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Desenho mostrando tribo da Melanésia adorando um avião.

Os indígenas da Melanésia, na Oceânia, maravilhavam-se ao ver os aviões cruzar os céus. Eles não sabiam o que eram as curiosas criaturas, mas não deixavam de notar que as aves brancas só desciam e paravam junto dos homens brancos, que cá em baixo pareciam ter uns pássaros parecidos pousados e um espaço que os atraía à terra. Lançaram-se, então, os Melanésios, a construir um duplo de avião, com paus e lianas e o mais que tinham à disposição, e prepararam um campo ao redor do qual acendiam tochas durante a noite. Vigiaram esse campo durante muito tempo. Mas os aviões não foram ter com eles. A sua conclusão foi pronta: alguma coisa não tinham feito suficientemente bem. Quem nos relata este episódio é Jean Baudrillard, no seu livro A Sociedade de Consumo.

É próprio de quem desconhece o funcionamento das coisas mas está convencido do seus processos pensar que alguma coisa não foi feita em condições, assim como acontece entre os Melanésios e a engenharia aeronáutica. Porque as coisas devem forçosamente resultar e ter uma explicação, uma lei; é assim o pensar humano. É por isso que o religioso fervoroso encontra sempre forma de justificar mais um ritual, mais um sacrifício, ou de aceitar sempre que pecou em demasia, mesmo que não se lembre, e que o castigo, em forma de coincidência ou azar inimputável, é muito merecido: não me portei suficientemente bem, não adorei tanto quanto devia, não sacrifiquei tanto quanto necessário. É também por isso que o viciado começa com a dose mínima, aquela que é só uma e não faz mal a ninguém, e depressa passe aos múltiplos, das gramas aos quilos, das dezenas às centenas, por qualquer forma que encontre. Como o banqueiro. Como o político.

É assim que os bancos começam por aceitar um depósito, depois vendem um crédito, um seguro, um segundo crédito – se os ventos dos trópicos estiverem de feição –, mais uma percentagenzinha simpática para aqueloutro depósito, um cartãozinho, dois cartõezinhos, só para qualquer coisa, nem precisa de usar se não quiser, e mais e mais e mais, numa progressão sem dono que, inevitavelmente, termina na regressão sem fim: devolva o cartão, entregue a casa, o seguro é agora de risco e, naturalmente, mais caro, que o senhor acumula muita constipação e ofega em demasia, e como nos ensinou agora Chipre – a quem no mesmo passo de magia em que se roubaram os depósitos se retirou também o artigo definido –: Aguente aí com o depósito, que, lá por ser seu, não se lhe permitem liberdades dessas! Para o bem e para o mal, casaram-nos a todos com os bancos, num daqueles casamentos feudais em que nos prometeram, qual donzela sem voto, a mão a um senhor muito rico por interesses políticos e geoestratégicos. Faz-se o casório com pompa e sem pre-nup: «O que é meu é meu, o que é teu é nosso», declarou o marido e a noiva assinou de cruz; não se lhe deu sequer outra hipótese.

O político age essencialmente da mesma maneira. Sobretudo o político português em Avé Maria perante a troika. Sobe-se o IVA e cortam-se feriados. Mas não resulta. Sobe-se então o IRS e reduzem-se os escalões para o tornar a subir fingindo que não. Mas ainda não chega. Cortam-se então os salários. Ah… Mas ainda não dá, ainda não foi desta. Retiram-se os subsídios de férias e de Natal. Mas permanecemos aquém. Cortamos pensões, cortamos na saúde, cortamos na educação. Mas nada disso é suficiente, nada dá frutos, e continuamos a toada – e a tourada, já agora, sem saber decidir se somos touros ou forcados. Mas por muito que façamos, continuamos essencialmente Melanésios, com os aviões ainda e sempre a voar-nos sobre a cabeça, e nós continuando a crer que algo não foi feito suficientemente bem e que é preciso um pouco mais. Ir além da troika – essa é a essência do bom aluno, dizem-nos.

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Publicidade ao Centro Comercial Colombo, Lisboa.

