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De loucos é o mundo do futebol. Num qualquer estádio ou diante do ecrã de uma simples televisão, por toda a parte milhões de fanáticos vibram, gritam, sofrem, festejam, choram, aplaudem e vivem por aquele que é o desporto rei do nosso planeta. E como qualquer rei que se preze, este futebol também tem que ser gastador: temos Ronaldos que trocam de clube por 96 milhões de euros, Messis com cláusulas de rescisão de 1000 milhões, Drogbas trintões que se mudam para clubes chineses em troca de uma dúzia de milhões por época, campeonatos mundiais realizados em países africanos ou asiáticos onde se sepultam centenas de milhões na construção de recintos desportivos megalómanos cuja utilização se resume àquele curto mês de duração do torneio. Curioso é saber que no meio de tanta riqueza e ostentação, no núcleo de um despesismo tresloucado e sem fim à vista, o Presidente da Uefa Michel Platini veio esta semana a público afirmar que investir 54 milhões de euros por cada 5 anos na implementação da tecnologia da linha de golo em provas da Uefa seria excessivamente “caro”, até porque as equipas de 5 árbitros “não têm cometido erros”. Surpreendido? Provavelmente não.

Perante a veemente necessidade de fintar tamanha loucura, o melhor é irmos por partes. Comecemos então por um exemplo bem português. Para o Euro 2004 foram construídos de raiz 7 estádios de futebol e remodelados outros três, numa factura que ascendeu, fazendo fé nas estatísticas oficiais, aos 665 milhões de euros, divididos por um total de 337.000 lugares sentados apenas nestes 10 recintos desportivos. Olhando para os números da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, a Liga Zon Sagres da presente temporada regista até ao momento uma assistência média de 9144 espectadores por jogo, valor que é obviamente superado pelos três grandes mas que consegue ser ainda mais diminuto em clubes com grandes estádios como o Beira-Mar e a Académica, para além do absurdo registado nas famosas situações dos estádios do Algarve e de Leiria que estão hoje entregues ao abandono. Perante tudo isto, alguns falam do retorno financeiro que todas estas construções trouxeram ao país, e eu peço-lhes então que me demonstrem onde é que ele se encontra; é que se estas contrapartidas positivas realmente existem ou existiram na proporção pretendida, nunca ninguém as viu.

Mas como se ainda não bastasse, ao passarmos do plano financeiro para o desportivo o absurdo tende a manter-se. Poucos serão os que não se lembram daquele mítico Benfica vs Porto da época 2004/2005 em que Vítor Baía defende o remate de Petit quase um metro dentro da baliza sem que o respectivo golo tenha sido assinalado, ou de lance semelhante decorrido num Sporting vs Leiria em que o guarda-redes Ricardo dá uma palmada no esférico já depois de este ter ultrapassado a linha de baliza, enquanto o bandeirinha coçava o olho esquerdo com indiferença. Num passado mais recente situações idênticas aconteceram em importantes provas internacionais, como são exemplos o golo anulado à Ucrânia no encontro frente à Inglaterra neste último Euro 2012 ou o irrepreensível remate de Frank Lampard nos oitavos-de-final do Mundial 2010 diante da sempre poderosa Alemanha, casos em que a excepção não confirmou a regra e a bola dentro da baliza não contou como sendo golo. E tal como os árbitros, também o senhor Platini viu com olhos tortos todos estes lances e deixou o jogo seguir.

O Presidente da FIFA tem sido das ainda poucas vozes influentes que se opõem firmemente a este teimosa tendência. Joseph Blatter anunciou que a tecnologia da linha de golo será testada na Taça das Confederações deste ano, sendo que a sua utilização no Mundial 2014 a realizar no Brasil está também praticamente garantida. Mas Platini parece não ceder e insiste que as coisas devem continuar como estão tanto na Liga dos Campeões como na Liga Europa, mesmo que aqueles dois fiscais de baliza, apetrechados com um mini-cacetete que ninguém percebe para que serve, não passem de uns placebos que nem são dotados da coragem suficiente para contrariar a decisão do árbitro principal e assinalar o penalti claro que aconteceu mesmo diante dos seus olhos. E tal como as grandes penalidades, o mesmo acontecerá com a bola que ultrapassa a linha de golo sem que o respectivo tento seja assinalado; tudo isto porque também estes novos fiscais são humanos e os humanos erram e, ainda mais importante que isso, são permeáveis a influências externas e à corrupção. Já alguém disse que todos nós temos um preço, e é exactamente esta a premissa que sustenta as decisões de Michel Platini. O Presidente da Uefa quer continuar a ter a faca e o queijo na mão, quer continuar a usufruir do poder deturpar a seu bel-prazer resultados de grandes jogos internacionais, e depois acontecem tristes episódios como aquela inesquecível meia-final da Liga dos Campeões de 2009 em que o Barcelona eliminou o Chelsea numa partida em que só faltou mesmo o árbitro, qual jogar de râguebi, pegar na bola com as duas mãos e colocá-la dentro da baliza da equipa londrina. E assim a polémica instala-se e os meios de comunicação social gostam, enquanto o nome do desporto se conspurca um pouco mais na lama.

Encaremos então o problema com frontalidade e percebamos que num rei futebol engradecido e despesista como o actual os 54 milhões de euros investidos numa questão tão fundamental como esta não passariam de uns trocos. A essência do futebol jamais se encontrará nos erros escandalosos dos árbitros; a paixão dos adeptos cresce é com a finta espectacular, o remate na gaveta ou a defesa impossível, e quem realmente gosta de desporto tem que o querer transparente e sempre baseado na justiça e no mérito dos seus principais intervenientes, os jogadores. Tal como aconteceu no ténis e com os resultados muito positivos que são conhecidos, também o futebol necessita com urgência de ceder às potencialidades dos avanços tecnológicos de forma a usufruir de todas as benesses que estes lhe possam trazer. A implementação generalizada da tecnologia da linha de golo em competições nacionais e internacionais de clubes ou selecções será um primeiro e decisivo passo para a efectivação da verdade desportiva numa modalidade que pela sua globalidade deve apostar em se constituir como um exemplo a nível ético para toda a sociedade.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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2 thoughts on “54 milhões são trocos

  1. Diogo Taborda,

    Grande artigo com carradas, paletes de razão. Eis a razão porque os Germânicos acham que nós devemos pagar a crise do novo-riquismo e pretensão a país rico que nós mostrámos ao pretender realizar o Euro 2004. Quem tem vícios paga-os.

    Há, por outro lado, uma tendência obsessiva dos poderes do futebol em não querer aderir às novas tecnologias já que, assim como estão, poderão sempre manipular os resultados com as ajudas dos chamados “erros humanos”.

    É este o mundo em que vivemos, cada vez mais corrupto.

    Páscoa Feliz

  2. Esta situação é completamente ridícula e revoltante. Não consigo entender a necessidade de criar esta estúpida tecnologia de golo. quando apenas, é necessário que alguém (o 4º, ou 5º arbitro por exemplo), através de uma repetição televisiva do lance, o que é praticamente instantâneo, reporte ao arbitro a decisão a tomar.

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