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É certo que, algures no século III a.C., Aristóteles cunhou o termo Zoon Politikon (Animal Político), mas será talvez exagerado pôr o grego a arcar com as culpas – hoje, já tanta gente bate nos gregos que não me parece que devamos integrar também a cruzada –, até porque ninguém percebeu o que Aristóteles quis dizer. Uma certeza, porém: não foi isto que temos hoje em Portugal.

Vejamos, então, o que nos tem acontecido a este respeito nos anos mais recentes: Cavaco – que desde os meus seis anos afirmo igual a um dinossauro que tinha num jogo de computador – enterneceu-se com o sorriso das vaquinhas, algo que não parece conseguir fazer pelos portugueses; Manuel Pinho fez de torito no Parlamento, de dedos espetados na testa, mas os forcados, palavra que rima com deputados, ficaram do outro lado da barricada, e ele ficou a marrar sozinho; na Madeira, um Coelho, este mais engraçado e inofensivo do que o do continente, espécie de Bugs Bunny com sotaque, assola um Jardim que se deixou esventrar por tuneladoras toupeiras que importava alimentar, pois vinham a rebentar de progresso e desenvolvimento, mas o que rebentou foi o défice da ilha. Neste contexto, e qual polvo Paul, vem o povo e o que faz? Manda para Paris um Pinto e tira de Massamá, espécie de cartola que faz África surgir logo ali à saída do IC19, um Coelho armado em papagaio, ou em caturra casmurra, julgando-se cantor. Entretanto, como em todas as histórias onde há um Pedro (que, ainda por cima, também é Coelho) surge um Lobo (o Xavier, no caso), pronto a morder-lhe os calcanhares com a sua presença suspeita no covil de feras, ninho de víboras, que é a Comissão para a reforma do IRC – esta parte da história geralmente não contamos às crianças –, cujas inesperadas conclusões apontam para a certamente benéfica criação de um paraíso fiscal em Portugal para o grande capital, coitado, que precisa de todo o carinho que lhe pudermos dispensar. Não ponha esse ar de espanto, caro leitor! Comporte-se e não se enfie já para aí a desconfiar da seriedade desta comissão! Acaso já viu algum Lobo fazer um festim com a porta do galinheiro aberta?

Voltemos, porém, ao que até aqui nos trouxe: onde é que esta tendência para o zoo político começou? Não sei, mas posso arriscar: em 2002, a mulher de Durão Barroso entrava na campanha eleitoral citando Alexandre O’Neill: «sigam o Cherne», dizia, referindo-se muito pouco romanticamente ao marido. Iniciava-se assim não apenas uma tradição – dinastia? – animalesca (Cherne, Pinto, Coelho – troika para as espécies), mas também o plano do PSD para esvaziar o país: se tivéssemos realmente seguido o Cherne, este texto estaria agora a ser escrito (e lido) em Bruxelas, algo que alegraria o Coelho continental, que veio também recomendar a emigração, talvez para ficar a sós com a Merkel ou com o Selassie, com o careca ou com o grisalho, todos entroikados no seu ar Top Cat, bamboleando-se de pastas na mão e Armani nos pés, o passo gingão, espalhando não charme mas receio e ressábio no seu bairro de lata. Há o messiânico coelho governativo de ver neles algo que o inepto cidadão não está, obviamente, habilitado a distinguir; talvez veja neles o caçador da Disney em quem o coelhito gosta de espetar umas valentes beijocas afogueadas, ainda que o predador o persiga de espingarda em riste.

Porém, se tudo começou em Durão Barroso, não acabará certamente em Coelho. Porque, repare o leitor, não é senão em Miguel Relvas que tudo se concretiza verdadeiramente nas suas proporções mais épicas. Relvas é, afinal, um Nibelungo – sim, como os do anel –, na posse das mais estólidas riquezas cómicas, por elas amaldiçoado e condenado a governar essa terra de danados e ingloriosos, não o Niflheim nórdico mas o latino Portugal, onde os políticos sem jeito, e sobretudo os enjeitados, vêm perseverar para toda a eternidade, ao invés de entrarem, banhados em honrarias, no Valhala de Bruxelas, que difere do paraíso nórdico no simples facto de que nunca ninguém julgou que honrarias os seus habitantes merecessem.

Pois não duvide o leitor: se a realidade supera sempre a ficção, como advogava Baudrillard, Relvas supera sempre a realidade, e não sei bem já onde, em face da epistemologia, isso nos deixa. De facto, em Miguel Relvas tudo parece atingir o seu auge, e essa constante superação de todas as barreiras do possível, dos limites do acreditável e de todas as imponderáveis surpresas tem levado, mais vezes do que não, à queda de queixos embasbacados de cada vez mais vertiginosas alturas.

Confesso-vos, então, e para não fugir ao tema, uma convicção minha: há algo de gado ovino em Miguel Relvas. Na verdade, e como o leitor poderá argumentar, olhando para a dieta preferida pelas ovelhas, faria mais sentido dizer que há Relvas no gado ovino, mas deixemo-nos ficar assim, que o argumento mantém-se válido. Não sei se o leitor já viu uma ovelha, mas o olhar dos ovinos, esbugalhado e esgazeado, mereceria um Óscar a Relvas, tal é a proximidade que ele consegue quando se vê enrascado ou encurralado. Além disso, Relvas também bale exemplarmente – porque, cantar, ele não canta –, como o vimos no «ó cidáááá-âá-âá-âá-âá-dee» de uma Grândola, Vila Morena que o Zeca não compôs. E até no jeito aparvalhado e desorientado com que Relvas foge com o resto do seu rebanho pelos corredores do ISCTE, marrando em portas fechadas, saracoteando-se, confuso, contra esta ou aquela parede, cabeceando e dando pinotes ante tudo quanto lhe sai ao caminho torna o caso patologicamente evidente. Ah!, se todo o diagnóstico médico fosse tão fácil quanto o político!

