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czar nunca vem soQuando a bola lhe beijou o pé, em souplesse, o estádio zurziu em uníssono. A recepção de bola e a destreza de um corpo que rodou sobre si mesmo, mantiveram Rinaudo longe do furto da posse. No segundo em que desferiu o passe e descolou a bola, o estádio calou-se para lhe fazer ver – e ouvir, pelo silêncio – que nenhum sportinguista ali presente acreditava haver czares que vêm por bem. Talvez haja males que vêm por bem; mas naquele dia, o czar bateu à porta do reduto leonino. Não pelo resultado, muito menos pela exibição. Mas pelo simbólico valor de uma anunciada traição, que naquele dia era consumada em frente da plateia, dos vizinhos da circular, dos transeuntes, dos voyeurs do pequeno ecrã: Izmailov, de dragão a rigor, perfilava-se inimigo e voltava a uma casa onde estivera meia dúzia de anos. Depois da maçã de Moutinho, encravada na maçã-de-adão do adepto sportinguista, também o russo desertara para lá das linhas inimigas, onde o fogo não é mais do que amigo. Mas na tribuna clerical, essa paz directiva foi abalada pela ânsia de apertar os gorgomilos a um determinado Reinaldo. Estranhamente, os clubes que negoceiam passes de jogadores tal como o miúdo «chico-esperto» troca cromos com o ingénuo e preterido borbulhento da turma, estavam, de fato e gravata, nos preliminares da  pancadaria. Os cromos também trocam cromos entre si – quase sempre cromos mal lambidos e pior que isso: repetidos. Porque a «culpa é vossa», rematou, num souplesse característico de um elefante num antiquário europeu de porcelana, Barroso, presidente da Comissão Europeia. A bola bateu na barra e ricocheteou para o coração da área, onde Izmailov apenas teve de encostar. Da jogada de Barroso, numa iniciativa individual que só os durões podem levar a cabo, nasceu o primeiro golo do russo no clássico. O país ofegou de frustração, as bandeiras amainaram. Pensei para comigo: «é preciso ter czar…».

Estava feito o primeiro golo imaginário do jogo. E, de facto, eu tinha razão. Um czar nunca vem só. Se para os sportinguistas, ver Izmailov seguir as peugadas de Moutinho é sinal de um clube em desorganização sistémica, para Portugal é um péssimo sinal ver o Durão ter uma entrada tão durona que arrepiaria qualquer Rinaudo, qualquer Binya, qualquer europeu. Qualquer português, em particular. O presidente da Comissão Europeia afirmou, aos meios de comunicação portugueses, que a culpa da crise é inteiramente dos portugueses. Que a decadente União Europeia, promíscua em relação à banca internacional e permeável às seduções do todo-poderoso Goldman Sachs, nada tem a ver com o flagelo das dívidas soberanas nem com a permissividade alienada com que tem assistido, nas últimas décadas, à corrupta conduta dos governantes europeus. É uma entrada de Durão, a pés juntos. Não existe um pingo de culpa na política distributiva das quotas de produção (que levou, em muitos sectores, a um «standstill»), nem um pingo de culpa no incentivo ao abate da produção, nem sequer vestígios comprometedores de um projecto desfasado da realidade heterogénea dos países que nunca preparou mecanismos unívocos de resposta a crises económicas. No presente do senhor Durão, a União é uma desunião onde todos ralham mas ninguém tem razão. Pior: é uma casa onde se ralha, manda e impõe, sem sequer existir o pretensiosismo de se ter essa mesma imaginária razão. Como o golo de Izmailov. Na União, vigoram duas correntes acéfalas de dogmatismos: uma, de fundo, que advoga a descida vertiginosa à pobreza como redenção dos Estados, aí então, em cacos. Outra, que se esconde por detrás dessa: a ganância político-financeira de uma União composta por abutres que se sobrepõem, em voo rasante, à suposta classe política que lhes dá cobertura. A Durão faltou honestidade. É uma falta grosseira em que é reincidente. Os cromos repetem-se e por mais que se apresentem gastos, a treta cola-tudo.

