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O Pós-Bento e o fim de Godinho  

Chegado o dia da grande decisão, os sócios sportinguistas não viraram a cara ao clube da sua predilecção. Numa afluência considerável, a terceira maior da história da instituição, ficou patente a preocupação e a vontade de tomar parte influente nos desígnios do clube, exercendo o voto e exigindo mudanças. O curto reinado de Godinho Lopes instalou em Alvalade um caos desportivo que rompeu com a senda estável que Paulo Bento promulgou, enquanto treinador, desde 2005 até 2009. Sob a tutela directiva de Soares Franco e José Eduardo Bettencourt, o agora seleccionador foi vencendo, angariando taças e mantendo a equipa numa rota europeia. Depois de saneado, tudo se desmoronou desportivamente. Até a política financeira, que até então tinha sido de contenção, se alterou profundamente. A contratação de Pongolle, por 6 milhões de euros, marcou o início de nova abordagem técnica e administrativa, onde se sucederam as contratações falhadas e onerosas para os já pobres cofres leoninos. O clube, que desde Roquette respira cada vez menos profundamente, sinal de uma constrição financeira que se agravou depois com o pesado investimento no novo estádio, caiu progressivamente num desarranjo contabilístico que obriga hoje a que se vendam os anéis para manter os dedos. O caso do holandês Wolfswinkel é somente o último que se conhece. A venda apressada, que permitiu pagar salários em atraso, é o reflexo do situacionismo premente que assombra o futuro do clube.  Com Godinho Lopes o passivo leonino aumentou largamente numa curta janela temporal, agravando a herança dos recentes antepassados directivos; a filosofia do investimento na equipa não trouxe quaisquer resultados, apenas mais dívidas e consequentes alienações de activos. O Sporting tem hoje uma brilhante e profícua academia onde os passes dos seus jovens, são, em muitos casos já, partilhados aos pedacinhos com fundos de investimentos. Apesar das boas épocas obtidas por Paulo Bento, os sócios quiseram mais. Mais jogo, mais qualidade, mais golos, mais gente no estádio e gritar pelos ídolos. Em 2009, e sob a anunciada maldição de Bettencourt, o clube sem rumo nem Bento mergulhou na apatia desportiva. A sucessão das cadeiras técnicas abriu um buraco irreparável: nenhum, até hoje, segurou o nervosismo do adepto leonino. Querer mais é normal, mas nem sempre essa vontade chega para tornar o desejo realidade.

Vencer para mudar, mudar para vencer

SAM_4142Em retrospectiva, não é a saída de Paulo Bento que explica o mau período desportivo do clube – nem tal poderia ser, desse modo, analisado. Numa estrutura hierárquica e profissional, existem responsabilidades partilhadas que não podem ser reduzidas à qualidade de um treinador ou outro. As direcções falharam, afirmam os adeptos pelas ruas circundantes ao estádio, depois de entregarem o voto ao destino dos números. O anúncio da decisão, que seria dado pelo presidente da Assembleia-Geral, Eduardo Barroso, chegaria apenas às duas da manhã, depois de muita espera e de muita impaciência: os fãs da dita e apregoada mudança, personificada na campanha em Bruno de Carvalho, queriam fazer a festa. Mal as percentagens foram verbalizadas por Eduardo Barroso, a exaltação e explosão de alegria foram bem audíveis na sala. A mudança tinha vindo; pelo menos, o anúncio da mesma: «O Sporting é nosso outra vez!», afirmou o vencedor.  Com 53,63% dos votos contra 45,35% de José Couceiro e 1,02% de Carlos Severino, o empresário Bruno de Carvalho esboçou o sorriso da vitória. Numa das mais concorridas eleições do clube, mais de 15.000 sócios expressaram a sua vontade, e no reconhecimento da derrota, ambos os adversários afirmaram inequivocamente o apoio ao novo presidente. Ao contrário da eleição passada, as listas vencedoras foram provenientes do mesmo candidato: o totalista Bruno de Carvalho tem, pelo menos à partida, terreno favorável para erigir as suas políticas com o mínimo de estabilidade institucional. Tanto para o Conselho Fiscal e Disciplinar como para a Mesa da Assembleia-Geral, a escolha recaiu sobre Jorge Bacelar Gouveia e Jaime Marta Soares, respectivamente.  A mudança foi o mote, e a vitória total da lista B foi o primeiro passo para a mudança. Vencer será o próximo passo: vencer na orientação financeira, cortando gastos e buscando rapidamente investidores em carteira. O programa de Bruno de Carvalho prometeu investimento externo sem perda da maioria do capital da SAD, medida que, contrária à de Couceiro, permitiu assegurar aos sócios que o clube não ficará à deriva dos caprichos de um qualquer «dono». Serão estes investidores reais? A pergunta permanece com resposta oculta, blindada no argumento negocial do mistério: a alma do mesmo, do negócio. Couceiro admitia perder a maioria, apontando a necessidade de alavancagem financeira como essencial. Severino tinha uma carta diferente na manga: além de confirmar os 25 milhões de euros, que se tornaram um escandaloso pré-requisito eleitoral, apresentou uma medida para potenciar talentos na academia, através de uma parceira com a Cruyff International, em que parte do passe dos jogadores seriam alienados em prol dessa instituição, revertendo o resto para os cofres do Sporting. Mas a mudança vinha já carimbada desde 2011. Desde o dia em que Godinho, depois de vencer as eleições, não conseguira discursar perante uma plateia de revoltosos. De modo praticamente inédito, um presidente vitorioso viu-se impossibilitado de comemorar o facto de ter sido o mais votado: o cenário de tumulto desse dia marcou o futuro – um clube em dissociação. Um clube onde o meio directivo começou, logo ali, visceralmente separado do meio associativo. Quem discursou então foi o calmo Bruno de Carvalho, pacificando, qual presidente virtual, a multidão em fúria. O futuro estava traçado para quem quisesse ver. A mudança ficou pendente; pelo menos o seu anúncio.

