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Talvez não o saiba mas o Benfica jogou no passado sábado. A pacata vila de Condeixa-a-Nova foi palco de um encontro particular entre os encarnados e a Académica, com a receita a reverter a favor da Associação Acreditar, que se dedica a ajudar crianças com cancro.

O meu texto desta terça-feira bem que poderia debruçar-se sobre a gritante falta de publicidade feita ao jogo e à causa associada, com responsabilidades partilhadas entre os clubes (o Benfica acima de tudo, pelo seu alcance enquanto instituição) e a comunicação social. O Benfica jogou (ou o Benfica B, o que neste caso é indiferente) mas muita gente não o soube. Valeram, essencialmente, os esforços locais que conseguiram cativar 2 mil espectadores e uma importante quantia para a Acreditar.

Porém, não é sobre o desconhecimento geral relativo a este jogo que hoje vos falo (apesar de já me ter esticado nesse ponto). Um outro tipo de desconhecimento perturbou-me. Pela primeira vez desde que me recordo, o Benfica contou nas suas fileiras com um jogador que nunca tinha ouvido falar. Um vazio tomou conta de mim. O momento em que coloquei a hipótese de já ser um pouquinho menos benfiquista do que fui outrora. Seria o Benfica menos importante para mim a ponto de nem saber o nome de um dos nossos? Os suores frios e as mãos trémulas deram lugar a um suspiro de alívio quando entrei num fórum de benfiquistas e percebi que o sentimento era geral. Ninguém conhecia um dos jogadores que pisavam o relvado de Condeixa com o Manto Sagrado. Mika? Check! Bruno Gaspar? Check! Ascues? Check! Sidnei? Check! Gianni Rodriguez? Check! Cafú? Check! Leandro Pimenta? Check! Cornejo? (Esse ainda está vivo?) Check! Elvis? Check! Miguel Rosa? Check! Soares? Quem???

Primeiro que tudo, Soares não é nome de jogador. Os Soares que me recordo no futebol português tinham um primeiro nome cheio de classe. Falo do Jorge, do Marco e do Cédric, claro. Nenhum futebolista no mundo pode aspirar a grandes voos sendo apenas Soares. Já imaginaram o que teria sido a carreira do Cristiano Ronaldo se o seu nome fosse Soares? Bem, adiante. Jogou o Soares e o Benfica perdeu. Já estão a seguir a minha linha de pensamento?

Tive que esperar pelo dia seguinte para saber mais sobre o Soares. Algures na comunicação social portuguesa surgiu a informação de que era um jovem à experiência na equipa B do Benfica, proveniente do Amora. Após uma breve pesquisa, descubro que o Soares é também Leonildo Ceita. Mas quem no seu perfeito juízo opta pelo nome artístico de Soares quando pode ser Leonildo Ceita (Leonildinho, para os amigos)?

Encaminhando este texto para uma ‘praia’ mais séria, não posso deixar de manifestar a minha preocupação com os contornos escanifobéticos das negociatas dentro do meu Benfica. Os contentores das mais exóticas paragens são quase tão frequentes no Terminal da Luz como no Terminal XXI do porto de Sines. Só que, neste caso, a mercadoria são os jogadores. O Benfica tem, na sua folha salarial profissional, 90 jogadores. Poderia, portanto, formar quase cinco plantéis. Existem os da equipa principal, os da equipa B, os das camadas jovens com contrato profissional, os emprestados e… “Os Outros”. Sim, tal como no Game of Thrones, a grande preocupação são “Os Outros”. O balneário de treino destes outros é o mesmo que o da equipa principal ou da equipa B e o lugar de estacionamento da viatura também. Porém, já vieram a público alguns casos que espelham uma preocupante falta de respeito pelos jogadores que, numa linguagem mais formal, são considerados ‘por colocar’. Quando o Luís Freitas Lobo vos falar do espaço de ninguém lembrem-se que não é bem assim. O espaço é do Júlio César, do Léo Kanu, do Míchel e do Alípio. E já foi do Urreta, do Jorge Ribeiro, do Balboa, do Fernandéz ou do César Peixoto.

Kanu, Míchel, Alípio e Júlio César estão, oficiosamente, de férias. Mas, se forem profissionais, dificilmente estarão felizes. O primeiro foi recambiado de um clube modesto do Brasil. Míchel também teve guia-de-marcha de Braga depois de esgotar o stock de picanha do Chimarrão do Bom Jesus. Júlio César teve mais sorte (ou azar) e está de férias desde o verão passado. Já Alípio reapareceu este fim-de-semana em Condeixa, jogando pela equipa B, numa aparição fantasma e que não deverá ter novo episódio num futuro próximo. No seguimento da excelente iniciativa da RTP para com José Sócrates, inserida no programa Novas Oportunidades, sugiro que os quatro relegados assumam o papel de comentadores de um qualquer programa da BenficaTV, analisando as prestações de quem lhes tomou o lugar.

