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cardi

«Aí vai ele. Um dos protótipos de Deus. Um mutante possante de uma qualquer espécie nunca sequer pensada para a produção em massa. Demasiado raro para viver, demasiado raro para morrer». Pelas palavras de Hunter S. Thompson resume-se, na sua mais antitética essência, a figura de Óscar Cardozo. Do cume dos seus mil novecentos e trinta milímetros, a montanha de homem pariu um paraguaio com a cara tatuada de uma sofreguidão que é invariável consoante a situação: na alegria e na tristeza – tal como nos casamentos – o esgar cansado e abatido é a máscara de guerra de quem normalmente deixa a espingarda na guarita antes de comparecer à invasão da Normandia. É assim Cardozo. Pesado, desarticulado, de compasso arrastado, parecendo que carrega sete anões às costas cada vez que arranca três ou quatro passadas mais afoitas no relvado. Leniente, figura de corpo presente, Cardozo é um activo apático que sintetiza em campo a contradição diametral que a sua, ora presença, ora ausência, reflectem na realidade do Benfica. O paradoxo é este: o gigante Guarani faz tanto fazendo aquilo que melhor sabe – que é fazer pouco. Nesse capítulo, diria que existem raríssimas excepções que possam competir com a aptidão de Cardozo para não fazer praticamente nada. Muitos diriam até, numa deixa reforçada de malícia, que é difícil fazer tão pouco. Eu sou dos que pactua com tal ignomínia retórica. E volto a concordar, imaginando que existem carradas de jogadores que bem tentam fazer o mínimo possível, mas que acabam sempre batidos pelo instintivo impulso humano de mexer uma articulação ou outra. Isto para lhe dizer a si, caro leitor, um segredo ao ouvido – Óscar Cardozo é um espantalho.

Verdade. Aliás, existem estudos no Canadá que comprovam a minha tese. Eu peguei neles e adiante foi sempre em dedução até à prova cabal. Cardozo é antítese, Cardozo é golo e falhanço, Cardozo é móvel na imobilidade, Cardozo é titular e nunca sequer esteve realmente em campo. É neste esoterismo uncanny que se situa o melhor marcador do Benfica. Marca que se farta e sempre esteve farto – basta contemplar a sua cara de prisão de ventre. Daí as palavras do alucinado escritor Hunter S. Thompson caírem que nem uma luva ao paraguaio: este representa um protótipo único que os deuses deixaram no armário faz milhares de anos. Não faz, e consequentemente, acontece. É esta a sina do avançado encarnado. A sua lentidão desesperante, a sua total incapacidade de se desmarcar e dar profundidade ao jogo, o seu medíocre poder aéreo e o seu catatónico tempo de reacção, deixariam antever um não menos retardado ponta-de-lança, inútil a qualquer equipa com pulsação entre o lote de avançados disponíveis. Mas não. Cardozo marca, e marca, e repete a dose e encosta mais uma vez. São golos em barda, e de facto, cada um com cada bujarda, alto lá com ele. Então como se explica que alguém com tão pouca acutilância possa ser tão vital para uma equipa de trabalho como o Benfica? Ora, porque Cardozo é um espantalho espetado bem no meio da área adversária. O espantalho personifica a pessoa, ou seja, faz simular a presença humana através de materiais inanimados que se compõem para dar corpo falso a um «alguém» que não tem realidade viva. No caso das plantações de arroz utiliza-se um espantalho feito com um pau de madeira, roupas velhas, um chapéu e um opcional recheio de palha. No caso do Benfica, utiliza-se a receita paraguaia: Óscar Cardozo. Enquanto o espantalho afugenta os pássaros das preciosas plantações dos agricultores, simulando a presença humana, Cardozo afugenta os defesas opositores através da mesma metodologia: finge que está mas não está verdadeiramente; finge que corre e não engana ninguém. Finge que vai fintar, mas embrulha-se e perde o lance. E no meio do acto de «simplesmente estar», Óscar é arremessado pela maré que faz questão de o desaguar aos golos, pois nos últimos anos, muitos têm sido os assistentes de referência que pontificaram no Benfica de Jesus. Desde Dí María e Coentrão, a Aimar, Saviola, Ramires, Gaitán, ou Salvio e Ola John, têm sido inúmeros os jogadores que incorporam uma equipa que tem no seu metabolismo a marca genética de um ataque desenfreado, fulgurante, ávido e ambicioso. A avalanche ofensiva encarnada é a cicatriz de guerra de um Jesus sedento de sangue: e Cardozo leva por tabela. Ali bem pregado ao relvado sagrado da Luz, a sua figura de corpo presente mistifica a desmedida irreverência tecnicista dos executantes encarnados, encobrindo a sua própria ausência e encostando o que houver para encostar. Cardozo «tem razões que a própria razão não entende», como diria Pascal se algum dia fosse citado por Jorge Jesus.

