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Academia Sporting

Há sensivelmente três semanas, o Sporting viu acender em Barcelos uma luzinha de esperança para o seu futuro. Com cerca de 375 milhões de euros de passivo e completamente refém dos seus credores, o clube de Alvalade tem na sua actual geração de jovens jogadores uma tábua de salvação que o pode livrar do “afundanço”.

Após a “Revolução de janeiro” e a saída de 7 jogadores do plantel, Jesualdo Ferreira viu-se confrontado com um número limitadíssimo de opções para o encontro com o Gil Vicente, e não teve outra alternativa senão apostar na famigerada “prata da casa”.

O onze que entrou em campo no estádio de Barcelos tinha uma impressionante média de idades de 21,7 anos, com o atleta mais velho a registar 26 no bilhete de identidade e o mais novo apenas 18. No total jogaram de início 4 jogadores da equipa B, e da equipa titular 5 eram formados em Alcochete, mais 3 sentados no banco de suplentes.

Quem olhasse para a constituição daquela equipa pensaria, porventura, tratar-se de um onze do Sporting de 2015/2016, tal a discrepância entre o plantel que se apresentou em Alvalade no mês de Setembro e a “turminha do infantário” que agora estuda em Alvalade. Mas não. Em poucos meses, o projecto do Sporting de Godinho Lopes (GL) passou de uma aposta em jogadores de mercados internacionais, a fazerem-se pagar bem, para um plano de contenção e o já habitual retorno à bitola da formação.

“O Sporting precisa de cerca de 100 milhões de euros. Eu não era capaz de vir para este projecto sem esses 60 milhões de euros equacionados de forma muito clara para poder organizar o passado e mais 40 milhões para tornar este projecto vencedor no futuro”, afirmara GL na campanha eleitoral de 2011, prometendo um investimento sem precedentes no clube graças à “credibilidade” da sua candidatura.

Dois anos depois, nem 100 milhões nem credibilidade. Ou melhor, os 100 milhões está (e estará, se conseguir) o Sporting a pagá-los, consequência do brutal endividamento a que o clube de Alvalade se submeteu desde que GL assumiu a presidência. O empresário natural de Moçambique, cuja credibilidade o próprio encarregar-se-ia de destruir, acabou por utilizar o velho truque das famílias endividadas, recorrendo aos bancos para pagar a sua gestão com dinheiro que o clube nunca teve nem foi capaz de gerar.

Da gestão danosa de Godinho resultaram cerca de 75 milhões de euros de agravamento do passivo do Grupo Sporting, 0 títulos, 4 treinadores contratados e 3 despedidos, 26 jogadores comprados, um 4.º lugar no campeonato em 2011/2012 e para já a actual 10.ª posição na tabela classificativa da Liga Zon Sagres. A tendência de crescimento dos resultados negativos operacionais da SAD, verificada desde o último mandato de José Eduardo Bettencourt, foi ainda fortemente agravada na era de GL, tendo o clube registado 22,9 milhões de euros de prejuízo no primeiro semestre de 2012/2013.

De um investimento quase nulo e altos proveitos desportivos durante a presidência de Filipe Soares Franco (2006-2009), para mais de 30 milhões de euros gastos no futebol e resultados desportivos deploráveis, com Godinho Lopes.

Aqui chega-se ao ponto com que se iniciou o presente artigo: a luzinha ao fundo do túnel. A formação do Sporting, bandeira do clube e arma propagandística dos seus presidentes e candidatos a presidentes, é talvez a única solução para a sobrevivência do clube. Com uma pequena diferença em relação a anos anteriores: é que desta formação estão prontos a sair um conjunto amplo de jogadores capazes de se notabilizar ao mais alto nível.

scp_inter[1]Recuando à última vez em que a palavra “formação” foi exaustivamente pronunciada pelos responsáveis leoninos, precisamente há cinco anos atrás, com Paulo Bento como treinador, verificava-se um plantel constituído por um elevado número de jogadores formados na Academia Sporting. No entanto, do conjunto desses jovens jogadores, apenas 2 eram rotulados de craques já nos escalões de formação. Miguel Veloso e João Moutinho, hoje longe de Alvalade, ocuparam um lugar de destaque naquele plantel e estavam claramente um patamar à frente dos restantes colegas. Nani ainda mais à frente estava, e daí a sua saída dois anos antes para o Manchester United.

Este é apenas um exemplo do paradigma que foi o viveiro de Alcochete durante muitos anos: uma espécie de Segurança Social para o futebol português, pronta a acudir os clubes mais desesperados e carecidos com alguns dos seus jogadores de média gama. Os outros, de alto quilate, eram mais raros de encontrar, e o próprio ADN da estrutura formativa da Academia não oferecia algumas soluções de que o plantel principal do Sporting necessitava.

