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A julgar pelo que se passa por estes dias no Metro, o Gaspar não terá de se preocupar com o desemprego por muito mais tempo – ainda que nada até ao momento indique que se tenha preocupado assinalavelmente com ele –, pois à maioria das pessoas que ocupa as carruagens não dou mais de seis ou sete dias, oito no máximo, compenetradas que vão em praticar a sua tosse convulsa, entretidas em cabeceantes espirros epidémicos ou fungando as estirpes gripais que chamam lar ao metropolitano.

E se aqui, na solarenga Europa meridional, as pessoas se vão engripando com a primeira letra do alfabeto – negro prenúncio, pois a ela se seguem outras 22 (ou 25, se contarmos com o famigerado desacordo ortográfico, ameaçando-nos com mais três gripes epidémicas do que poderíamos ter esperado) –, nas partes frias do mundo as coisas só podem certamente ser piores.

Lá nos fundos do planisfério, na península da Coreia, o Norte parece reanimar-se de novo contra o Sul, aquecendo os ânimos enquanto se esfriam as relações – curiosidades da química entre países –, e contra grande parte do mundo, na verdade, para que não corram o risco de falhar o alvo.

O pensamento escala muitas vezes de uma ordem de grandeza a outra, e se o sofrimento humano não deve merecer comparações, pois um tal projecto será sempre condenável e quase inútil, pois qualquer sofrimento deve ser atendido, e porque as experiências deste indivíduo são substancialmente diferentes das daqueloutro, e à medida que trepamos a pirâmide das necessidades de Maslow há preocupações que naturalmente saem do nosso horizonte. Uma sinapse mais longa levou-me, então, da gripe – a A ou a sazonal – e dos narizes corados do Metropolitano de Lisboa, mergulhados em cachecóis, aos norte-coreanos encerrados na sua prisão-nação, gélida e famélica, e lembrei-me de um vídeo que tem circulado na internet nos últimos dias.

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Cartaz de propaganda com Kim Il-Sung, primeiro líder norte-coreano.

Nele, que se diz propaganda norte-coreana, um narrador em inglês traduz as afirmações da locutora, numa daquelas vozes carregadas de emoção propagandística a que os norte-coreanos já habituaram o mundo. O vídeo, intitulado How americans live today?, procura mostrar uns EUA imersos em neve, onde as casas desabam frequentemente, onde já nem existem pássaros porque as pessoas os comeram a todos (à excepção daqueles que restam naquela árvore, aos quais será dado o devido destino na próxima terça-feira, diz o vídeo), onde o quotidiano é feito de uma inusitada dependência de cafés e sopas com uma descabida receita à base de neve, e as pessoas, sem-abrigo vivendo em corredores de edifícios decrépitos ou em tendas de campanha, compartilham os bancos de jardim com amigos mortos em sacos azuis para cadáveres, como se nada fosse. O vídeo culmina com uma sucessão de imagens que, apesar de repetidas noutras partes da peça, nos são agora apresentadas como filas de pessoas a receber café verdadeiro e bolos secos oferecidos pela equipa de jornalistas norte-coreanos.

O vídeo, infelizmente, digo eu, adepto fervoroso que sou das mais delirantes narrativas, é falso; ou melhor, não o vídeo, mas a tradução e respectiva dobragem, feita pelo humorista e viajante britânico Alun Hill, como relata o The Huffington Post. Mas a maioria das pessoas que viu o filme (eu incluído, antes de ir investigar) supôs que ele era real, pois o tom e o calibre da abordagem não são em nada diferentes da habitual propaganda da «poderosa e próspera nação», como se lê no seu lema oficial. A verdade é essa: talvez nem interesse já que o filme não seja verdadeiro, pois facilmente poderia sê-lo. Ser ou não ser, Shakespeare, afinal não é a imprescindível questão. Porque este não é, mas é como se fosse. Explicamos:

As imagens, maioritariamente filmadas na Europa de Leste, são de facto provenientes da Korean Central News Agency (KCNA), central de notícias oficial de Pyongyang, mas a própria estação publicou a tradução correcta para o inglês (disponível aqui). A tradução real surpreende-nos, e surpreende sobretudo após a primeira visualização do vídeo falsamente dobrado. É que a versão falsa parece mais verdadeira, isto é, mais norte-coreana do que a versão real do vídeo. Porque com a Coreia do Norte é nesse planalto que nos encontramos já: cercados pelas águas em contracorrente da verdade e da mentira; e se o maremoto que o varre vem do simulacro ou do facto não o podemos já saber. Essa pode muito bem ser a maior falha da propaganda norte-coreana: tendo durante décadas apostado na contrafacção informativa e na contra-informação, o regime esvaziou a sua voz de qualquer poder e, ficcionando-se ao máximo, fez-se bobo perante o mundo. E como é próprio dos bobos, chamou a si o riso, o escárnio e o maldizer. Tornou-se motejo e arrependeu-se, e sente agora a necessidade de se reafirmar pela força, como o burro da turma a quem só resta conquistar o respeito à pancada.

