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macaco_pulp_fiction_segurando_armaLembro-me de ser miúdo e de ver a televisão portuguesa como uma coisa muito esquisita. Ainda hoje é assim,  mas naquela época  era todo outro nível. Fosse que canal fosse, o espectáculo estava quase sempre garantido, com muita cor e animação à mistura. Recordo-me particularmente de um programa de que todos vocês se lembrarão: o grandioso Big Show Sic. Um talk-show de entretenimento (a wikipedia não me deixa mentir) que começava de manhã e se prolongava até à noite (podia até nem ser, mas esta era pelo menos a minha percepção). O número interminável de horas de duração do programa tornava a experiência de visualização deste – chamemos-lhe uma vez mais – talk-show de entretenimento, verdadeiramente traumatizante.

Dentro daqueles 5 metros quadrados de estúdio gerava-se um reboliço alucinante. Era ver uma catrefada de gente a dançar horas a fio sem parar, dezenas de pessoas encavalitadas umas sobre as outras, na plateia, meia dúzia de câmeras a atropelarem-se numa área de captação mínima e depois um espaço central onde toda a acção se desenrolava: o palco. No palco do Big Show Sic aconteceu de tudo um pouco. Era tudo muito veloz,  com muita dinâmica e adrenalina, tanta que às vezes nem dava para perceber o que é que se estava para ali a passar. Havia um senhor que comandava toda aquela trupe, e que andava aos saltos de um lado para o outro. Dependendo da ocasião, ele aparecia de Poirot, às vezes de Super-Homem, outras de mosqueteiro e outras ainda de Aladino. Sempre em seu redor umas quantas senhoras bailarinas com umas cabeleiras e uns fatos de banho carregadinhos de brilhantes. Chamavam-se baionetes e tinham já uma certa idade, mas isso acho que não era suposto saber-se. O senhor, que por acaso se chamava Baião, tinha uma energia inesgotável, dançava a um ritmo frenético e não parava nem um só segundo. Quando se lembrava, saltava para cima de uma baionete e dançava com ela loucamente, agarrando-a com tal vigor que ela quase se desmanchava.

Depois havia muita e muita música. Artistas de toda a espécie desfilavam todas as semanas por aquele palco, lugar de emoções de onde saíram estrelas como Ágata, Clemente, Tony Carreira e Claudisabel. Outros, mais novinhos nestas andanças, submetiam-se a concurso e à avaliação de um rigoroso painel de jurados. Para complementar, pequenos sketches de humor protagonizados por cómicos de primeira e ainda um espaço social de entrega de cabazes e afins para as mentes mais depressivas. Tudo isto junto dava uma grande salganhada e uma mixórdia de momentos que catapultaram audiências e atraíam milhões e milhões de portugueses.

Mas a grande atracção do Big Show Sic não era o seu apresentador, João Baião, nem as belas e jovens Baionetes. Nem sequer o senhor de farta cabeleira da marquise de lá de cima, o brasileiro Ediberto Lima, ou o grande Dj Pantaleão. A estrela-mor do programa era mesmo o símio enjaulado que tanto furor provocou na década de 90 em Portugal. O Macaco, de seu nome Adriano, era um bicho enfurecido e na realidade muito pouco tolerante. Aparentemente de mal com a vida, vá-se lá saber porquê, ele causava o pânico junto da pequenada que era sequestrada por pais e avós para aquele circo semanal. Fosse pelo seu aspecto de King Kong (chamá-lo de macaco era um eufemismo), fosse pelo seu comportamento agressivo, a revolta do Macaco Adriano era o momento mais temido do programa, mas simultaneamente o mais esperado pelos espectadores. Quando falava na intolerância da mascote de João Baião, referia-me à enorme sensibilidade dos seus tímpanos, em particular para com as vozes desafinadas dos concorrentes musicais que semanalmente subiam ao palco do Big Show. A cada nota em falso, era ver o Macaco Adriano a embravecer-se, agitando a jaula onde coabitava mas da qual tinha total liberdade para sair, assim o entendesse. Quando o limite da sua paciência já tivesse sido atingido, Adriano abria as portas da gaiola e corria furiosamente à caça do concorrente desafinado, expulsando-o do estúdio sem dó nem piedade. Muita e muita controvérsia aquele momento do programa gerou, mas também é verdade que naquela altura ainda não existiam redes sociais, e portanto a capacidade de indignação era muito menor.

