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O clima eleitoral

Fim de tarde em Alvalade, alguns chuviscos no ar não afastam os vários adeptos que se apressam para votar. Ao redor do estádio, singelas mas relevantes reuniões. Diversos pequenos grupos de sócios debatem candidatos, listas e programas com a expectativa de saber quem será o 42º presidente do Sporting Clube de Portugal.

A grande maioria pede uma mudança. Quer sangue novo e afastar aquilo a que chamam “ditadura da continuidade”. O nome Bruno de Carvalho é aquele que mais ecoa na boca dos sportinguistas. Tivemos o privilégio de privar com vários (de diferentes géneros e faixas etárias) e quase todos assumiam o desejo de ver o empresário na liderança. Um desejo que os acompanha (principalmente nos mais jovens) desde a última eleição.

Alguns apesar do receio (e não foram poucos) são da opinião que chegou a hora de mudar e associam muito a imagem de José Couceiro ao, infeliz, recente passado verde e branco. Os poucos que assumem o voto no sobrinho-neto de Peyroteo, têm mais anos de sócio e algum receio do desconhecido. Votam na experiência de Couceiro mas acima de tudo contra o desconhecimento sobre Carlos Severino e Bruno de Carvalho.

Regra geral, os sportinguistas creem que o futuro presidente deve encarnar o espírito do malogrado João Rocha. Defendem assertivamente a ideia de apostar na formação, atrair investidores mantendo a maioria na SAD e dividem-se quando a questão é a continuidade de Jesualdo Ferreira na próxima época. Em caso de saída do professor o sucessor, num quase consenso, dá pelo nome de Jorge Jesus. É elogiado pela competência e pelo «sportinguismo».

Apesar da campanha ter sido menos intensa, agressiva e disputada do que a de há dois anos, ficou evidente que o clube, dominado há anos pela aristocracia leonina, vai assumir definitivamente a sua vertente popular. Não podia ser diferente. Um emblema com cerca de 3 milhões de adeptos não pode ser visto, nem gerido, como um clube de uma elite.

A forma como a última direcção caiu, através de um movimento gerado por jovens sócios anónimos, mostra que o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Godinho Lopes reaproximou os sócios do Sporting e esses mesmos sócios descontentes com o seu trabalho uniram-se para derrubar o último presidente da chamada “Linha Roquettista”. Se pensarmos que nos últimos anos o clube chegou a ter presidentes que nem sequer a eleições se apresentaram, podemos constatar que hoje se fez história em Alvalade. Se esta mudança será positiva ou negativa, não sabemos, mas a sua inevitabilidade é um facto.

Os sócios e simpatizantes do Sporting queriam uma alternância de poder, acima de tudo participar da vida do clube e ter voz num gigante cada vez mais adormecido. Fosse qual fosse o eleito teria sempre pouca margem de manobra e uma marcação cerrada dos populares que sentem que chegou o tudo ou nada na vida do leão. A vigilância aperta mas a militância também. É preciso união e espirito de missão.

LIGA BWIN 2007/2008

A entrevista

pedro gomes

«Um profissional do futebol que é um exemplo»

A equipa do «Palavras ao Poste» cobriu o evento eleitoral do passado dia 23 de Março, em Alvalade, mas também marcou pontos com a obtenção de uma entrevista com a antiga glória leonina, Manuel Pedro Gomes, membro da comissão de honra da candidatura de Bruno de Carvalho, que viria a ser, horas mais tarde, o 42º presidente da história do Sporting. O treinador, natural de Torres Vedras, tem 71 anos e muita sabedoria para distribuir. Defesa lateral nos tempos áureos do clube de Alvalade, Manuel Pedro Gomes fez todo o seu percurso profissional no Sporting, vencendo dois Campeonatos Nacionais, três Taças de Portugal e uma Taça das Taças. Foi internacional pela selecção, tendo-se retirado dos relvados para iniciar uma longa carreira como treinador, onde figuram dois títulos de campeão da segunda liga: um com o Marítimo e outro ao serviço da União de Leiria. Tivemos o prazer e a honra de poder entrevistá-lo. Apoiou a candidatura de Bruno de Carvalho, quer a mística de volta ao clube e acredita piamente no valor e na qualidade da formação leonina para fazer face ao momento que o clube atravessa. Defende uma restruturação do modo como se ensina e se transmite o futebol dentro das quatro linhas, fazendo notar que ainda é preciso evoluir muito na abordagem táctica que a grande maioria dos treinadores impõe. Para Manuel Pedro Gomes, o que interessa é o talento intrínseco e não a idade.