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Kijŏngdong, vila-propaganda norte-coreana, junto à Zona Desmilitarizada, na fronteira com a Coreia do Sul.

A Coreia do Norte, no que à propaganda toca, erra precisamente aí, no facto de querer ir a todos os alvos, a todos os países da turma. Mas porque o mundo não é uma carreira de tiro sobre bonecos empalhados, há alvos que disparam de volta. Para os cidadãos da Coreia do Norte, a propaganda feita, como realidade única dentro do país – e que atinge até os museus, que mais do que galerias são, ali, autênticas forjas da História que nunca aconteceu – pode bem funcionar perfeitamente, por estarem os seus cidadãos mergulhados numa hipnotizante acatalepsia própria à ditadura que conquistou o epíteto de «a mais fechada do mundo». Mas para quem está fora, o cartaz da propaganda não cola na parede. E não cola porque não pode colar: neste caso, a lapalissada é necessária. Não cola porque sabemos que nada desta Coreia é real, mas pura encenação, ficção vazia como a vila fantasma e mecanizada de Kijŏngdong, palco nacional onde apenas se movem actores. Dissimulação do que se tem e simulação do que se não tem, parafraseando Littré, a Coreia do Norte vive nesse permanente jogo perigoso, jogo de cintura e de pés. Feita malabarista, a Coreia do Norte desapossou mentira e verdade dos seus reais valores, trocou-lhes a posição no dicionário e confundiu-se a si mesma, e no caminho fez das suas narrativas, que tinha como sua arma maior – a ideologia – uma das principais ameaças que deve agora enfrentar: a saber, que toda a caricatura se tornou possível em seu nome, e que se tenham criado condições para que o poderoso povo da Coreia – que o Gaspar local também há-de considerar o melhor do mundo –, com os seus três Kim em desfile pelos anos, dinásticos, sucessores e sucedâneos baratos de uma divindade que se diz aos coreanos que os há-de proteger, acarinhar e salvar, possam agora ser ridicularizados pelo resto do mundo. É a propaganda a ceifar o trabalho que a própria propaganda tentou construir. É a Coreia do Norte, que acusa a os seus vizinhos do Sul de serem marionetas dos EUA, a transformar-se em fantoche de si mesma, e entregando a sua cruzeta a quem nela quiser pegar.

E é por isso que ler a tradução real da KCNA ao vídeo que afinal se intitula The dark reality of capitalist societies nos deixa sem pé: nada mais desligado do tom propagandístico-patético a que nos habituou, a KCNA mostra-se evidentemente muito racional, e conquanto proceda a certas generalizações e seleccione criteriosamente o lado das cidades ocidentais que mostra, como se esperaria de qualquer órgão com a sua vocação totalitária, a narrativa desta peça é análoga àquilo que nós próprios afirmamos sobre as falhas e vícios do nosso mundo ocidental, com todas as culpas no cartório que o capitalismo tem: fosso entre ricos e pobres, o racismo, a pobreza, os sem-abrigo, a fome crescente, os despejos por incumprimento de rendas, a escalada da violência (são referidos os vários massacres nos EUA), os lobbies e a corrupção…

Mas se o vídeo não mente em absoluto, mesmo colocando na borda do prato o facto de nem todos estes males decorrerem directamente dos vícios do capitalismo ou o facto de não serem representativos da vida na Europa e nos EUA (no vídeo só se vêem sem-abrigo, filas de racionamento de alimentos, casas destruídas, neve e lixo), ele falha inapelavelmente no mero facto de nos alcançar a nós, que conhecemos as coisas um pouco melhor e não nos revemos no filme, e sabemos que, apesar de vivermos numa sociedade com os seus desequilíbrios e abusos, certamente não a trocaríamos pela vida na gelada, agreste, proibitiva e punitiva Coreia do Norte, cujo socialismo não atenuou o fosso entre ricos e pobres – certamente, antes, o alargou –, onde provavelmente todos terão casa e trabalho – imaginamos em que condições −, mas vivem na mais subterrânea miséria, e onde nenhum tem a liberdade para dizer o que pensa, para sair do país ou para fazer mais ou menos o que lhe der na real gana, e onde poucos terão sequer comida suficiente, sem dúvida flagelo maior no país dos flagelos sociais que por isso precisa desesperadamente de fazer acreditar, nos seus vídeos propagandísticos, que no ocidente a fome também grassa.