A voz e a vez dos sócios   

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O «Palavras ao Poste» acompanhou a par e passo as eleições do Sporting. Por entre a chuva calma, a azáfama da corrida ao voto e a cobertura jornalística, presenciámos o clima eleitoral, ouvimos a voz dos sócios, os seus desejos e anseios para o futuro do clube. Nas várias entrevistas que levámos a cabo a sócios votantes presentes nas imediações do estádio, a mudança pressentia-se. Bruno de Carvalho saltou da boca da maioria, Couceiro sempre a alguma distância. De Severino, pouco sinal. A mudança, pendente, viu a sua vitalidade reacender-se, dois anos depois, ali, na voz dos sócios. «Tem de haver uma mudança radical», afirma um sócio que viajou de Chaves até Lisboa para exercer o seu direito de voto: «Os programas são um pouco parecidos…o sentido é mesmo o da mudança». A ânsia de alterar o curso do clube é e foi, maior que tudo o resto. O medo da bancarrota apenas deixa espaço para poucas, muito poucas contratações: «Eu penso que há que se fazer contratações, mas só cirúrgicas. Fazer dois ou três investimentos, bons jogadores; o resto é apostar na base da formação». No que toca à possível perda da maioria do capital da SAD, o medo racional persiste, ainda que a água esteja a ultrapassar a linha da boca do clube: «Inicialmente, penso que não deve perder. Investimento sim, mas sem perder, inicialmente, a maioria. No primeiro ano, quem for eleito, terá de tentar fazê-lo sem perder capital», afirma o adepto de Chaves, possuidor de 2 votos. Os jovens colocam-se, na sua maioria, ao lado da lista B, imbuídos do mesmo espírito de mudança, expressando a vontade de «acabar com a continuidade». Um dos jovens por nós interpelado justifica o voto: «Já tinha votado nele nas últimas eleições…continuamos a acreditar nele». A corroboração da confiança em Bruno de Carvalho era renovada. O espectro do empresário permaneceu intacto durante os dois anos de mandato de Godinho Lopes, e as palavras dos jovens anteviam uma renovação. Bruno de Carvalho estava iminente. O terceiro jovem entrevistado, detentor de 7 votos, foi peremptório: «Votei Bruno de Carvalho. Para mim a base da equipa deveria ser a formação. Temos de comprar mais barato e rentabilizar os nossos. Se rentabilizarmos os nossos e vendermos jogadores a bom dinheiro, poderemos comprar jogadores como o Benfica e o Porto…jogadores de 10 ou 12 milhões, enquanto nós só chegamos aos 4 ou 5 milhões», explicou, dando ainda o seu parecer sobre a venda de Wolfswinkel: «Não sei até que ponto é legal. Há uma direcção mas é demissionária, não tem capacidade para tomar decisões».

