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“Olá Jú! Que giro tê-la encontrado, já não a via há imenso tempo. Como tem passado? Olhe, deixe que lhe apresente as minhas ricas amigas Mimi, Káká e Lélé, somos todas colegas de turma aqui na faculdade!”. Era mesmo realidade. Aquele excerto de diálogo que tive oportunidade de escutar de relance havia-me teletransportado para um espaço físico em tudo distinto daquele, para um qualquer salão de chá requintado, chique, luxuoso, repleto de tios e tias da mais alta sociedade vestidos de Prada e Louis Vuitton, mas a última palavra, aquela quase dolorosa “faculdade”, fez-me voltar de rompante ao apertado corredor do ISCTE onde a acção havia decorrido.

“Estarei eu a alucinar?”. A febre atormentava-me o corpo há alguns dias, mas não com o ímpeto suficiente para me fazer delirar. A imagem que ainda se apresentava diante dos meus olhos fazia-me ver cinco raparigas na casa dos 20 anos que, aperaltadas como se fossem participar num importante jantar de gala, trocavam palavras óbvias num tom cínico e forçado, fazendo questão de exibir a sua classe a todos os que por ali passavam. Veio-me ao pensamento uma vaga reflexão sobre um ensino superior que apesar do seu carácter público se tem tornado cada vez mais elitista e elitizado pelos elevados custos que comporta para os (pais dos) estudantes, mas o meu lado racional não se quis voltar a bater em batalhas já debatidas e combatidas contra a batuta totalitária do espirito capitalista. Sem saber porquê, ocorreu-me então uma saudosa lembrança da Tasca do Chico, lá no Bairro Alto, e diverti-me a imaginar as cinco ricas amigas a tascarem alegremente naquele nobre estabelecimento de fado vadio e brandos costumes. E fiquei-me por ali.

Ironia do destino ou castigo divino, quando cheguei a casa deparei-me com o meu lar invadido por um outro Francisco. Não era já o da tasca lisboeta, que há muito me havia fugido do pensamento, mas sim um outro em tudo dele diferente, vestido num branco cristalino e de sapatos vermelhos, que se multiplicava em imagens, vídeos e descrições em todas as televisões e redes sociais. Ao contrário do Chico, este Francisco não tinha abreviação possível e diziam que ao seu nome próprio não se sucederia nenhum tipo de numeração romana, por mais vulgaridade que a sua ausência pudesse conferir à auto-designação que o próprio havia escolhido. A figura do Francisco, o argentino e não o português do Bairro Alto, permaneceu entre as minhas portas durante longas horas sem que eu nada pudesse fazer. O discurso tornava-se agoniante de tanto ser repetido: a oração, a fé, a bondade de um homem exemplar quase santo, a união, a necessidade de ajudar os pobres e desfavorecidos, a obrigação de praticar o bem. Isto despertou do sono o meu lado racional, que acordou exaltado para me fazer ver que toda aquela propaganda ideológica é constituída por um conjunto de príncipios que são alvo de condenação pública por parte da Igreja mas que acontecem em forma de acções nos seus próprios bastidores, traduzidos em práticas internas de pedofilia, de relações homossexuais, de corrupção, de egoísmo, de abuso de poder, sempre abafadas pela instituição mas que ainda assim se revelam através da riqueza ostentada sem vergonha por aqueles que alegam espalhar a palavra de Deus.

Depois deste longo desabafo a racionalidade voltou a retirar-se lentamente, como que resignada perante a incapacidade de algo mudar, deixando-me entregue à minha própria consciência. Sempre calma e acertada, ela trouxe-me à memória o ambiente vivido na Tasca do Chico, a do Bairro Alto, com todos os seus defeitos e excessos tão próprios da noite, a falta de maneiras, as bebedeiras, os palavrões, os insultos, e fez-me ver que nada daquilo é significativo quando comparado com os degradantes hábitos lá da outra tasca, a do Vaticano. Nessa requintada tasca, a do Vaticano, talvez as cinco ricas amigas se sentissem confortáveis, servidas de todos os luxos e joias caras, figurantes de um restrito e sempre cómodo mundo de aparências e falsa moralidade.

“Enquanto tudo isto acontece, a Tasca do Chico, a genuína, continuará a sua actividade no coração da cidade lisboeta, de braço dado com a limitada felicidade dos pecadores que a frequentam”, pensei eu antes de pegar no termómetro. A viagem já ia longa, a febre voltara a subir para um patamar elevado, talvez a lucidez já me estivesse a escapar por entre os dedos. Tomei um comprimido e deixei-me adormecer.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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2 thoughts on “A Tasca do Chico

  1. “Deve ser o nosso jeito de sobreviver – não comendo lixo concreto, mas engolindo lixo moral, fingindo que está tudo bem.” Parabéns pelo texto. Abraço.

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