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O escândalo da carne de cavalo só se deu por causa do cavalo. O que parece óbvio também carece, por vezes, de explicação.

Imagino que haja bem menos exemplares equinos em explorações pecuárias do que de gado vacum, e alguém se há um dia de ter espantado por ver desaparecer os nobres corcéis numa altura em que parecem escassear as princesas para salvar, os dragões a chacinar e as diligências para assaltar. Os equinos perderam mercado; a verdade é essa, e é aí que começam as semelhanças com Portugal. O escândalo não teria rebentado se, em vez de lasanha de cavalo, se tivessem feito lasanhas de Cavaco. Entre Cavaco-Presidente e Presidente-nenhum, nenhuma diferença se encontraria, ninguém daria pela falta, e conquanto o sabor pudesse ser pior, certamente mais bem se digeririam tanto as suas (raras) palavras como as suas incómodas aparições. Salvavam-se os cavalos e poderia até salvar-se um país. Ninguém se importaria.

Se Portugal fosse Tróia (não a península setubalense mas a lendária cidade-estado na Anatólia, onde os gregos fizeram guerra), Cavaco só poderia ser o cavalo. Helena, a escultural princesa de Páris, cuja beleza animava guerras entre os homens, é de um campeonato a que Cavaco obviamente não tem acesso, onde ele não cumpre os mínimos: cadáver adiado, como dizia Pessoa, mas que já nem procria. Seria talvez expectável que Cavaco pertencesse à elite política de Tróia, em virtude de presidir cá ao burgo, mas vemos que não é assim. Cavaco poderia, talvez, ser o certeiro príncipe-arqueiro Páris, não fosse Cavaco homem de falhar sempre o alvo, sempre inoportuno nas flechas disparadas e na altura de dispará-las, acertando sempre na cabeça e nunca na maçã que tem por cima. Talvez Cavaco pudesse ser o príncipe Heitor, herdeiro do Trono de Tróia, não fosse Cavaco fraca figura, cobarde metendo o rabo entre as pernas ante todos os momentos que, precisamente pela gravidade, exigiriam a sua intervenção maior, incapaz de ombrear sequer com a sombra do valoroso guerreiro que apenas encontrava desafio em Aquiles. Ou talvez até achássemos que sentido faria ver similitudes entre Cavaco e o velho Príamo, Rei de Tróia, mas o velho troiano era ainda provido de inteligência e honestidade e bons princípios, e só poderia encontrar par em Cavaco nas suas inépcias enquanto estratega e numa alucinada crença louca na salvação pelos deuses, ou pelos mercados. Vai dar no mesmo: as abstracções resistem sempre mais às acusações; têm as costas mais largas e as chicotadas no lombo nunca as submergem em tão grandes comoções como às gentes de nomes próprios e costas de pele e carne e ossos. Sempre foi mais fácil responsabilizar esses inebriantes desígnios que governam e desgovernam sem que nada os prenda à verdade ou à racionalidade dos acontecimentos – a natureza ofendida, os deuses da guerra de Príamo, os mercados de Cavaco –, e que convenientemente se escapem, arenosos, entre os dedos da mão quando se tenta fechá-los no punho, frequentemente indo-se depois encontrá-los estendidos em trios sobre o areal de Copacabana: Relvas e Loureiros e Arnauts. Mas nada disso funciona, nem na nossa maior boa-vontade, e a Cavaco não resta senão ser o cavalo.

Mas se o Cavaco não é de madeira – o presidente que ficou conhecido como tendo cara de pau e de fazer serradura ao aparar a barba foi o Eanes – e se não tem a pança cheia de gregos – coitados dos gregos; só havia de lhes faltar mais essa! –, tudo o resto aproxima o nosso Aníbal do venenoso cavalo que derrotou Tróia, cidade impossível de conquistar. Porque tão irónico e traiçoeiro como um presente que vira arma só um homem com tese de doutoramento em «A Contribution to the Theory of the Macroeconomic Effects of Public Debt» que contribua tão pouco, qual suma nulidade, para resolver os efeitos macroeconómicos da dívida pública portuguesa, e todos os problemas do país, assim em geral. E se não são gregos, dirá o leitor, haverá ainda assim algo dentro do bucho seco do Cavaco para permitir a comparação com a lendária armadilha. E tem razão:

O que o silêncio de Cavaco encobre é, pois, o mesmo que o cavalo de Tróia dissimulava; que é ele a própria ameaça, que ele carrega em si uma promessa de destruição. O cavalo de Tróia, como o Cavaco de Portugal, é objecto cínico, falsa promessa, fantoche designado para iludir a Constituição que jurou proteger mas em direcção à qual não é senão a ponte que a permite atacar.