Seja como for, este texto, para além de servir de sugestão para a rubrica da SIC Perdidos e Achados (Afinal que é feito do Macado Adriano?) pretende sublinhar a falta que este bicho, tão mal visto pela sociedade portuguesa da época, hoje faz. Não que eu ache que ande para aí uma praga de cantores de banheira que mereçam ser silenciados e repatriados do país, de todo. Mas, bem vistas as coisas, quem é que hoje se poderia dar ao luxo de prescindir de um Macaco Adriano?

Num país vazio de critério e autoridade, onde uns toscos mandam e outros mais tansos obedecem, ter alguém (ou um bicho) que fizesse o trabalho que já devia ter sido feito era tudo o que nós precisávamos para andar com isto e com esta rapaziada para a frente. Por mais bela e simbólica que seja a Grândola Vila Morena, e por muito que ela sirva para calar as alarvidades do bando de incompetentes que continuam a desafinar, e de que maneira, a política portuguesa, o efeito não deixa de ser passageiro e reduzido a umas quantas páginas de jornais. Na prática, eles continuam por aí a cantarolar a torto e a direito, seja escondidos por detrás dos polibans das suas fortalezas, seja nos palcos e salas de espectáculos mais excêntricos e exuberantes desta perolazinha do atlântico chamada Portugal, à frente de tudo e todos e com a maior cara de pau.

Com um macaco, preferencialmente o Adriano, tudo seria mais fácil. À primeira desafinação, a conversa estava acabada. Rua com eles dali para fora, que os nossos tímpanos já não aguentam. Ao Macaco, com plenos poderes e legitimidade para avaliar e distinguir os bons dos maus, aqueles que nos fazem bem aos ouvidos e os outros que os rebentam, nota após nota, ser-lhe-ia por isso atribuida total liberdade e poder de decisão, tal e qual como acontecia no Big Show. Assim, para além de sermos poupados aos discursos da tanga e vazios de verdade, teríamos ainda a oportunidade de nos vermos livres deste repertório já completamente gasto, cujas letras os portugueses já conhecem “de cor e salteado”.

O Macaco Adriano seria ainda uma figura de estado imponente, capaz de impôr o respeito que os outros animais de que temos estado a falar não têm conseguido. Com uma enorme capacidade negocial e de defesa dos interesses nacionais, quem sabe ele não conseguiria evitar os cortes de 4 mil milhões que estão quase quase a chegar e que vão basicamente deixar os portugueses, aqueles economicamente mais frágeis e dependentes de prestações sociais, com menos dinheiro. Um Macaco com toda aquela envergadura era bem capaz de atemorizar os caçadores de devedores que tanto nos têm perseguido, fazendo prevalecer os direitos do seu povo e os princíos democráticos que regem o país.

Acabámos de assistir a mais um fim-de-semana atribulado no continente europeu. Eleições após os eleições, os resultados que nos chegam mostram uma Europa em estado de sítio, desfragmentada, falida, com economias em recessão e taxas de desemprego galopantes, e sobretudo uma classe política cada vez mais descredibilizada. Em Itália o descontentamento do seu povo foi visível no acto eleitoral de segunda-feira. A ausência de alternativas sérias e credíveis a Berlusconi levou a que um comediante, acabado de entrar na política, conseguisse atrair o maior número de eleitores italianos e se tornasse na principal força política do país. Nem Berlusconi, nem Monti e nem Bersani. Os velhos dinaussauros políticos estão desacreditados e já ninguém os consegue ouvir. As pessoas, desesperadas, ja estão por tudo. Se em Itália o decontentamento tem reflexos significativos no apoio aos grandes partidos, em Portugal, estou convencido, só um Macaco poderia fazer a limpeza que urge ser feita.

Se o Ricardo Ricardo foi corrido à vassourada, por que é um Ministro “iletrado” também não pode ser? Somos todos muito pacientes e tolerantes, só o Macaco é que não. E já que estamos nesta onda porque não dizer – antes um Macaco do que um Cavaco. 

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

 

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