Home

Sei bem, e percebê-lo-á o leitor ou a leitora, que este artigo se deveria intitular «No feminino», mas se assim preferi escrevê-lo, e sobretudo se até aqui o leitor veio, talvez a minha manigância tenha tido sucesso. Dirão, alguns, que esta pode ser uma estratégia machista, mas peço-vos que não o façam. Simplesmente, não se pode pedir a um escritor que deixe de brincar com as palavras, ou, bem assim, que deixe de gostar de mulheres.

Entremos então no tema: as mulheres no desporto. É certo que já longe estamos dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, onde só os homens participavam, evitando-se assim que às belas donzelas acontecessem desgraças capazes de lhes vazar a sensualidade, ou de mostrar que Afrodite também tinha entranhas, como o sucedido a Creugas de Epidamnos, atleta inadvertidamente esventrado durante um combate de boxe em 400 a.C. Mas estaremos realmente assim tão longe?

De facto, as mulheres só começaram a participar nos Jogos Olímpicos nos segundos Jogos da Era Moderna, em 1900, há pouco mais de cem anos, na altura podendo apenas participar no golfe e no ténis em relva, e só gradualmente tendo a sua participação sido estendida a mais desportos – notavelmente, a igualdade no número de desportos foi apenas atingida no ano passado, em Londres, com a inclusão do Boxe feminino no programa Olímpico. A edição de 2012 assinalou também um importante marco, uma vez que o Qatar, Brunei e Arábia Saudita cederam à pressão do Comité Olímpico Internacional para incluírem atletas femininas nas suas delegações. Isto significa que só a partir de 2012, mais de 25 séculos depois, se pôde dizer que todas as nações olímpicas já enviaram mulheres aos Jogos.

O problema do desporto no feminino tem, simplificando, duas vertentes: o segundo plano em que sempre fica, ocultado pela sombra do desporto masculino; e a excessiva divisão, geralmente apenas formal e desligada da realidade dos corpos, entre homens e mulheres, impedindo as mulheres de competir com os homens e, em alguns desportos, tornando quase impossível a participação feminina.

Dir-me-ão, e não sem razão, que muitas modalidades são já disputadas por mulheres e que muitas fazem já da carreira desportiva a sua vida profissional. Porém, o caso não se resolve aí; isso não nos pode satisfazer, porque o problema da igualdade não se esgota na bonomia da estatística, onde a justificação para nela nos satisfazermos não pode senão advir de uma certa culpa que talvez acometa contra nós quando pensamos mais demoradamente sobre o assunto. Respondamos: quando foi a última vez que vimos o desporto no feminino nas nossas televisões? Ou na capa de um jornal diário? Ou como notícia de abertura do telejornal?

E se isto não parece ser nada, faz uma pequena diferença, como diria o Camus. Permitam-me um paralelismo que tornará a questão mais evidente: nos países árabes, as mulheres usam burkas. Sabemos, porém, que dentro de casa, ou em eventos exclusivamente femininos, as mulheres árabes podem vestir-se como muito bem entenderem, como qualquer mulher ocidental. Significa isso que nos países onde a lei islâmica prevalece sobre os costumes as mulheres são livres de usarem o traje que desejam? Significa isso que são tão livres como os homens? Decididamente não, e um tal salto lógico exigiria não menos a suspensão da racionalidade do que o abandono do chão, num insustentável salto em altura que nos devolva depois à certeza do soalho, sem o colchão azul que habitualmente compactua com as falhas de carácter e pensamentos imponderados.

E porquê? A pergunta, que atormenta tanto o leitor como a mim mesmo, não é de fácil resposta, mas creio que assenta fundações aqui: se não passou na televisão é porque não aconteceu – longe da vista, longe dos media, o desporto feminino pode muito bem estar perto do coração, mas permanece longe da carteira. Certo, certo, há o ténis – espécie de baluarte onde elas são rainhas, ainda que suspeite que essa coroação é apenas uma concessão que os homens lhes fazem pelo puro prazer das saias curtas –, e o futebol, somente por vezes, nas competições inter-nações, que se vai safando em meia dúzia de países sobretudo por inércia do destaque mundial dado às competições masculinas. Sintomaticamente, o futebol feminino é sempre jogado de tarde; o horário nobre está reservado aos homens, cujos jogos se sacrificam aos cifrões do ecrã. Belíssimas, a igualdade e a fraternidade das transmissões televisivas.

Dir-me-ão que é o mercado, o share e as audiências, o Ronaldo e o Messi, e os patrocinadores, o capitalismo e o lucro. Digo-vos eu, então, que tudo isso é verdade, mas que, se assim é, será necessário mandá-los a todos para esse sítio que habitualmente partilha com as palavras-passe o secretismo de uns quantos asteriscos que não se podem dizer. Porque compactuar com essa visão é dizer que só nos interessam os homens, e que eles valem mais.

O argumento de separação entre sexos é geralmente o da diferença de capacidades físicas entre eles, suportado pela maioria das Federações Olímpicas Internacionais – das 35 existentes, apenas uma tem uma presidente mulher. Deve desconfiar-se de tal argumento, porém, porque ele não se refere a este ou àquele aspecto físico particular, mas porque é estendido, como um véu peçonhento e mentiroso, sobre todos os desportos – só no hipismo a competição é directa –, fazendo com que até nas provas de tiro, que já foram disputadas em conjunto por homens e mulheres, se tenha posteriormente decidido implementar competições independentes. O argumento perde assim força à partida, larga antes do disparo inicial e perde sentido, tornando-se tiro de pólvora seca, incapaz de convencer.

Por que razão, então, não há mulheres a competir com homens em modalidades onde o dúbio argumento das capacidades físicas entre os sexos não pode sequer ser remotamente posto, nem pelas mentes mais tacanhas, como no tiro ou no automobilismo? O que explica que, em toda a história da Fórmula 1, onde não é vedada a competição às mulheres, apenas 5 tenham participado num total conjunto de 22 Grandes Prémios, pouco mais do que as corridas disputadas numa única época por qualquer piloto masculino, ano após ano?

Actualmente, há apenas uma mulher na F1, e sem previsão de entrada em prova: Susie Wolff é piloto de desenvolvimento da Williams – e, não podemos ignorá-lo, é mulher de “Toto” Wolff, pertencente à administração e investidor, com 16% das acções – sim, adivinharam – da mesma Williams.

Não acreditando eu numa mera favorabilidade estatística, a resposta talvez esteja, então, nos próprios homens, que habitualmente respondem ao tema com sobranceria e paternalismo, e talvez até um risinho escarnecedor. Evidência disso encontra-se numa entrevista dada por Alain Prost à jornalista Selina Scott, da BBC, em meados dos anos 80. À pergunta sobre o porquê de não haver mulheres na Fórmula 1, Prost dá a resposta mais machista e condescendente de que se poderia ter lembrado: «Você é uma mulher muito bonita; conheço alguém na McLaren que gosta muito de si; posso recomendá-la.»

Evidentemente, não será preciso dizer mais. Talvez todos os desportos onde haja cheerleaders, meninas a beijar ciclistas no pódio, como se fossem elas o próprio troféu, ou beldades em couro justo à frente dos carros numa grelha de partida nunca poderão ter mulheres a actuar como atletas. Não me interpretem mal: mulheres em fatos justos ou semi-nuas são algo de que eu gosto talvez tanto quanto ou mais do que o leitor ou a leitora, mas parece-me que a igualdade no desporto está ainda longe de ser alcançada, e que não o será enquanto das mulheres os homens só quiserem a beleza, preservando o medo infantil, escolar, de perder o jogo para uma rapariga.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s