Dizer que Miguel Relvas é bestial – vêem como se faz a ofensa passar por elogio? – pode até ser já um cliché, mas isso não o torna menos verdadeiro. Aliás, na origem, um cliché não era senão uma fotografia de carácter eminentemente documental, uma visão limpa e directa de um monumento ou de uma paisagem que servia como modelo para artistas, ou como souvenir para turistas sem viagens. Sendo certo que não se espera que Relvas seja modelo para qualquer quadro ou estátua – e poderemos regozijar-nos por isso –, imagino que a história, um dia, há-de escrever-lhe a biografia, as suas aventuras e, sobretudo – que a História também sabe ser alegremente sádica –, as suas desventuras. Tenho, porém, curiosidade sobre o início da narrativa, pois é nas primeiras linhas que um livro e um autor adquirem o tom e se apresentam.

Para o caso de alguém querer encomendar-me tão dolorosa e ingrata obra, deixo aqui as minhas sugestões, recorrendo à melhor literatura, de que nos podemos sempre socorrer em momentos difíceis como este. Como verão, seria fácil a sua adaptação, bastando apenas substituir um par de palavras no original, cujas actualizações que proponho assinalo abaixo:

A Metamorfose, de Kafka, é sempre uma escolha segura e notoriamente ilustrativa: «Certa manhã, ao acordar dos seus húmidos sonhos inquietos, Miguel Relvas deu por si em cima da cama, muito transpirado e transformado num animal repelente e monstruoso: uma sebosa ovelha ministerial.»

Não me parece mal, mas talvez o leitor preferisse Moby Dick, de Herman Melville, por mais detalhadamente definir o carácter do ministro e as motivações da sua ida para o governo: «Chamem-me simplesmente Relvas. Aqui há uns anos, não me peçam para ser mais preciso —, tendo-me dado conta de que o meu porta-moedas estava quase vazio, decidi voltar a navegar, ou seja, aventurar-me de novo pelas vastas planícies líquidas da Política. Achei que nada haveria de melhor para desopilar, quer dizer, para vencer uma vocação para a incompetência e regularizar uma vida profissional feita de Jotas e Á-Érres. Algumas pessoas, quando atacadas de melancolia, suicidam-se de qualquer maneira. Catão, por exemplo, lançou-se sobre a própria espada. Eu instalo-me tranquilamente num ministério.»

Haveria, naturalmente, ainda espaço neste artigo para referir de diversas formas e feitios os ensinamentos d’O Triunfo dos Porcos, de Orwell, mas não só o artigo vai longo como o leitor já está farto de saber que, assim como o porcos se tornaram parecidos como os homens, a Assembleia da República se transformou numa espécie de curral de vaias, aplausos e apupos, menos civilizado até, talvez, do que o da Animal Farm, onde se reuniam os porcos e demais animais. Não iremos, portanto, por aí: insistir nesse ponto poderia levar-nos à lama, e para conspurcados já bastam os que em nós mandam.

Hugo desenho 4sc2Nenhum animal foi maltratado na redacção deste artigo.

Hugo Picado de Almeida

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One thought on “Alguns políticos são mais animais do que outros

  1. A nossa elite política é de facto da mais medíocre e comparável a animais que temos na Europa, é triste dizê-lo mas é verdade. Os cargos políticos considerados deveres cívicos em muitos países nomeadamente no norte da Europa são mais vulgarmente considerados em Portugal “tachos” porque é isso mesmo que são. Uma elite política e um governo tecnocrata sem qualquer formação política dedicam-se à actividade política, que volto a frisar é um dever cívico, como uma actividade extra curricular ou umas férias bem remuneradas e com possibilidade de garantir uma boa reforma. A filtragem e jogos interesses começam desde logo na base das Juventudes Partidárias e enquanto a ascensão dos nossos “políticos” for feita desta forma através de jogos de interesses e motivados por motivos financeiros, vamos continuar com a mediocridade governativa, a mediocridade da oposição e a mediocridade de opções para o povo. Penso que enquanto os cargos políticos forem empregos e centros de negócios em vez da sua verdadeira definição e razão de existir, vamos continuar neste impasse com manifestações imensas em que não oferecem nada de novo infelizmente. A demissão do governo não vai trazer nada de bom porque não há nada para o substituir assim como o Passos Coelho não trouxe nada de novo em relação ao Sócrates que sabemos que ia fazer o mesmo. Devemos lutar nas manifestações por uma elite política formada para esse propósito e não que o façam por interesses adversos, devemos lutar para que a actividade política seja um dever e um direito e que como tal seja remunerado de forma justa e não desta forma exagerada. De acordo com a pergunta da semana, a manifestação vai mudar alguma coisa? Não vai mudar nada, poderia mudar um governo ia para lá outro menos capaz ainda e não a Troika não só não sai de Portugal como manda em Portugal infelizmente se temos alternativa? Temos mas qualquer uma inclui pagar o que devemos seja por politicas impostas ou politicas próprias.

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