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Esta semana ficou marcada pela realização da 32ª edição do Portugal Fashion. Dividido entre Lisboa e o Porto, o maior evento nacional de moda decorreu este ano sob o tema “vibe” e antecipou as principais tendências para o próximo Outono/Inverno através de um conjunto de desfiles onde as criações dos estilistas Katty Xiomara, Júlio Torcato e Anabela Baldaque estiveram em destaque. O sucesso de tão glamouroso evento estava garantido à partida, mas as “good vibes” que se sentiram nas suas passerelles ao longo de quatro dias alastraram-se a todo o país como já é habitual acontecer, num desfilar globalizado de personagens que com toda o requinte vão exibindo as suas mais diversas (in)aptidões num palco mediático cada vez mais dominado pelas elites. Situados que estamos num país de aparências e jogos de poder, é caso para dizer: tão fashion que é este Portugal.

E parece que a moda pegou mesmo. Ligamos a televisão e as notícias dão constante destaque à demonstração escandalosa e descarada que certas figuras públicas fazem da sua própria impunidade, com o compadrio silencioso dos meios de comunicação social. A tendência já não é novidade para ninguém, o tapete vermelho da hipocrisia estende-se para estes senhores a cada dia, e Sócrates é só mais um exemplo disso mesmo. Depois da sua íntegra e bem-sucedida passagem pelo poder, sem quaisquer indícios de corrupção ou tráfico de influências, o engenheiro volta agora ao conforto dos nossos lares como comentador político da RTP, e não haveria ninguém com mais legitimidade para desempenhar tal papel: a percentagem de culpa própria que possui na situação caótica que o país atravessa dá-lhe o conhecimento de causa necessário para criticar o que os outros estão agora a fazer de errado. O Zé é muitas vezes o bobo da corte e o principal alvo de chacota, mas se atendermos ao tão necessário sentido de justiça somos forçados a admitir que neste ponto o nosso querido ex-primeiro-ministro se junta apenas a um vasto leque de personalidades que depois de revelarem a sua incapacidade no desempenho de funções de peso a nível político acabam por trocar o Parlamento pelo acolchoado cadeirão de uma qualquer estação televisiva, impregnando a praça pública de uma falsa moralidade que perfuma os ideais de quem os ouve. Nem é necessário dizer os nomes porque toda a gente sabe de quem estamos aqui a falar, e tão fashion é este Portugal.

velosoMais curioso é constatar que panorama semelhante se verifica no mundo do futebol. Pseudo-entendidos na matéria atrevem-se a falar de tudo e mais alguma coisa, mesmo que o seu passado desportivo não passe de uma carreira frustrada como treinador ou jogador profissional. Também eles se vestem a rigor para pautar as tendências na área da opinião desportiva, dizem-nos o que é importante discutir e o que é irrelevante, fazem-nos acreditar que não há penalti mesmo quando a mão vai à bola de uma forma tão clara como a água, e mostram-se a cada aparição tão incompetentes como os betinhos de uma selecção nacional onde se destacam mais os penteados aprimorados dos intervenientes do que o futebol por eles praticado. Mas o povo aplaude e gosta, tão fashion que é este Portugal.

Centremo-nos então nos factos e percebamos que as roupas que os manequins ostentam nas passerelles não são as que nós podemos comprar, que a atitude pouco profissional dos futebolistas não é aquela que nós podemos aplicar nas nossas vidas reais, que a impunidade de que os políticos usufruem tanto na Assembleia como nas televisões nada tem a ver com a justiça panóptica que nos persegue, e, sobretudo, que nós nunca seremos como eles. Perante tudo isto, resta-nos apenas seguir o caminho das cínicas tendências que nos são apontadas, sejam elas de outono, inverno ou verão, ou em vez disso optar por uma atitude mais crítica e céptica em relação a tudo aquilo que nos é apresentado com o rótulo de verdadeiro. Mesmo num Portugal que é sempre tão fashion, é fundamental ter os pés assentes na terra, encarar a realidade com olhos próprios e contrariar a instrumentalização massiva de consciências que nos querem aplicar, colocando a “dúvida” como princípio primordial na formulação de todo e qualquer tipo de conhecimento, como num tempo bem distinto do actual o filósofo francês René Descartes já havia sugerido.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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