Palavras ao Poste: O Manuel Pedro Gomes tem quantos votos?

M. Pedro Gomes: 12 votos.

Palavras ao Poste: Sobre o técnico actual, Jesualdo – acha que deve continuar como treinador?

M. Pedro Gomes: Não me vou pronunciar. É um ponto de interrogação.

Palavras ao Poste: Em relação à política de investimento no plantel – deve o clube investir mais na formação ou deve continuar no mercado em busca de mais-valias para ombrear com os rivais?

M. Pedro Gomes: Eu acho que os jovens da equipa B poder-se-ão tornar num Ajax, com um bom treinador disputam a entrada na Liga dos Campeões para o próximo ano. Portanto eu penso que, ao contrário do que muita gente diz – pela experiência que tenho como treinador e pelo lançamento de vários jovens que jogavam nos juniores e que eu coloquei na primeira categoria e fora internacionais – a experiência no futebol não se adquire com o «tirar a carta». Quem for mais inteligente, quem compreender melhor a mensagem do treinador e a interpretar correctamente, tem toda a experiência necessária.

Palavras ao Poste: Está a querer dizer que a idade não é tudo…

M. Pedro Gomes: Digo isto porque já tive jogadores com a maturidade de trinta e tal anos, que eram menos inteligentes e assimilavam pior as minhas ideias do que os jovens, portanto isso é um mito.

Palavras ao Poste: Acha portanto que a qualidade é mais importante que o chavão da idade?

M. Pedro Gomes: Acho. Os predestinados têm é que ser aproveitados para depois os guiar tacticamente, porque a técnica têm eles, a criatividade e a improvisação. Agora a táctica…

Palavras ao Poste: Acha que se falha na aprendizagem táctica?

equipa_SCP_1968_69

Equipa do Sporting CP, na época 1968/1969, onde figurava Pedro Gomes.

M. Pedro Gomes: Como treinador, para mim este futebol é da idade da pedra. O futebol parou no tempo. Os treinadores imitam-se uns aos outros à excepção do ex-treinador do Barcelona. Eu sou um estudioso, um visionário e um investigador, e estou muito à frente deste tipo de futebol. Tenho metodologias de treino inéditas que visam mesmo o que se deve fazer no campo. Os meus colegas dizem que os jogadores sabem o que fazer dentro de campo quando afinal não sabem nada. Ainda ontem (Israel -3-3 Portugal) vimos na selecção: sofremos 3 golos infantis. Isso também é falta de preparação numa situação defensiva de colocação em função da bola e do adversário, e também duma parte física que é vencer a inércia. O jogador que marcou o terceiro golo vinha com balanço, e quando assim é sobe-se mais meio metro. Os nossos estavam parados no mesmo sítio, quando deviam estar na linha de golo e depois saírem ao encontro da bola. Quando se fala em futebol há sempre muitos detalhes.

Palavras ao Poste: Em que outras situações se deve melhor o aspecto táctico?

