compadrio bancário, que enriqueceram e favoreceram muitos nomes da alta finança e da alta política portuguesa. O Vitor, ele e a sua equipa de patrulha financeira de bairro ao domingo, que não patrulhou sequer um centavo de todo aquele esquema grandioso e ultrajante que foi o BPN. Talvez o Proença visse, e brandisse o cartão vermelho bem na testa do Loureiro. Ou do Oliveira e Costa. Talvez até escrevesse no cartão que vira ligações tremendamente comprometedoras entre partidos e todo aquele aparato fraudulento. Talvez sim, sem esquecer do Franquelim. Rima e só pode ser verdade, porque como dizia a minha avó, as rimas são como os sérvios e os sérvios são como o algodão: e assim ninguém se engana. Isto anda tudo ligado.

«Isto vai sair-te caro» tornei a ler eu. A frase perseguiu-me e comecei a duvidar se a carta teria um nove ou um novecentos milhões. Vislumbrava o Proença, indignado, dando ordem de expulsão ao paraguaio, que por conseguinte se virava para mim e dizia: «Oh Bruno, paga o que deves!». E eles, quando pagam, ao país, aquilo que devem? Desde o rebentamento do caso BPN, o Estado gastou já mais de 8 mil milhões de euros de dinheiros públicos para tapar um buraco que se perpetua aberto e que foi criado por transacções dissimuladas, compra e venda de acções da SLN com intuito de beneficiar clientelas amigas e de proporcionar negócios chorudos de risco zero para a malta engravatada se refastelar. Negócios houve que envolviam transacção de acções que nem sequer tinham valor de mercado ou qualquer cotação na bolsa, imagine-se. Mas o Vitor não viu. A falta, um penalty do tamanho de centenas de milhões de euros transformados hoje num prejuízo de mais de oito mil milhões, ficou sem punição. Nem um amarelo; só Oliveira e Costa. E foi aí que percebi.

Percebi que afinal, a incompetência, ou mesmo, quem sabe, a ignorância dos que não querem ver, compensa. O amigo Vitor foi promovido a vice-presidente do BCE, qual douto governador que merece o elogio de quem tem credibilidade e currículo para subir na carreira a pulso. Estamos todos muito mais descansados com ele nos destinos da Europa, sem dúvida. Vai na volta ainda lhe escapa uma grua gigantesca com sacos do lixo a rebentarem pelas costuras com notas de 500. Ou talvez não. Talvez os sacos lhe caiam na cabeça e haja alguma esperança: repito, alguma. Quando estava a pagar a minha dívida ao banco, (e de bom grado a encerrar uma conta que já nem sabia existir) os tais míseros nove euros, percebi também a analogia irónica e dramática da nossa realidade. O Proença é que tinha razão. «Isto vai sair-te caro», mas não é a mim. É a todos. A todos os portugueses, contribuintes que sufocam por cada euro, mas que vêem os seus governantes e os seus responsáveis políticos falharem em assuntos tão cruciais como este. Um buraco a céu aberto e sem fim à vista, que desvia milhões infinitos e abala uma economia já de si morta-viva – é isto o BPN, como também o é o mundo da finança desregulada e da total ausência de controlo da lei no que toca a crimes do capital. Principalmente se envolverem potenciais promiscuidades com o poder político. O Proença é mau, mas o Vitor é bem pior. O Proença vê penalties onde não os há, e não vê foras-de-jogo de um metro em lances de bola parada, mas o Vitor bate-o aos pontos. Aos pontos e aos milhões.  O Proença deixa a bola cair estritamente em poças de água, o Vitor andou à chuva e não se molhou. O Proença apita finais europeias, o Vitor tornou-se vice do Banco dos bancos europeus. O Proença é mau, mas com ele posso eu (e o meu bolso) bem. Eu e todos nós.

Bruno Falcão CardosoBruno Cardoso desenho 

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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One thought on “Com o Proença posso eu bem

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