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A actividade desportiva, mais especificamente o futebol, é exímia na criação de esconderijos políticos e ideológicos. Embora no imediato seja a componente física que a define, os cérebros e os corações estão lá, em campo, para denotar o carácter individual do exercício. E o excesso de testosterona não consegue limpar as ideologias de cada desportista. Embora criadas para fomentar o espectáculo, as “bestas” nem sempre conseguem disfarçar os seus instintos. E, ao mínimo descuido, no festejo de um golo, um braço é esticado.

Foi o que aconteceu a Giorgos Katidis, que festejou o tento marcado ao serviço do AEK, despindo a camisola com o emblema de águia bicéfala, e esticando, de forma convicta e rosto fechado, o seu braço direito. Como que uma revelação das suas convicções pessoais ou como que o resultado de uma sequência irreflectida de acontecimentos, o grego quis demonstrar, perante os adeptos que assistiam nas bancadas, o orgulho pelo seu trabalho. Na forma escolhida, em jeito de saudação nazi, só faltou que fossem proferidas as palavras: “Heil Hitler”.

Se o gesto merece ser alvo de crítica, mais merece a justificação dada pelo próprio médio: “Não sou um fascista e não o faria se soubesse o que significava”. Pior do que enunciar num acto uma convicção extremista, é afirmar publicamente que desconhece o simbolismo que o acto encerra. Porque se esse gesto servirá de ofensa para uma comunidade, mais ofendida a mesma ficará por Katidis desconhecer o que aconteceu aos seus antepassados.

Os relatos da História podiam elucidar o jogador. Hitler não gostava de judeus, mas também não gostava de futebol. No alto da superioridade ariana, o chacinador preferia ajeitar o bigode ao som das melodias de Wagner, vibrar com os motores nas corridas de carros ou tremer com a violência de um bom combate de Boxe. Mas, da mesma forma que os judeus lhe foram úteis para preencher os campos de trabalhos forçados, o futebol revelou toda a sua utilidade enquanto captador de massas e elemento de distracção perante o lado destruidor do regime. Mais do que isso, o futebol era uma arma eficaz para revelar a Superioridade de uma Nação, que a todo o custo teria de ser afirmada.

“Toda a propaganda tem que ser popular e acomodar-se à compreensão do menos inteligente de entre aqueles que se pretende atingir”, proferiu Adolf Hitler num dos seus discursos imponentes. E que melhor forma de propaganda, e de tão fácil compreensão à população subjugada, que um encontro desportivo entre homens, de emblema nacionalista ao peito, prontos a demonstrar em apenas 90 minutos, o que muitos meses de avanços bélicos poderiam não conseguir: qual o lado mais forte.

Este uso do futebol como arma política não foi uma fórmula descoberta pelo Terceiro Reich. Todos os regimes totalitários europeus conseguiram, e de forma eficaz, utilizar a apetência do futebol para atrair multidões, de forma a aproveita-lo em seu benefício. Mussolini em Itália, Franco em Espanha ou Salazar em Portugal, marcaram a História do Futebol das suas Pátrias, mudando o seu rumo para benefício próprio, como uma forma facilitada de atrair simpatizantes para os seus regimes e “calar” os eventuais oponentes.

mudial1934

O Mundial de 1934 representa, na sua organização e desfecho, a nova forma de fazer futebol, adoptada pelos regimes e em prol dos regimes. A Itália de Mussolini acolheu a competição no seu seio fascista, de forma a monopolizar mais um evento de propaganda, e o ditador deixou uma lição pioneira em forjar resultados, mediante a escolha dos árbitros (décadas mais tarde, Pinto da Costa iria ser um precursor entusiasta deste método), mas também na motivação dos jogadores da Squadra Azzurra, levando à seria o lema “Vincere o morire” (“Vencer ou morrer”). Numa demonstração simplista do enredo deste campeonato, o pódio foi preenchido, curiosamente, pelo primeiro lugar da anfitriã Itália, pela segunda posição da aliada Alemanha e pelo bronze do berço de Hitler, a Áustria.

mundial1938

Prova da eficácia da filosofia administrada por Mussolini na selecção italiana é a revalidação do título, quatro anos mais tarde. No Mundial de 1938, acolhido pela França, ficou de fora a Espanha, à custa da sua Guerra Civil, que daria a vitória a Franco, e a Áustria, agora com o território já anexado à vizinha Alemanha, cuja selecção integrou jogadores austríacos. Matthias Sindelar, jogador austríaco de origem judia fica na história por ter recusado a camisola germânica e, também, por dias mais tarde ter sido encontrado morto. Não só nas selecções nacionais se fez impor a força da direita que assolou a Europa, no passado século. Também os clubes ficaram marcados na sua História individual, pelos regimes cegos que governaram os seus países. E, muitas das rivalidades que conhecemos hoje entre equipas, foram fomentadas mediante a dicotomia pró-regime/anti-regime ou pelo oportunismo ditatorial de suporte aos clubes que revelavam um maior sucesso fora das suas fronteiras.

