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Há mais ou menos dois anos atrás (em meados de Abril de 2011), assisti a um dos jogos de futebol mais estranhos da minha vida. Uma partida de futebol repleta de peculiaridades que me fizeram ter a sensação, na altura, de ter visto um filme para o qual não tinha pago bilhete.  Ou melhor, na realidade até tinha, porque os contornos que envolveram este jogo, e que por si só eram especiais, eram-me perfeitamente conhecidos. Passo a explicar: à 15.ª jornada, e a quatro do final da Serie A 2010/2011, o Genoa jogava apenas mais uma partida do campeonato, sem grandes objectivos e ambições em disputa em virtude da permanência já assegurada e da impossibilidade de chegar aos lugares europeus. Por outro lado, a Sampdoria, eterno rival do grifone, lutava pela manutenção e pela fuga aos lugares de despromoção.

Assim, o encontro que opôs Génova e Lecce (outra das equipas envolvidas na luta pela permanência, juntamente com a Sampdoria) assumiu desde logo um carácter especial e antagónico para os adeptos genoveses: torcer pela vitória da sua equipa do coração, num jogo já sem objectivos, ou pela derrota e consequente agravamento da situação aflitiva dos rivais na tabela classificativa? A pergunta, de resposta difícil, dividiu durante 90 minutos os corações dos milhares de pessoas que se deslocaram ao estádio Luigi Ferraris nesse dia, uns apoiando descaradamente a equipa contrária, outros rezando em voz baixa e dissimulando o desejo obsceno de ver perder o seu clube de futebol de sempre. Mais do que isso, mais do que ver a bola entrar na baliza do português Eduardo, à época guarda-redes dos locais, e assistir a uma derrota caseira do Génova, o orgasmo futebolístico da temporada, para aqueles adeptos, era ver o grande rival e “inimigo” da cidade sucumbir à serie B. O prazer proporcionado pela descida da Samp, que viria entretanto a ser consumada, não atingiu, no entanto, o ponto mais alto da excitação, aquele que seria alavancado pela descida ao inferno poder ter tido o dedo dos seus próprios jogadores, até então anónimos manequins da camisola rossoblu, mas que caso perdessem, ironia das ironias, seriam elevados a heróis improváveis de um “feito” glorioso na história de rivalidade das duas formações da capital da Ligúria.

O jogo jogado, aquele passado dentro das quatro linhas, e que acabaria com a vitória do Génova por 4-2, foi demasiado morno para os objectivos em causa, apesar do score final. O outro, o das bancadas, bem mais emocionante e disputado, pôs em confronto as duas correntes que se foram formando ao longo de toda a partida: a dos adeptos que torciam pela conquista dos três pontos frente ao Lecce, e a dos que assumiam o desejo da derrota da sua equipa, ou, se quiserem, da vitória do adversário. Depois de estar a perder por 2-0 e dar a volta ao marcador, os jogadores do Génova seriam fortemente vaiados por, na prática, não se terem deixado perder e afundar ainda mais o rival.

Ao fundo o médico Marco Pirani, protagonista do escândalo Calcioscommesse

Ao fundo o médico Marco Pirani, protagonista do escândalo Calcioscommesse

Algumas semanas mais tarde esta seria uma das partidas envolvidas no Calcioscommesse, o escândalo de manipulação de resultados que acabava de abalar o futebol italiano. O encontro foi um de três citados pelo médico dentista Marco Pirani, um dos rostos principais de uma rede de apostas ilegais baseadas em resultados  combinados de jogos de vários escalões do futebol profissional italiano. Envolvendo diversos nomes sonantes do calcio como Cristiano Doni, Rodrigo Palacio, Bonucci, Ranochia, Stefano Mauri, Milanetto, Criscito e o treinador Antonio Conte, actualmente ao serviço da Juventus, esta rede seria orquestrada em Itália por Pirani, dirigente nas “horas livres” e responsável por recrutar jogadores dispostos a condicionar o desenrolar das partidas para favorecer circuitos de apostas de futebol.

O sentimento de algo ameaçadoramente estranho que me irrompeu no final daquele Genoa-Lecce de 2011, ainda que ligeiramente atenuado pelo arquivamento do processo do jogo, foi crescendo à medida que o retrato das competições de futebol foi sendo redesenhado e recebendo generosas dosagens de um realismo que me transportou para a verdadeira dimensão do desporto hoje, século XXI, 2013.

andrea masiello

Masiello, ex-Bari, confessou ter marcado um golo na própria baliza para receber 50 mil euros

“Sim, fiz um auto-golo por dinheiro (Ver vídeo) . […] Quero esclarecer que, quando o resultado estava 0-1, aproveitei uma oportunidade que me surgiu para construir a derrota para o Bari e poder receber o pagamento acordado, tendo marcado por isso o auto-golo que encerrou o encontro”. A confissão escrita de Andrea Masiello, em Abril de 2012, chocou todos aqueles que ainda acreditavam na integridade da modalidade, tendo a prostituição moral do antigo defesa do Bari, por 50 mil euros, servido como um despertar dos órgãos de decisão do futebol internacional para a realidade que hoje assombra o desporto e que está longe de ser um filme de ficção científica produzido por vozes cépticas ou descrentes da honestidade do futebol .