Cavaco Silva é hoje o garante da não-garantia democrática, capaz apenas de garantir o vazio obsceno da sua actuação; a sua pornográfica incapacidade para o cargo para o qual foi eleito e para o qual é manifesta a sua falta de jeito, de iniciativa e atenção. Porque Cavaco, tornando ao tema, no seu jeito relacional próprio dos cavalares, só arreganha os lábios, escancara a mandíbula, mostra os dentes, e expõe pomposamente o desastre que é em termos comunicativos; por coincidência, precisamente aqueles que mais devem valer a um Presidente da República, que deve ser o garante e a representação maior de um Estado. E Cavaco, ainda que se mantenha no lugar, vai meramente trotando pelos prados do país, ou já nem isso, vai apenas a passo modorrento, condoendo-se com a sua incapacidade para pagar as suas despesas (coitado, 10 mil euros mensais nem hão-de conseguir lavar a cara àquela marquise esconsa onde mora quando dá férias ao palácio que não paga), admirando o sorriso feliz das vaquinhas e, imagino, o ar pobrezinho, enfermo mas muito orgulhosamente português dos concidadãos que ele certamente gosta de celebrar no Dia da Raça, essa coisa abjecta e despida de sentido que ele festeja enquanto todos nós já nem entretidos com o Dia de Portugal andamos. Uma verdade que lhe revelo: Cavaco já há muito abdicou da presidência, mas não disse a ninguém; aliás, nunca diz nada, remetendo-se para o silêncio bruto dos ineptos compulsivos, ou distraindo-se com recados de reles politique e notas no facebook, novo órgão oficial da república, simulações que dão existência ao que nunca existiu, em vez de chamar a si a voz séria e atenta sobre os acontecimentos e os seus deveres de Presidente vigilante.

Mas isso não deve espantar-nos; quando era Primeiro-Ministro, Cavaco sublinhou essa sua convicção no seu famoso «Deixem-me trabalhar! Deixem-me trabalhar!», com o qual criticava o então Presidente Mário Soares e as suas presidências abertas, marcas maiores de uma verdadeira presidência da república, consciente de beber do povo a sua legitimidade e deveres. De facto, se hoje um tal presidente existisse; ou presidente algum, ao menos, o governo há muito teria sido demitido, pois a sua legitimidade desapareceu no mesmo gesto em que Passos Coelho deitou no caixote o seu programa eleitoral, quiçá rindo-se e assando uns marshmellows na fogueira, que o papel arde bem e a mentira melhor ainda. Porque não tenhamos dúvidas; a partir daí as regras estão lançadas, e vale tudo, tudo, talvez até arrancar olhos. Reformulo: sobretudo arrancar olhos – não ver, não ouvir, não falar. Dir-me-ão que não é a primeira vez que um programa eleitoral não é integralmente cumprido, e têm razão, mas talvez seja a primeira vez que um programa é integralmente violado, assim às claras e de forma violentamente bárbara, sem que ninguém pareça sequer pôr a questão. E o Presidente da República deveria ser o primeiro a pôr a questão, pois é nele que os portugueses delegam a capacidade de velar pela democracia, a capacidade de puxar as orelhas ao governo e de vetar os orçamentos que atacam o seu próprio programa e, pior, todo o seu povo, que, na minha certamente desajustada e retrógrada visão, é o coração e o objectivo último, o centro, o âmago de qualquer país. A Cavaco, porém, ninguém sequer ouviu relinchar.

