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Há filmes que nos marcam para o resto da vida e que se cruzam connosco por acaso. Uma ida imprevista ao cinema, marcada sobre a hora, normalmente corre mal. Sem ver trailers ou sinopses, a opção final costuma recair sobre uma comédia comercial americana, ideal para relaxar depois de uma semana de trabalho e para desfrutar de uma boa companhia. Mas, na passada semana, tudo se conjugou para me levar à sala 12 do Cinema UCI do El Corte Inglés de forma a assistir ao filme ‘A Caça’ (ou Jagten, em dinamarquês).

À entrada para a sala sabia apenas duas coisas: que era um drama e que vinha do norte da Europa. Chegou para convencer quem nos últimos tempos se rendeu a obras como Águas Agitadas (Troubled Water, norueguês) ou à trilogia Millenium, adaptada dos livros de Stieg Larsson.

Jagten é tudo aquilo que não vemos em Hollywood, começando desde logo pela (aparente) temática da pedofilia. Só que o tema tabu serve aqui para colocar o espectador numa situação dúbia, de desconfiança e de reticência. “O nosso filme é muito mais sobre a fragilidade da vida e sobre a fragilidade da amizade”, refere Mads Mikkelsen, o actor que dá vida a Lucas, a personagem principal que trabalha num jardim-de-infância e que se vê confrontado com a grave acusação de ter molestado sexualmente uma das crianças. Mais tarde percebe que o falso depoimento tinha sido feito, nada mais, nada menos, que pela filha do seu melhor amigo. Tudo o que se passa nesta película a partir do momento em que o rumor invade a pacata aldeia dinamarquesa espelha na perfeição a realidade social atroz que nos rodeia. Uma falsa acusação tem o poder de destruir uma vida. Uma falsa acusação sobre um tema tão delicado não mais permite ao acusado voltar a ter a vida de outrora. Aqui não existem inocentes até que se prove o contrário (a tal presunção de inocência). Nem existe a recuperação da dignidade do falso acusado mesmo que as evidências da sua inocência sejam claras como a água. A exaustiva e constante preocupação com a possível ilibação e liberdade de um criminoso cega a justiça e o ser humano e, ao mesmo tempo, faz-nos subestimar uma possibilidade tão ou mais preocupante: a eventualidade de acusar e condenar um inocente.

Também não é menos verdade que este filme leva estas questões até ao limite, por analisá-las à luz de um dos pecados mais horrorosos da humanidade. O realizador não foi por menos e colocou o espectador perante uma das situações mais delicadas para abordar. Mas só assim consegue abrir os olhos para aquilo que deveria ser uma verdade universal: até o mais óbvio culpado do mais cruel e pecaminoso crime não o é garantidamente sem que existam provas irrefutáveis.

Neste caso em particular, o espectador dificilmente consegue condenar as reacções de uma sociedade espelhada na aldeia dinamarquesa pois percebe que, muito provavelmente, agiria da mesma forma numa situação idêntica. “Eles reagiram de forma irracional, é claro. Mas quem não o faria numa situação destas?”, referiu o realizador Thomas Vintenberg, numa entrevista recente, defendendo que o pensamento e a palavra falada são autênticos vírus da sociedade.

O filme baseia-se num famoso caso norueguês, no qual um assistente social colocou palavras na boca de crianças. Também em Jagten, a influência de factores e pessoas externas assume uma revelância tão grande no depoimento das crianças que acaba sendo criada uma realidade completamente fictícia. Os depoimentos coincidem mas os cenários apresentados ao detalhe nem existem (a suposta cave da casa de Lucas, por exemplo).

Jagten é, mais do que tudo, uma lição. Uma lição para a justiça, para a sociedade e para cada um de nós. Uma lição sobre o julgamento precipitado e sobre a facilidade com que uma vida se desmorona com um simples rumor ou uma falsa acusação. Em Jagten, Lucas foi A Caça, não O Caçador. E não mais o deixará de ser.

joni_desenhoJoni Francisco

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