Vila na Coreia do Norte, onde a pobreza extrema contrasta com a propaganda. (BBC)

Vila na Coreia do Norte, onde a pobreza extrema contrasta com a propaganda. (BBC)

Dois dos muitos cartazes de propaganda sobre a riqueza das colheitas do país em 2001. Nada mais desligado da realidade. Este foi o ano em que o maior volume de comida foi entregue ao país como ajuda humanitária.

Dois dos muitos cartazes de propaganda sobre a riqueza das colheitas do país em 2001. Nada mais desligado da realidade. Este foi o ano em que o maior volume de comida foi entregue ao país como ajuda humanitária.

Mas por muito que a Coreia do Norte procure calar a questão, a verdade é que o país tem gravíssimas lacunas alimentares crónicas e que sobrevive largamente da ajuda internacional. Entre 1994 e 1998 estima-se que, dos seus 22 milhões de habitantes, entre 2 a 3 milhões de pessoas tenham morrido de fome e doenças relacionadas com a subnutrição. 12 milhões de toneladas de ajuda alimentar foram enviadas para a Coreia do Norte, desde 1996 até hoje, sendo que os volumes têm sido fortemente reduzidos no último par de anos, com a União Europeia e Rússia a serem os únicos a manter esta ajuda em 2011, após Coreia do Sul, China, Japão e Estados Unidos da América terem cancelado total ou quase totalmente o seu envio, por diferentes razões, que se estendem das pressões políticas (a Administração Bush foi largamente acusada de usar a comida como arma), passando por penalizações pelos ataques de 2010 a um navio de guerra sul-coreano e à sua ilha de Yeonpyeong, como relata a Human Rights Watch, e até por suspeitas de que esta comida estaria a ser vendida às populações e a relatos da sua nada igualitária distribuição (relembremos que desde a crise da fome dos anos 90 vigora no país a política «Songun» – O Exército primeiro –, segundo a qual são os efectivos militares que têm prioridade no acesso aos recursos do país, de alimentos a energia eléctrica, que ainda escasseia, e outros bens de consumo).

Estima-se que o «Exército do Povo» da Coreia do Norte possua 1 milhão de efectivos prontos para combate. Perto de 7 milhões de cidadãos estão ainda alistados como reservistas.

Estima-se que o «Exército do Povo» da Coreia do Norte possua 1 milhão de efectivos prontos para combate. Perto de 7 milhões de cidadãos estão ainda alistados como reservistas.

Calcula-se que a fome no país esteja novamente a aumentar devido à progressiva redução de ajuda humanitária, aos Invernos rigorosos e cheias dos últimos anos, que têm feito inúmeras vítimas. Estima-se que, desde a morte de Kim-Jong Il, em 2011, entre 10 e 20 mil norte-coreanos tenham perecido de fome, e as Nações Unidas estimam que mais de 6 milhões de pessoas estejam a sofrer de severa malnutrição e a necessitar de ajuda urgente, com alguns media internacionais a referir a existência de diversos e perturbadores casos de canibalismo no início de 2013. A Asia Press, agência noticiosa japonesa independente sedeada em Osaka, que afirma ter uma rede de repórteres trabalhando por entre as malhas da censura na Coreia do Norte e cujas informações têm sido consideradas fidedignas por diversos media internacionais, dá conta de casos recentemente levados à justiça do país, relatando situações em que pais assassinaram os filhos para deles se alimentarem, ou de cadáveres recentemente enterrados que terão sido exumados com o mesmo propósito. Os relatos referem-se com especial preocupação às províncias de Norte e Sul Hwanghae, a sul e sudoeste da capital Pyongyang, respectivamente.

Na Coreia do Norte, não precisam que lhes inventem a gripe A, ou de outra letra qualquer. Lá, o frio, a fome, a miséria e a repressão escrevem-se com todas as letras do alfabeto. E porque as tragédias por vezes também encerram ironias, muito mais a Coreia ganharia se voltasse as lentes para si e tomasse verdadeira atenção à The dark reality of the north-korean society

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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