O Benfica tornou-se, qual novo rico (que não o é), num dos expoentes máximo de uma instrumentalização do jogador, numa indústria que se crê com legitimidade para assim agir, baseada no retorno financeiro e no facto de ser hoje uma actividade de ponta na área do entretenimento. No Benfica os jogadores entram e saem com um despacho aduaneiro de fazer inveja aos melhores portos do norte da Europa. Alguns dos produtos nem passam pelo scanner do Terminal da Luz e outros são encaminhados para outras paragens sem sequer pisar solo lisboeta.

O caso de Soares até pode nem se enquadrar neste típico conceito de jogador-mercadoria nem tão pouco encher os bolsos de intermediários e actores principais. Mas a história recente dos encarnados mostra um acumular de nomes provenientes das mais recônditas origens, num processo que caminha de braço dado com o aumento do passivo e das despesas do clube com pessoal. Na sua campanha para a presidência do Benfica, Rui Rangel alertou para o número assustador de jogadores vinculados contratualmente às águias. Luís Filipe Vieira ripostou argumentando que o número não ultrapassava a casa das oito dezenas (como se essa fosse uma quantidade modesta). As preocupações de Rangel caíram em saco roto e ninguém se preocupou em saber os números exactos. São 90. E já nem conto com Fábio Faria que, não sendo mais jogador, continua na folha salarial. São 9 guarda-redes, 24 defesas, 35 médios e 22 avançados. Na equipa principal estão 23 elementos e na equipa B 31 (número bem acima do razoável para um projecto que se queria próximo dos escalões de formação). Os números acabam inflacionados pelos juniores com contrato profissional, mas esses também recebem. Pode ser pouco cada um, mas no acumulado a quantia já pesa nas asas da águia.

A contagem subiria para 95 (!?) se aqui já incluísse os nomes dos já contratados Filip Đuričić, Miralem Sulejmani, Jorge Rojas, Elbio Alvarez e Jim Varela, os dois últimos incluídos num negócio que mais parecia a venda de repolho no mercado da Ribeira. Dos 90 jogadores, 20 estão emprestados. Juntos, por si só, formariam um plantel para uma qualquer competição ligueira.

Numa perspectiva meramente clubística diria que o Benfica tem que aliviar a folha salarial. Mas, mais importante que isso, tem que se preocupar em dar o exemplo e em honrar os seus compromissos. O seu nome e a sua grandeza assim o exigem. Seria importante começar por deixar de contratar tudo o que mexe e arranjar colocação para os excedentários. Mas com a elevação que a instituição e os seus adeptos merecem e não com a humilhação dos relegados. Nem sempre o longe da vista significa longe do coração, tal como não significará, neste caso, fora da folha de salários a pagar no final do mês. O conceito de futebol enquanto indústria trouxe exageros inadmissíveis. O jogador não é mais que mera mercadoria que transita de mão para mão, de clube para clube e de empresário para empresário. É um acumular de números, cifrões e estatística pura. E tudo isso debaixo do guarda-chuva dos clubes.

joni_desenhoJoni Francisco

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One thought on “O meu nome é Ceita, Leonildo Ceita!

  1. É inacreditável um clube estar ligado contratualmente com 90 jogadores e para mim como benfiquista é motivo de vergonha a forma como o clube os tem tratado e concordo contigo em tudo o que disseste. Quando se pensava que tinhamos deixado a política de comprar tudo o que mexe surge a equipa B e mais uma carga de estrangeiros para a preencher e a grande parte dele jogadores sem capacidade de singrar na B quanto mais dar o seu contributo à equipa A. Espero que esta posição seja revista futuramente já tivemos algumas rescisões recentemente como o caso do Duarte Duarte e do Luís Martins e penso que mais um ou outro que não me recordo agora, pensei que iamos aproveitar os 70 jogadores que já tinhamos para formar a equipa B mas fomos contratar mais 20 e é mais do mesmo…

    Excelente artigo Joni, bem explorado e realmente também não percebi quem era o Soares e nunca tinha visto o Cornejo na ficha de jogo nem o Gianni. Temos ali muita gente para limpar.

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