O mito da formação, calibrado pelos dois Botas de Ouro Figo e Ronaldo, foi por isso sempre difícil de ser sustentado, em virtude de um leque de jovens jogadores claramente desproporcional, em termos de qualidade. Daí a coabitação de atletas, ainda que todos nascidos em Alcochete, de níveis completamente diferentes. Sem querer renegar alguns dos seus patinhos feios, o Sporting viu-se obrigado a amamentar Ronaldo, Quaresma e Hugo Viana lado a lado com Paíto, Mário Sérgio e Miguel Garcia. Algumas fornadas mais tarde, a mesma coisa com Veloso, Moutinho e Nani, “irmãos” de André Marques, Carriço e Pereirinha.

A tal diferença está na tipologia e quantidade de jogadores que hoje emergem na Academia.  E que já não são apenas extremos nem somente médios criativos. Esta é a geração que maior número de jogadores de futebol profissional está a dar ao Sporting. Sem Figo ou Cristiano Ronaldo, mas com um lote vasto de atletas de primeira linha. E que, ironia das ironias, coincide com o período mais negro da história do clube, financeira e desportivamente.

“A academia é a nossa joia da coroa. Temos petróleo em Alcochete e vamos aproveitá-lo”. A frase do candidato Carlos Severino, embora com uma grande dose de populismo à mistura, não deixa de ser reveladora do potencial por explorar em Alvalade.

Este potencial, que coexiste com 375 milhões de euros de passivo e dívidas de tesouraria que dificultam a sobrevivência do clube, pode ser a chave para a inversão do rumo dos leões, a ser bem explorado pelo próximo Presidente, que terá de ser firme e forte nas suas apostas.

brumas12[1]Tiago Ilori, Eric Dier, Zezinho, João Mário, Bruma e Ricardo Esgaio são a face e os pés desta geração que pode “salvar” o Sporting. Protagonistas da equipa B, actual 3.ª classificada da Liga Orangina, os seis leõzinhos têm lugar garantido no onze leonino da próxima temporada, juntamente com outros miúdos “made in Alcochete” como Filipe Chaby, Kikas ou Betinho. Isto para além dos já posicionados no plantel como Rui Patrício, Adrien Silva e André Martins. A oferta diversificada de jogadores, do ponto de vista técnico e físico, garante, pela primeira vez nos últimos anos, a possibilidade de constituição de um plantel de qualidade quase exclusivamente formado por jogadores da Academia.

A robustez e velocidade dos dois centrais Dier e Ilori,  a dinâmica, criatividade e capacidade de passe dos seus médios (Zezinho, João Mário e André Martins) e a inteligência (Ricardo Esgaio), irreverência e explosão dos seus alas, com Bruma à cabeça, são quanto baste para devolver ao Sporting pelo menos parte do seu estatuto.

eric-dier4698da64_400x225[1]Se antes a aposta na formação era arriscada, pela sua natureza assimétrica, hoje ela é o garante de resultados a baixo custo. No jogo contra o FC Porto, e chefiados pelo imponente Eric Dier, o Sporting, com 4 jogadores da Academia no onze titular, bateu-se de forma exemplar (e com a estratégia que lhe restava e que se lhe exigia) frente a uma equipa de outro nível. A competitividade dos jogadores desta sua nova geração, que se alastra a todos os escalões de formação do clube, contrasta com o espírito conformista de algumas das “estrelas” em final de carreira que o clube insiste em contratar. Só isso explica o contraste entre o projecto vencedor da Academia Sporting e a razia de resultados da primeira equipa.

Combinando estes jogadores com outros que o ex-director Carlos Freitas foi capaz de contratar, como Marcos Rojo, Zakaria Labyad, André Carrillo, Jéffren e Diego Rubio, o Sporting pode embalar para um futuro bem mais promissor do que aquele que alguns críticos, rivais e adeptos fatalistas apontam.

Sem petróleo, porque ele já está todo penhorado (mais uma das heranças de Godinho Lopes), mas com um conjunto de atletas dispostos e com qualidade para jogar à bola e trazer os adeptos ao estádio. Pondo fim às políticas despesistas de Godinho, mas renovando a ambição do clube através de uma gestão rigorosa e transparente.

A receita pode por isso ser bem mais simples do que aquilo que se pensa. Com um presidente pragmático, minimamente inteligente, e disposto a provocar rupturas e quebrar lobbies; um director de futebol competente e avesso a mediatismos e um treinador com personalidade e conhecimento do mercado, o Sporting, aproveitando esta geração, ganha uma oportunidade de se reerguer.

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

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