O problema de Cavaco “Cavalo de Tróia” Silva é que ele é infiltração. Infiltração como aquelas que os jogadores da bola fazem aos joelhos, que dão ares de que nada se passa no jogo seguinte mas que depois lhes explodem as dobradiças na surpresa de quem nunca julgou poder rebentar em faíscas – very-light de sinalização a pedir socorro durante o naufrágio. O problema de Cavaco é que ele está por si próprio impedido de formular mais do que os enunciados vazios que lhe valeram o título de «campeão da banalidade», como um dia lhe chamou Saramago, pois que estas políticas são também as políticas que Cavaco adoptaria se fosse governo. Cavaco foi governo durante dez anos, mais do que qualquer outro político na democracia nacional, e não por acaso os mesmos anos em que a dívida pública portuguesa mais cresceu enquanto mais fundos comunitários o país recebia. Mas de facto, já a sua actuação como Ministro das Finanças, em 1980-81, tinha sido considerada um desastre: entre 80 e 82, a dívida externa aumentou 256%, de 467 milhões de contos para 1199 milhões, enquanto o défice na balança comercial crescia de 5% para 13,2% do PIB, no mesmo período. É necessário olhar para estes números antes de criticar Soares pela vinda do FMI a Portugal em 1983, pois isso não acontece senão pela incompetência de Cavaco enquanto Ministro das Finanças, ainda que tenha entrado no governo rotulado como «um dos mais competentes economistas» sobre a Terra. Aqui, qualquer parecença com Vítor Gaspar será obviamente pura coincidência.

Mas Cavaco, como o cavalo, saiu de cena de fininho, deixando os gregos – digamos, Soares – arcar com as culpas, aproveitando a sua queda de popularidade para, como se não fosse ele um dos pais do Frankenstein financeiro português, regressar ao poder durante a noite, Fénix das cinzas, grego de dentro de um alçapão no ventre do equídeo madeireiro, e então como Primeiro-Ministro, fazendo reluzir todo o esplendor da sua queixada entravada. Mas Cavaco não cessou de “esCavacar”, ou de “enCavacar”, o país – admirável como até a língua lhe aponta às canelas –, e como Primeiro-Ministro foi um pouco mais longe, correndo desembestado: «Deixem-me galopar! Deixem-me galopar!», gritava enquanto transformava fundos comunitários em alcatrão e barcos desmantelados, em árvores arrancadas, tornadas entulho, e deixava o país arrastando-se sovado, o cadáver enterrando-se cada vez mais na terra baça, puxado, punido, por um cavalo-de-batalha impossível de chamar à razão. O mais curioso é que Cavaco, que tem estado ligado aos destinos de Portugal nos últimos 33 anos, escoiceie hoje como cavalo de rodeo sempre que alguém o liga às responsabilidades pelo «estado a que chegámos», como diria o Salgueiro Maia, e, nas raras situações em que se digna a esboçar algo remotamente parecido com as suas funções, apresente frequentíssimas contradições com o que durante a sua vida fez e defendeu. Mais curioso ainda é que, nas poucas vezes em que fala, insista em enaltecer o seu trabalho e se entretenha a dar lições de honestidade, transparência e sentido de Estado, essa coisa mais ou menos vaga que para os comuns mortais toma o corriqueiro nome de competência, cidadania e bom-senso. Não nos deixemos enganar: Cavaco é representação, simulação e dissimulação, fingimento. É monumento mal-enjorcado, embuste de pés de fora, disfarce cosido à pressa, cadáver a boiar enfatuado pelo inchaço de muito tempo na água estagnada onde a política verte, ferve e apura imagens mais ou menos desligadas da realidade, depois chamando-lhe caldo e tentando dá-lo a beber aos de memória mais curta ou de atenção mais displicente.

Os norte-americanos têm um ditado que diz «Loose lips sink ships» (Lábios soltos afundam navios), criado pela propaganda durante a Segunda Guerra Mundial, alertando para a necessidade de secretismo. Mas o navio de Cavaco está a afundar-se na mesma, e talvez sobretudo por ele não abrir a boca. Restar-nos-á talvez a consolação dos vencidos com um prémio secundário, o menos mau, enfim, uma retribuição e compensação: a esperança de que Cavaco partilhe do sentido de responsabilidade dos Comandantes, e que quando o país naufragar ele tenha a decência de se deixar arrastar com ele. Que não faça como o famoso Comandante do Costa Concordia, que, bem-afortunado, tropeçou e caiu dentro de um generoso bote salva-vidas na companhia de uma loura dotada de um peito igualmente salva-vidas que não constava do manifesto de passageiros – a loura, isto é. Seria, ainda assim, essa a última esperança de Cavaco poder ter a garbosa Helena em vez da hedionda Cavaca, se Portugal fosse Tróia e ele, afinal, se escapasse a ser o dissimulado cavalo desta história. Mas Cavaco nunca foi História; será sempre farsa.

Hugo desenho 4sc2

Hugo Picado de Almeida

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