gaspas

Para qualquer adepto benfiquista, é uma constatação óbvia que Cardozo não faz parte do lote de «papoilas saltitantes», como o hino de Piçarra tão bem entoa. O paraguaio estará mais para «carvalho empedernido», diria eu. Mas a sua antítese dá vida a outra coisa que germina para lá da sua ontogenia de espantalho: o mito. O mito do goleador. E é aqui que as comparações com Vitor Gaspar, ainda que até aqui implícitas e totalmente mudas, acabam. Prepare-se agora o leitor para escutar o segundo segredo do artigo: Vitor Gaspar é um espantalho.  Sim, verdade, outro espantalho da mesma estirpe, repleto de verosimilhanças com primeiro. Espantado? É normal caro leitor, afinal, é isso que os espantalhos fazem. Vitor Gaspar não é ponta-de-lança, mas partilha o mesmo esgar de dor crónica (ou ciática, talvez) que Cardozo. O discurso pachorrento e robotizado deixa escapar a gritante ausência de humanidade, que parece ter sido formatada à imagem de um software  limitado e cheio de erros por redundâncias cíclicas, como naqueles CD’s que se riscaram fatalmente e que nunca mais conseguem reproduzir nada de jeito. A sua frieza contabilística e a insensibilidade subjectiva apresentam os números como primazia fundamental de uma tarefa que não faz reféns ou prisioneiros. Nem mesmo a economia que partilhamos, que o país partilha enquanto bem-comum e garante da subsistência de grande parte dos mais necessitados. Gaspar e Cardozo mostram na insensibilidade do espantalho o poder dos números: Cardozo com os seus imensos golos, Gaspar com os sucessivos cortes e noves fora. Ambos representam um outro prisma da realidade que teimosamente por mãos como estas se entranha no tecido social e se tatua no cérebro inconsciente – e colectivo – das massas. A realidade higienizada, a retórica da proxémia, a ausência do calor e do contacto, a limpeza amoníaca dos números que nunca mentem e que, enfim, tanto enganam. Estamos à beira de uma actualidade que se negligencia de modo estritamente utilitário, que se desprende da magia e do agarrão, do grito fervoroso e da rebelião; da garra, da corrida louca, do sangue na guelra. Da finta, da pressão, da comoção. Da emoção.

Mas Gaspar tem menos vida, menos gente dentro dele. Ele, como os inaptos e mecanizados deputados que se objectaram à própria consciência – o que pode haver de mais nosso que a consciência! – aquando da votação deste orçamento miserável, é um espantalho funcional que nem o mito consegue despertar. Somente o descrédito de quem erra consecutivamente, e mal consegue murmurar tal reconhecimento de culpa. E as pessoas, o país, os pobres, os remediados, os jovens, os velhos, os deficientes, ficam espantados. Mil vezes Cardozo, digo eu. Espanto-me cada vez que ele falha clamorosamente, mas há mais gente dentro dele. Gaspar espanta-me como espanta qualquer português: remete-nos para o medo tétrico da insensibilidade tecnocrata, do espantalho calculista que nos apanha de surpresa, mesmo quando já lhe conhecemos as ameaças. E dizemos, engolindo em seco: «A mim não me espantava nada…».

Bruno Falcão CardosoBruno Cardoso desenho

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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