A revelação de Masiello foi também uma espécie de prova final das conclusões das várias investigações desenvolvidas nos últimos anos que já vinham altertando para o crescimento brutal e acentuado do peso desta indústria paralela ao jogo. A denúncia das relações estreitas entre grupos de crime organizado com pessoas ligadas directamente ao futebol foi atemorizando os adeptos e a tutela, sem que esta, no entanto, levasse a sério as ameaças das autoridades policiais internacionais.

filip & milan sapina

Filip e Milan Sapina, líderes de uma organização criminosa de Match-Fixing

Já depois de em 2005 o árbitro alemão Robert Hoyzer ter sido acusado de influenciar várias partidas da Bundesliga, uma investigação levada a cabo pelo Ministério Público de Bochum (Alemanha) durante o ano de 2009 revelou uma rede de manipulação de resultados  que terá falseado mais de 200 partidas de clubes de nove federações europeias  e movimentado mais de dez milhões de euros, desviados essencialmente para casas de apostas asiáticas. A investigação levou à detenção de mais de 17 pessoas num total de 100 envolvidas, entre elas jogadores, treinadores, árbitros e dirigentes.  Filip e Milan Sapina, dois irmãos croatas, seriam os líderes desta organização criminosa sediada em Berlim com grandes similitudes à máfia de leste. Considerada na altura pelo Procurador alemão Andreas Bachmann como sendo “apenas a ponta de um icebergue”, este escândalo que incluiu também vários jogos (cerca de 40) das mais prestigiadas competições europeias (Liga dos Campeões e antiga Taça Uefa) viria também a servir de base para a mega investigação entretanto desenvolvida e anunciada ainda este ano pela Europol.

Foi aliás no passado mês de Fevereiro que esta agência policial de partilha de informações a nível europeu denunciou a existência de uma rede gigantesca de organizações criminosas chefiadas por cidadãos asiáticos destinadas a subornar jogadores e pessoas ligadas ao futebol, com o objectivo de manipular resultados de competições e com isso obter lucros astronómicos através de apostas ilegais. Esse dinheiro, lavado em off-shores de paraísos fiscais, gera mais de 11 biliões de euros por ano para estas organizações, segundo dados recentes revelados pela FIFA.

paul put

Paul Put, treinador belga envolvido num escândalo de falseamento de partidas de futebol em 2005

“Há muitos grandes jogadores internacionais envolvidos na manipulação de resultados”, afirmou o belga Paul Put, treinador semi-finalista da Taça das Nações Africanas de 2013 pelo Burkina Faso. Considerado culpado num esquema de match-fixing descoberto na Bélgica em 2005, quando treinava o Lierse, Put considera que a sua condenação serviu de bode expiatório para uma prática já completamente enraizada no desporto e no futebol.

“Fui ameaçado pela máfia, os meus filhos não estavam em segurança. Ameaçaram-me inclusivamente com armas”, revelou o também antigo seleccionador da Gâmbia, defendendo ter sido coagido por uma organização poderosa e perigosa liderada pelo empresário chinês Ye Zheyun, sujeito a um mandado de prisão internacional em 2006.

Cadú, português capitão do Cluj, foi acusado de ter recebido 100 mil euros para fazer perder a sua equipa num jogo da LC

Português Cadú foi acusado de ter recebido 100 mil euros para fazer perder a sua equipa num jogo da LC

Apesar de organizada a partir de Singapura, as provas que atestam o pagamento de mais de cem mil euros por jogo a cada interveniente subornado foram encontradas pela Europol  fora do continente asiático. É o caso do jogo que implicou o jogador português Cadú, capitão do Cluj, que alegadamente terá recebido exactamente a quantia de cem mil euros para favorecer a derrota da sua equipa com o Galatasaray em 2011/2012, permitindo a chegada dos turcos aos oitavos de final da Liga dos Campeões, tal como veio a acontecer depois do triunfo por 3-1.