E que solução se apresenta ao indivíduo? Nenhuma, um acintoso nada, como à noiva do casamento arranjado. Já nada é possível fazer para sair desse mundo-narrativa feito habitáculo estanque, mundo espectacular em disfemia dos debates televisivos, teatro de vertigem. A política contaminou a televisão, espreguiçou-se e ocupou-a por completo. Quem ocupa o Parlamento é quem ocupa a Televisão. Os dois campos coincidem agora, solúveis um no outro, não mais passíveis de diferenciação. E neste mundo-bolha tudo é abstracção, tudo tende para o zero. Mundo onde nada tem já a substância que devia, onde não há contradição nem vida, só criogenização e amontoamento, amálgama cuja forma não se pretende que destrincemos. O debate não se dirige ao esclarecimento tanto quanto se dirige a entrar em casa de cada um, mesmo daqueles que acham que os políticos são todos iguais e que não vale a pena ver o canal da Assembleia da República. Esse é erro: o canal da Assembleia são todos os canais; a política contamina tudo, epidémica. Como Baudrillard dizia dos nossos centros comerciais, trata-se aqui de mera e «eterna substituição de elementos homogéneos», «eterna combinatória de “ambiência”, em Primavera perpétua.» Ilusão de estabilidade. Aparência de amenidade. Espaço de relaxamento e apregoada calmaria. O conforto máximo, a segurança. Contaminação que elimina a escolha, que torna impossível todo o extremo e toda a acção, e todo o sonho por igual, toda a metáfora e efectiva criação; onde nada agride, onde nada ofende, mas tudo finge que se faz valer. Palavras vãs, de bocas anestesiadas para ouvidos inertes, enchendo o peito para se darem ares de temor.

A opinião nas televisões suporta esses pálidos simulacros de livre opinião, falsa liberdade de expressão e espantalho tolo e anestesiado no lugar da contradição e da acção; os ânimos pelos seus sucedâneos vazios, a articulação passando por discórdia, o sentido diluído nas formas feitas, de assimilação demasiado fácil para que os inanimados espectadores possam compreender – não compreender, mas assimilar – de que lado jogam uns e outros, forma melhor de esconder que já não há lados nem ninguém que os preencha; por eles retendo mínimas unidades de sentido, frases orelhudas e refrões cantáveis de fácil reprodução. Em política e na televisão, é quando tudo se torna demasiado claro que é preciso desconfiar e perceber que a luz que nos vendem é afinal escuridão.

É preciso dizer claramente porquê: porque o debate que vemos é mentira. Porque cá fora, longe das luzes hipnóticas e ficcionais do estúdio, fora da maquilhagem e da base na cara, fora do ar-condicionado e dos casacos sem costas, das gravatas na gaveta e dos pins pindéricos junto ao peito, quer dizer, fora desse centro comercial virtual onde a verdade se afirma em preços de saldo – talvez mesmo gratuita, pelo que é preciso dela desconfiar – e onde o consumo se faz quase em emissão contínua, a Primavera chegou chuvosa e temerosa, bem longe do prometido.

Tribo da Melanésia com réplica de avião.

E nós permanecemos Melanésios, esperando que os nossos políticos e comentadores – são essencialmente os mesmos –, de toscos paus e grossas lianas feitos, acabem por, à força das suas teatrais e vazias disputas e das suas contendas meramente rituais, atrair o debate sério sobre verdadeiros problemas, com argumentos racionais, com atenção à vida fora das vidraças embaciadas dos gabinetes e das vidraças foscas do excel, e sem subterfúgios de gladiador ou retórica de arena. Como os lutadores na Roma Antiga, a amizade fora do ecrã está hoje conluiada com a necessidade de fingir o antagonismo visceral em campo.

E, por isso, como Melanésios, vamos permanecendo em frente à televisão, como que esperando que de súbito o debate se torne sério e esclarecedor, purgando de vícios e evasivas os seus intervenientes. Como se um desses enormes pássaros brancos pudesse a qualquer momento aterrar aqui, e as fachadas finalmente ruíssem para deixar a nu a possibilidade do diálogo verdadeiro, sem personagens, com homens sem defesa e sem ataque, comprometidos apenas com a responsabilidade do bem-comum, conscientes da comunidade a que pertencem, face a face.

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Hugo Picado de Almeida

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