M. Pedro Gomes: O jogador quando está no corredor central tem de saber efectivamente o que vai fazer, mas para que lhe facilitem a vida, os possíveis possuidores da bola têm que ter movimentações e envolvimentos adequados e ensaiados, para que a equipa, na evolução atacante, seja um GPS até á baliza do adversário. E depois, quando se perde a bola, tem de haver uma recuperação conveniente para colmatar o avanço do lateral ou do médio. Toda esta metodologia tem de ser mais explícita, mais concreta. Eu não vejo nada disso no futebol. Cinquenta por cento dos golos no mundo saem no seguimento de bola parada. Porque não estudar mais esses lances? Se aparece alguém a fazer algo diferente, a equipa adversária não sabe responder.

Palavras ao Poste: O Pedro Gomes estaria, em caso de vitória de Bruno de Carvalho, disponível para ajudar o Sporting com as suas ideias?

M. Pedro Gomes: Eu simplesmente faço parte da comissão de honra. O que estou à espera daqui é zero. Eu censuro as pessoas que têm tachos. Eu não sou cozinheiro. Se o Bruno me convidar para treinador, ou dos juniores, da equipa B ou da principal, isso aceito. Já há dois anos fui convidado para director desportivo e não aceitei. Eu sou é treinador. Mas há sempre um grande preconceito, que é a idade. Se fosse na Ásia eu era um mestre, um sábio, mas vivemos na Europa, sou simplesmente velho.

Palavras ao Poste: Em quanto tempo acredita que o Sporting pode estar a competir de igual para igual com os rivais?

M. Pedro Gomes: Baseado na situação actual do clube, se o Sporting apostar na juventude e na academia, os sócios ficam satisfeitos, são os filhos e netos deles que estão a jogar, e portanto têm uma filosofia de futuro diferente: não é conquistar títulos mas sim de uma programação contínua para que, daqui a 3 anos, o Sporting possa ter uma equipa para lutar pelo título. Mas eu já lhe disse anteriormente que, com um bom aproveitamento e ensinamento a estes jovens, o Sporting pode lutar até pelo título; lutará certamente por uma ida à Liga dos Campeões.

Palavras ao Poste: Considera então que esta nova geração do Sporting é de qualidade?

M. Pedro Gomes: É de qualidade. É a fina-flor de todos os escalões etários do futebol. Vai-se subindo passo a passo até se chegar ao topo. E antes do topo é que tem de haver uma boa preparação mental, uma grande exigência do que é o futebol, passar a estes jovens a mística leonina, o que não tem sido feito. E depois, pagar bem. Não é preciso ter empresários a bater à porta. O Sporting tem de fazer ordenados por objectivos.

Palavras ao Poste: O Pedro Gomes defende ou não a perda de maioria do capital da SAD?

M. Pedro Gomes: Eu acho que o Sporting tem de manter a maioria. O Sporting tem de estar na mão dos sócios. Não sou contra a entrada de investidores, mas investidores que comprem a maioria não. Isso sou contra.

Palavras ao Poste: Se pudesse, utopicamente, escolher um presidente ideal da história do Sporting, quem seria o eleito?

M. Pedro Gomes: Tinha de ir desenterrar o João Rocha, que infelizmente já faleceu.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso [entrevista]

SONY DSCBruno Gomes [texto e entrevista]

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2 thoughts on “Pedro Gomes, antiga glória leonina: a entrevista

  1. Adorei ler o artigo e a entrevista.
    Pedro Gomes é um sábio mesmo. 71 anos como os meus 67 anos são de gente dita da “Terceira Idade”, infelizmente. A juventude ouve-nos/lê-nos mas…

    Sobre o nosso novo líder – Bruno de Carvalho – só sei/penso/desejo tudo do bom e do melho pois o seu sucesso é o regresso do no0sso Leão aos bons velhos tempos.

    Vou linkar este blog no Leoa

    Rugidos verdes de esperança

  2. Parabens pela entrevista.

    Só é pena que com tantos recursos humanos dentro do universo leonino, se ande muitas vezes a fazer experiências com outros que pouco dizem ao clube e provas dadas é mentira.

    SL

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