Josep Sunyol, presidente do Barcelona, com tendências políticas esquerdistas, foi assassinado pelas forças nacionalistas, durante o decorrer da Guerra Civil espanhola. Antes, durante a ditadura antecessora de Rivera, o clube tinha fechado as portas durante um semestre, após a vaia do hino espanhol pelos seus adeptos. No plano oposto, beneficiou o rival Real Madrid, que envergou a camisola do regime, à custa do sucesso que alcançava na Europa na década de 50. Consequentemente, as rivalidades acentuaram-se e saíram das quatro linhas. Mais do que um clube, era uma opção partidária que estaria a ser tomada. E exemplo flagrante disso é o clube fundado por ingleses, em Espanha. O Atlético de Bilbao tomou a decisão, que prolonga até aos dia de hoje, de apenas aceitar jogadores bascos para o representar, após a imposição franquista da língua castelhana, como a única oficial durante a vigência do regime.

Também Salazar beneficiou de um futebol subversivo, que alimentava o orgulho nacional. Falo, obviamente do Benfica, que desgosto deu ao General Franco e ao seu Real Madrid. Os encarnados roubaram a Taça dos Campeões Europeus aos Blancos e Coluna, Eusébio & Companhia foram recebidos pelo Almirante Américo Thomaz, que os tornou Comendadores. Belá Guttman, que conduzia a equipa que personificava o lema salazarista “Fátima, Futebol e Fado”, recusou-se a treinar os seus antigos jogadores, por não se achar capaz de treinar Comendadores.

Num regresso à actualidade, percebemos facilmente que camisola política que o futebol veste não é só alimentada pela individualidade dos jogadores, dos seus dirigentes, ou pela importância que os Estados lhe oferecem. Vai mais além e estende-se aos adeptos que apoiam a modalidade. As claques são espelhos da identidade de um clube, formadas mediante ninhos políticos e ideológicos, que se reflectem na sua forma de apoio ao emblema que amam. As claques amam os clubes. E a sua forma de o demonstrar, para toda a gente ouvir, são os cânticos.

E, com um cântico, feriu as susceptibilidades da comunidade judaica, o grupo de adeptos que apoia o londrino West Ham. Num jogo realizado no passado Novembro, frente ao Tottenham, clube que recebe a preferência da comunidade judaica, os adeptos do West Ham foram advertidos pela entoação, em forma musical simples, de frases como “Hitler vem atrás de vocês” ou “Podemos esfaquear-vos toda a noite”, alternadas de sons que imitavam Gás. O mesmo Gás que matou milhões de Judeus na 2ª Grande Guerra.

Esta 2ª Grande Guerra, cronologicamente tão recente, mas cuja memória está esbatida ou é mesmo inexistente, entre a população de um continente que foi palco de uma chacina brutal, motivada por ideologias individuais. Porque simplesmente já não que saber, ou com um propósito claro de esquecer o passado, a Europa actual resolveu esconder o Holocausto e reescrever a Historia. E da mesma forma que um Estudo revelava, em 2009, que uma em cada vinte crianças inglesas julgava que Hitler tinha sido um Treinador de futebol alemão, chegará o dia em que o braço direito esticado será um festejo comum após um golo.

Mas, graças aos “deuses” gregos, e para triste destino de Giorgos Katidis, ainda não é. Se na Itália, de passado fascista, Paolo Di Canio carregou a “pesada” suspensão de um jogo de futebol por, na segunda vez na sua carreira, ter feito a saudação nazi em jeito de comemoração, a Selecção grega expulsa, esta semana, e de forma vitalícia, o seu jogador. Tivesse Katidis chegado à Selecção A e talvez pudesse ter tido umas lições de História, pela mão de Fernando Santos. Mas o “Fatum” traçado é outro, o de nunca mais poder, de braço ao peito, entoar o hino da sua pátria: Reconheço-te pelo gume do teu temível gládio/ Reconheço-te por esse rápido olhar com que fitas o horizonte/ Saída das ossadas sagradas dos Helenos e pujante da tua antiga bravura/Saúdo-te, saúdo-te, Oh Liberdade.”

Oh Liberdade…

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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3 thoughts on “A ala direita

  1. Brilhante artigo. Foi sempre muito forte a influência do Fascismo no futebol. Pouca gente sabe mas o assassinato do presidente do Barcelona pelo franquismo foi o que despoletou a rivalidade Real-Barça. É curioso que um rivalidade tão forte no futebol tenha começado pela campo politico, ainda hoje esse campo tem resquícios no El Classico.
    Sinceramente não sei o que me choca mais, se a ignorância do atleta grego ou o facto de ter mesmo feito o gesto. O Atlético de Bilbau só joga com Bascos ou atletas que tenham ascendência basca e conheçam a sua história. Além disso estrangeiros que tenham crescido no país basco e se revejam nos ideias do clube também são aceitos. Ou seja, practicamente só bascos(originais ou aqueles que se tornam por coração) são permitidos na equipa de Bielsa.

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