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João BeneditoVinte jogos, vinte vitórias. O percurso imaculado da equipa de futsal do Sporting na presente temporada é demonstrativo do espirito guerreiro de um conjunto de profissionais que combatem de peito aberto o atrito estrutural que o clube exerce sobre a actividade dos seus próprios competidores. São eles a representação de uma atitude vencedora que parece andar há muito afastada das paragens de Alvalade, e fazem questão de exibir a cada jogo disputado a ambiciosa humildade de quem quer ser campeão. Merecem por isto todo o crédito dos adeptos leoninos, assim como um especial destaque nestas linhas por parte de um eterno apaixonado verde e branco.

A época de 2011/2012 não foi de boa memória para o futsal do Sporting. O clube de Alvalade foi superado por um Benfica guiado até à glória pelos pés de Ricardinho e pela mestria táctica de Paulo Fernandes, treinador que havia sido campeão em Alvalade na época anterior. O mérito encarnado foi total e os títulos merecidos, especialmente se tivermos em conta as vitórias sobre o Sporting na Supertaça, nos quartos-de-final da Taça de Portugal, na fase regular do Campeonato Nacional e na derradeira batalha da grande final desta mesma competição, em cinco jogos que demonstraram o melhor do emocionante espéctaculo que a modalidade é capaz de proporcionar.

Perante tamanho insucesso, foram postas em prática algumas alterações na composição da equipa leonina, que começaram desde logo pelo comando técnico. Orlando Duarte foi substituído por Nuno Dias, jovem que havia sido adjunto de Paulo Tavares no CSKA de Moscovo na temporada precedente. O curto percurso como treinador principal do ex-internacional português de 39 anos, resumido com pouca história às três épocas em que orientou a formação do Instituto D. João V, aliado à ausência de títulos no seu currículo, conferiu a esta aposta uma elevada probabilidade de insucesso. Por terras lusitanas não alcançou mais que uma ida à meia-final do Campeonato Nacional e outra aos quartos-de-final da Taça de Portugal, mas Nuno Dias apresentou-se em Alvalade com a frontalidade de quem vê Orlando Duarte como “uma referência” e com a pretensão de “corresponder com títulos” ao “maior desafio” da sua carreira. E, no que a resultados diz respeito, melhor não podia ter começado.

Vamos então aos números. Nos 18 jogos já disputados da fase regular do Campeonato, o Sporting conta já com 106 golos marcados face a apenas 20 sofridos, score que é ainda ampliado se adicionarmos os triunfos sobre o SL Olivais (2-1) e o Rio Ave (1-5), ambos para a Taça de Portugal. Contas feitas, são 20 jogos vencidos sem um único empate ou derrota que constituem um recorde absoluto em Portugal, 113 golos facturados e 22 sofridos, valores que se fizermos uma média redonda equivalem a uma vitória por 6-1 em cada uma das partidas disputadas. A tudo isto acrescentam-se ainda as duas maiores goleadas da temporada (ambas sobre os recém-promovidos Piratas de Creixomil, pelos parciais de 0-9 e 11-3) e o convincente 4-2 imposto ao Benfica no improvisado Pavilhão Multiusos de Odivelas. Surpreendido?

Como é regra em todas as situações, o sucesso tem sempre as suas razões de ser. São vários os factores responsáveis pelos resultados até agora conquistados, começando desde logo pela manutenção de um núcleo duro de jogadores que tem permanecido quase intocável ano após ano, contribuindo decisivamente para a consolidação de rotinas de jogo imprescindíveis a uma modalidade tão técnica e táctica como é o futsal. Em segundo lugar, apesar do peso decisivo do colectivo é justo destacar o enorme momento de forma de individualidades como Déu, Pedro Cary e Divanei, este último regressado da Rússia com toda a segurança e o perfume que sempre caracterizaram o seu jogo. A acrescentar a tudo isto surge também o papel desempenhado por Nuno Dias, que num estilo muito próprio tem conseguido manter o grupo unido em torno de uma causa maior que só pode ser vencer, dotando em simultâneo a equipa de uma capacidade quase mortífera de fazer golos em contra-ataque ou ataque organizado, valências que a par de uma cada vez mais eficaz exploração das bolas paradas conferiram até ao momento o estatuto de invencível ao clube de Alvalade.

É certo que nada disto é definitivo e que os vencedores só serão definidos nas fases a eliminar das duas principais competições nacionais, mas nesta equação é importante ressalvar que nas 22 edições do Campeonato Nacional já disputadas apenas por uma vez o vencedor da fase regular não conquistou o título decisivo de campeão. As estatísticas valem o que valem e apenas o futuro nos dirá qual o desfecho desportivo da presente temporada, mas os minutos de futsal que até agora se jogaram constituem-se já como um elemento de reflexão para o universo leonino. Esta é uma equipa que por não ter casa própria se vê obrigada a jogar num pavilhão emprestado, uma equipa que deixa tudo em campo por mais uma vitória, uma equipa que depois dos jogos realizados fora de Lisboa se desloca aos núcleos de apoio locais para conviver com os seus adeptos, uma equipa que não ganha milhões apesar de trabalhar tanto ou mais que a outra de futebol 11.

João Benedito e seus companheiros deveriam servir de exemplo para toda a obesa estrutura de futebol do Sporting, composta por jogadores, treinadores e dirigentes que têm mais cifrões do que brio profissional e que colocam sempre os seus interesses pessoais à frente de outros que em teoria seriam soberanos, os do clube. A mentalidade sportinguista carece de uma mudança a nível interno drástica e urgente, que poderia muito bem passar pela generalização a todas as restantes modalidades da política de base que tem vindo a ser implementada com elevada taxa de sucesso no futsal. De que vale ter uma história recheada de títulos, um estádio de 52000 lugares e uma massa associativa tão numerosa se os resultados desportivos são cada vez mais humilhantes? Os adeptos orgulham-se do passado mas vivem do presente, de vitórias e de troféus. Se nada for feito para que eles voltem a aparecer, toda a estrutura corre o risco de colapsar em definitivo à boleia do carrasco que tem sido a danosa gestão desportiva do futebol do Sporting Clube de Portugal, e chegados a esse ponto nem o futsal restará para nos dar alegrias.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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