Tan Seet Eng é suspeito de ser o líder da poderosa rede de apostas que abalou o futebol italiano

Tan Seet Eng é suspeito de ser o líder da poderosa rede de apostas que abalou o futebol italiano

A identificação destes grupos como sendo formatados a partir da China e dos mercados asiáticos repercutiu-se igualmente no desmantelamento de outros similares em Itália. Já num estado avançado do processo das investigações foram feitas novas detenções a partir da investigação da Europol e do depoimento de Wilson Raj Perumal, um dos membros de uma rede de apostas de futebol gerida pelo empresário Tan Seet Eng, também natural de Singapura e actualmente sob investigação pela Interpol. Isto depois de ter sido detido no passado dia 21 de Fevereiro pelas autoridades italianas em Milão um alegado cúmplice desta mesma rede, Admir Suljic. Mas as ligações dos intervenientes do futebol italiano actores da manipulação de resultados não se limitam ao mercado asiático, com os mais de três biliões de euros recentemente produzidos por esta actividade a serem direccionados para a Camorra e outras organizações crimininais da máfia em Itália.

Admir Suljic, detido pela polícia italiana por cumplicidade com a rede de apostas de Singapura

Admir Suljic, detido pela polícia italiana por cumplicidade com a rede de apostas de Singapura

Chris Eaton, director da integridade do desporto no Centro Internacional  de Segurança Desportiva, defende que “o futebol está num estado desastroso”, denunciando o aproveitamento do crime paralelo da enorme produtividade económica do desporto.

Não se pense, porém, que o fenómeno da manipulação de resultados  no futebol tenha surgido só mais recentemente. De resto, os esquemas de combinação de resultados de futebol não nasceram em Itália. Nem sequer a primeira grande investigação desta prática fraudulenta foi aquela de 2011. Se os primeiros relatos de “arranjinhos” de resultados no desporto remontam ao tempo dos romanos, nomeadamente aos célebres “jogos de gladiadores”, e já depois de as primeiras apostas desportivas terem sido “copiadas” da Grécia Antiga, também no futebol a perversão dos resultados estrutura-se desde logo a partir dos primórdios.

jogadores united

Sandy Turnbull , Enoch West e Arthur Whalley, do United, manipularam o resultado de um jogo com o Liverpool em 1915

Há quase um século atrás Manchester United e Liverpool viram-se envolvidos num escândalo desportivo muito semelhante àqueles recentemente descobertos pelas autoridades policiais internacionais. Tudo se passou em 1915, em Old Trafford, num partida que foi previamente preparada por 4 jogadores dos reds (Jackie Sheldon, Bob Pursell, Tom Miller e Thomas Fairfoul) e 3 do United (Enoch West, Arthur Whalley e Sundy Turbull), sentados à mesa de um típico pub inglês. Assim mesmo, mostrando que o modus operandi do passado, apesar da época, não era muito diferente do hoje praticado nos tempos modernos e contemporâneos. O desfecho real da partida fez-se com 2 golos marcados pelos diabos vermelhos, tal e qual como havia corrido no ensaio geral do bar de Manchester. O resultado acabaria por ser determinante para a equipa, salva por exactos 2 pontos de vantagem sobre o Tottenham,  entretanto relegado para a segunda liga. As suspeitas seriam, apesar disso, fatais para as duas formações encenadoras desta peça. Na altura as elevadas odds no caso de aposta na vitória  do United pelo score de 2-0 causaram estranheza e fizeram soar os alarmes. Assim como os relatos dos jornais da época, como este de um diário de Manchester: “A segunda parte foi repleta de futebol sem vida. O United tinha 2 golos de vantagem com 22 minutos por jogar e parecia estar tão contente com o resultado que aparentemente nunca tentou ampliá-lo. Já o Liverpool quase nunca deu a sensação de que seria provável que conseguisse marcar”.

O recuo a 1915 mostra sobretudo que o princípio de desvirtuar resultados desportivos esteve sempre presente na história do desporto, independentemente do grau de sofisticação das redes que hoje dão forma a esta actividade. Alimentadas pelo natural crescimento do crime paralelo resultante da actual crise económica mundial, fortemente focalizada no continente europeu, assim como pela proliferação de  gangs criminosos, as redes de manipulação de resultados de futebol por via de apostas ilegais só tendem a crescer ao longo dos próximos anos. Contando com a colaboração do sistema capitalista e dos governos que o alimentam, a actuação dos grupos de adeptos organizados e claques cujos membros participam activamente neste esquema destruidor da verdade desportiva, assim como a cedência a acordos de patrocínio com empresas de apostas online que mais não são do que um autêntico rastilho de uma teia de explosivos que começam a rebentar, estas organizações vão continuar a encher os bolsos e a barriga perante a passividade das principais instâncias internacionais que regem o desporto-rei. E daí a pergunta – Quanto vale uma aposta?

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

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