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Ora se o golo de Izmailov é tão imaginário como a União da desunião, no que toca à tal frustração nacional, a realidade é outra: bem real. O país ouviu os impropérios de um foragido, de seu nome Durão, que deixou em polvorosa o cenário político e semeou a incerteza num país à espera, de mão estendida, das suas promessas eleitorais, nunca cumpridas. Pirou-se para as europas e deixou o cargo de primeiro-ministro que lhe tinha sido confiado, na expressão base da democracia, pelo voto dos eleitores de Portugal. Cargo que fez questão de trocar por outro, como se a responsabilidade de conduzir os destinos de um país fosse um lugar-comum do qual se pode saltar, ora dentro, ora fora, na simples filosofia da mobilidade de um certo Erasmus contemporâneo. Se esses sintomas de um país apodrecido são bem verdadeiros, talvez as dores de Izmailov não sejam.  Mas a atitude não anda longe da do presidente da Comissão Europeia: «Não me apetece mais, vou mudar de ares», imagino eu que tenham pensado ambos, em uníssono, como a unicidade das vaias em Alvalade. Essas seriam as vaias que o Durão também mereceria. Se as dores do russo são, como tanta coisa neste texto, imaginadas, espero bem que o Dr. Varandas só lhe tenha receitado placebos. Se as lombalgias de Izmailov são, como o doutor explicou, produto de uma psicossomatização barata, as dores do país, pelo contrário, não o são. E a receita, longe de acalmar o suplício, só o piora. A espiral recessiva em que entrámos é a prova cabal de que todos os indicadores económicos foram trucidados pela orientação dos durões da Europa, que preconizam a lengalenga banqueira de um Estado Social que nos ponha a todos em fora-de-jogo. Para depois ainda nos mostrarem o cartão amarelo por termos, num último – e estóico – esforço, rematado à baliza depois do apito.

Não podendo, a bem da verdade, desresponsabilizar, quer o Sporting quer o eleitorado, é indesmentível que o Durão e o czar encenaram, através dos seus actos, uma novela reveladora da falta de profissionalismo e de respeito para com quem assumiram compromissos. Compromissos de milhões, de obrigações, de deveres constitucionais, de raça e união.  Se um foi dúbio e nada esclarecido em relação a dores, muitas vezes indetectáveis, rejeitando-se a treinar e a jogar por quem o acolheu e lhe pagou o ordenado chorudo, o outro pisgou-se para um «clube maior», diria eu. Como quem desconhece o valor do cargo, da confiança democrática das urnas, da representatividade a que foi mandatado. Como quem acha que tinha as costinhas quentes para mandar o Costinha às ortigas, Izmailov recusou-se a jogar contra o Atlético de Madrid perante a desconfiança total dos seus dirigentes. Tal como o eleitorado desconfia das contorcidas palavras de Durão, depois da fuga a sete pés para Bruxelas. Quem nem sequer iniciou aquilo para que foi escolhido, não pode depois tecer considerações sobre o que de mau se fez no país. Porque se negou, de um modo ou de outro, a fazê-lo. Se aos adeptos do Sporting a troca de Izmailov deixou um amargo sabor a derrota, pelo simbolismo assimétrico que o vulto do campeão ostenta sobre uma instituição em desarmonia, esfregando a sua superioridade na cara através da compra dos seus activos mais acarinhados, aos eleitores de Portugal a fuga de Durão deixou, lembro-me eu bem, um sentimento de perplexidade que confirmou o pior: as classes políticas das últimas décadas são mesmo capazes de tudo. É por actos deste calibre que ninguém se admire que o povo tenha descrença total no «ser político». Um czar nunca vem só.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso   

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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3 thoughts on “Um czar nunca vem só

  1. Parabéns pelo artigo e pela comparação tão bem conseguida que aqui apresentaste. No entanto para mim e numa opinião muito pessoal, penso que a atitude a que te referes do Durão Barroso que confesso na altura ter-me causado alguma tristeza porque sempre vi nele potencial de alguém capaz, mas como no futebol também e à semelhança da estratégia que o Benfica tem apresentado ultimamente, a Comissão Europeia reconheceu o potencial e antecipou-se e ofereceu a oportunidade de uma vida ao Durão Barroso que era abandonar um barco a meter água por todos os lados por um lugar de prestígio e com outro grau de profissionalização. Não te censuro nem tão pouco critico quando reprovas a sua atitude mas para mim é o reflexo da mentalidade portuguesa nos últimos tempos.