À medida que os testemunhos se seguiam, o fundamento repetia-se. Na boca da maioria, a quebra da continuidade. «Exactamente. Principalmente isso. Já tinha votado, nas últimas eleições, no mesmo candidato», afirmou outro sócio, apologista de Bruno de Carvalho. Quanto à política financeira, o desinvestimento no futebol continua a ser um dos únicos caminhos: «Forçosamente vamos ter de passar por essa parte, pois financeiramente o clube está de rastos. Embora possa haver alguns investidores que queiram investir agora, sempre pensei que a base do nosso futebol tinha de ser a formação». Detentor de 7 votos, o sócio lisboeta não quer apressar o regresso do Sporting à luta pelo título: «Temos de ter paciência, temos de arrumar a casa primeiro. Nós já vimos que o pessoal da formação consegue jogar tão bem como qualquer outra contratação que se faça». Na área das finanças, este sócio partilha a opinião de que, provavelmente, o clube terá de abdicar da maioria da SAD: «Se calhar o candidato em que votei até poderá ter de o fazer no futuro».

Couceiro, que ficou em segundo na votação, conseguiu um bom resultado e de certo modo, demonstrou que o rótulo da continuidade continua a ter alguns apoiantes dentro do seio leonino. Porque talvez a tal «continuidade» tenha sido sempre interpretada de modo errado a priori.  Durante a campanha, muito foi dito por parte do candidato da lista C por forma a desmarcar-se de tal ideia, pois o legado pesado de Godinho Lopes seria, invariavelmente, uma herança que nenhum candidato quereria ter. Apesar de se afastar discursivamente de Godinho, criticando de modo aberto a sua governação, Couceiro sofreu o estigma das movimentações que a banca levou a cabo na tentativa de reunir um candidato consensual: falou-se em Figo. Couceiro pareceu ter sido a outra escolha. Desta forma, a campanha centrou-se na dicotomia «mudança/continuidade», excluindo liminarmente Carlos Severino do debate. O candidato da lista A, profissional da comunicação social, foi ignorado pela vastíssima maioria dos sportinguistas, que se focaram nas retóricas bafientas dos chavões redutores – talvez nem Bruno de Carvalho nem Couceiro sejam, quer a «mudança» quer a «continuidade». Nenhum dos dois, nenhum dos conceitos. Talvez a força das contingências obrigue o candidato vencedor a modelar-se às exigências da banca, por muita que seja a vontade em riscar com o passado. Talvez as pressões internas continuem a pautar o ritmo instável de um clube em desarmonia sistemática. Talvez a equipa volte a ganhar, e aí todos se esquecerão das mudanças. Ou da sua imperatividade.

«Votei na lista C», revelou a jovem sócia, possuidora de 6 votos. A justificação não se fez esperar: «Não gosto do Bruno de Carvalho. Não gosto da sua forma de falar, não gosto das medidas que ele pretende implementar. Não gosto tanto do programa de Couceiro, mas gostei mais do que o de Bruno de Carvalho.  Foi por exclusão de partes. Severino não tem a mínima hipótese», respondeu a eleitora, apontando ainda que o candidato da lista B «compromete-se a não pagar qualquer tipo de dívida. Temos de ser realistas.» A ala mais velha e mais experiente dos eleitores pareceu inclinar-se mais para José Couceiro: «Votei Couceiro», disse-nos um sócio detentor de 9 votos.  Apesar de preferir a lista C, o caminho para a salvação do clube é o mesmo que os apoiantes de Bruno de Carvalho: «Investimentos cirúrgicos e apostar na formação. Para mim as contratações deveriam ser feitas no mercado nacional. Há bons jogadores no mercado interno. Eles vão lá fora comprar jogadores a empresários e isso já se sabe que nunca dá boa coisa. É dinheiro mal gasto», afirmou assertivamente.