    O 25 de Abril com toda a nova realidade que trouxe abriu espaço para novos ideais novas linhas de pensamento que prometiam a prosperidade para Portugal e entre esses ideais é que surgiu a ideia e oportunidade de integrar o que viria a ser posteriormente a União Europeia. Agora na minha óptica é aí que tem início a caminhada para abismo em que Portugal se encontra. Portugal simplesmente não tinha nem tem condições para integrar uma União Europeia nos termos em que ela existe e aí o Durão Barroso tem razão porque a culpa é nossa. Portugal viu na União Europeia o pote de ouro que supostamente se encontra no fim do arco-íris, mas alguém já o encontrou? Pois Portugal também não e em vez disso encontrou o abismo de uma crise que começa a pôr em causa a própria União Europeia.

    A culpa é nossa, ninguém nos obrigou a integrar uma organização para a qual não tínhamos qualificações, foi pretensioso e completamente descabido e é isso que vemos hoje reflectidos na sociedade portuguesa. A forma como no fim dos anos 80 e primeira metade da década de 90 Portugal aceitou e investiu o dinheiro proveniente da UE para Portugal colocar a sua economia ao nível euro pode ser comparado à forma como os portugueses recorreram ao crédito de forma desmedida para melhorar as suas vidas. A facilidade de obtenção de financiamento por parte de Portugal e a facilidade de obtenção de crédito pelas famílias portuguesas levou a que se cometessem por vezes exageros e que nos tenha levado por exemplo a um consumismo talvez absurdo. Hoje são inúmeras as famílias nas condições em que o país está ou seja sem condições de pagar as dívidas que contraíram e desesperadamente a tentar negociar a dívida ou recorrer a outros créditos para ir amortizando. É uma dívida que temos todos que assumir infelizmente porque a contraímos e todos usufruímos das suas vantagens querendo ou não é sempre assim em qualquer sítio, se numa família o pai que é o chefe de família contrai uma dívida a mulher e os filhos também a vão pagar de uma forma ou de outra.

    Quanto a questão da União Europeia a qualquer momento vai cair penso que pelo menos com esta estrutura não pode continuar não é sustentável. Portugal não pode viver com o mesmo custo de vida da Alemanha e produzir 10 ou 20 vezes menos é simplesmente impossível. A solução poderá passar por uma reestruturação da UE no sentido por exemplo de existir um orçamento global da UE que permitisse que todos os seus integrantes atingissem uma plataforma vantajosa a nível particular e geral ou então reduzir a UE a 3 ou 4 países que tenham condições de se aproximar ao nível da economia da Alemanha que está a anos luz dos países da Europa do Sul e do Leste principalmente. Neste caso abandonaríamos a moeda única e voltávamos ao mítico escudo.

    No entanto a crise é inevitável. O Durão Barroso foi apenas o reflexo de uma mentalidade individual e competitiva que ao surgir de uma oportunidade de ouro (ao melhor estilo Izmaylov) fintou Portugal e assinou por uma posição mais segura e vantajosa em vários sentidos.

  2. Obrigado pelo elogio e pela tua opinião Marcos, todo o debate e diferença de opinião são aquilo que pretendemos fomentar neste espaço! Concordo contigo em vários pontos, sem dúvida.

  3. Ontem até estava a comentar com Bruno que seria interessante fomentar mais o debate porque os vossos artigos sendo interessantes como são e como normalmente apresentam sempre uma perspectiva diferente, penso que seria bastante interessante também aproveitarmos para discutir ideias e opiniões.

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