De Jesualdo a Jesus, sonhar não endivida

Dos sócios entrevistados pelo «Palavras ao Poste», a personalidade escolhida como presidente ideal do clube foi, na sua grande maioria, a de João Rocha, malogrado ex-presidente leonino, um dos mais emblemáticos presidentes da história do clube de Alvalade. Mas se este já pontifica no ideário colectivo da instituição como um vulto sagrado, falta Jesus, para completar o sonho de grande parte dos sportinguistas. A possibilidade, ainda que tremendamente remota, de poder vir a ter o treinador das águias no comando do clube leonino, agrada à maioria interpelada pelos nossos repórteres. Apesar do salário dispendioso, a equação poderia ter um final feliz para o lado dos leões: «Eu gosto do Jesus. Acompanho-o desde o tempo do Felgueiras, sempre foi um bom treinador, sempre fez bons trabalhos nas equipas onde passou…não vejo com maus olhos ele vir para o Sporting», opinou um dos jovens entrevistados, detentor de 5 votos.  Com a premissa base de ter de apostar na formação, o provável novo treinador do Sporting (se se confirmar a indisponibilidade de Jesualdo em continuar, agora com nova direcção) poderá ter, segundo as escolhas dos entrevistados, várias caras. Se muitos apontaram o sonho de Jesus, pelas suas capacidades técnicas, outros torceram-lhe o nariz: «É muito caro», argumentou um apoiante da lista B. Paulo Fonseca, treinador de um Paços de Ferreira surpreendente, também foi apontado como opção válida, assim como o timoneiro técnico dos canarinhos: «Sou contra a permanência de Jesualdo. É preciso um jovem com ambição. Gosto muito do Marco Silva, do Estoril», comentou o sócio vindo de Chaves. Na ininterrupta dança dos treinadores, a jovem apoiante da lista C defende a continuidade de Jesualdo: «Nós achamos sempre que eles devem sair, mas eles vão saindo e o problema é sempre o mesmo. O problema é a mentalidade de balneário. Eu gostava do Domingos, acho que saiu cedo demais», finalizou a jovem. Mas à medida que a reportagem avançava e os testemunhos se acumulavam, o padrão era incontornável: Jorge Jesus, o sportinguista de coração, era o sonho adiado pela falta do capital. Um Dom Sebastião da táctica em final de contrato, à espera da oportunidade certa: «Jorge Jesus sim! É um sportinguista. A família toda dele é. Se calhar o seu maior gosto um dia seria treinar o Sporting», disse, em tom divertido, um reformado sportinguista que acabava de exercer o seu direito ao voto.

Desta vez, aplausos para o vencedor

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Depois do anúncio de Eduardo Barroso, a explosão de alegria parecia ter estado engarrafada desde a vitória de Godinho Lopes, em 2011. O presente ganhava forma de passado, reavivando os festejos que não foram tão efusivos quanto se quereriam. O presente redimiu-se daquele passado. Dois anos de desgoverno, diz a maioria. Bruno de Carvalho festejou, afirmando, em tom vitorioso, que o clube tinha voltado às mãos dos reais sportinguistas. A continuidade acabou. Ao que dizem. Agora, que o caminho continua, disso ninguém duvida. Quando se começarão a sentir as mudanças preconizadas por Bruno de Carvalho, e que tantos cânticos projectaram, depois de sabido o triunfo do jovem presidente? Serão sentidas de todo, ou serão similares àquelas réplicas que precedem o terramoto, mais subtis e muitas vezes imperceptíveis? A verdade não se sabe. Muitos acusam a campanha de ter sido pouco frutífera, pouco esclarecedora, pouco substancial. Os investidores são desconhecidos ainda. As necessidades financeiras estão à vista de todos. A banca aperta mas prefere ir emprestando, lentamente, atenta às contrapartidas que vão sendo suas por direito. Os juros cavalgam. Mas o dia é de mudança. Talvez dentro de campo, algo mude também, como por contágio. Talvez haja mais golos da juventude que desponta. Do talento que abunda numa das melhores academias de futebol do planeta. Disso, pelo menos, ninguém duvida. E enquanto houver talento, gente pequena de leão ao peito querendo ser gente grande de verde e branco a rigor, o Sporting não acabará. Se gerir essa riqueza com preceito. Profissionalismo. E amor-próprio.

Bruno Cardoso desenhoReportagem de: Bruno Falcão Cardoso e Bruno Gomes

SONY DSCFotografia de: Bruno Falcão Cardoso

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