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Quando Darwin se debruçou sobre a evolução das espécies e a sua forma de selecção natural, mediante um ambiente que lhes era mais ou menos favorável, estaria longe de imaginar que as suas reflexões cruzariam as minhas e que eu tomaria o sacrilégio de pensar no seu estudo, enquanto analiso o panorama actual de treinadores portugueses. A vantagem de uma boa teoria reside, para mim, na sua capacidade de extensão às áreas de interesse de cada um, desde que esta seja aplicada de forma coerente ou abrilhantada por algum sentido de humor. E, assim, passo a apropriar-me, descaradamente, de pensamentos darwinistas, reconhecendo que num lote de bons jogadores de futebol, uns são capazes de se adaptar melhor ao ambiente deste desporto e de adaptar, oportunamente, as suas carreiras desportivas. Esses jogadores adaptados, tornam-se, mais tarde, treinadores.

Existe uma espécie anterior de jogadores de futebol, que, embora tenha atingido picos de performance ou de sucesso, depois de terminada a carreira em campo, era remetida para o lugar do passado, aquele lugar distante, de onde apenas dos mais fortes reza a História. Maioria deles porque o desporto futebol ainda não tinha atingido a sua máxima profissionalização, ou porque não estavam adaptados à mecânica da profissão. E, por isso, arrumaram as chuteiras e recolheram-se para as mais variadas profissões. Não sobreviveram. Os tempos eram, de facto, outros, e ser jogador de futebol era coisa do presente, sem benefícios póstumos. Privilegiados seriam os que continuariam a aplicar conhecimentos fora das quatro linhas, como comentadores, dirigentes ou, mesmo, treinadores.

Contudo, como Darwin nos tentava explicar, quando uma espécie está adaptada a um meio que lhe é favorável, está aberto o caminho da multiplicação. Não se trata do milagre da multiplicação divina (que a religião pouco dita na crença do futebol), mas da multiplicação de indivíduos, que encontram um espaço em que podem sobreviver. E esta multiplicação é actualmente óbvia, e em nada resistente, no número de anteriores jogadores de futebol que decidiram prosseguir com as suas carreiras junto ao banco de suplentes. Não porque não tinham lugar num onze charmoso, mas porque decidiram usar os seus conhecimentos para adquirir esse título tão consagrado de Mister, a espécie mais misteriosa do reino futebolístico.

Mas, da mesma forma que um bom aluno não será, necessariamente, um bom professor, que um aprendiz poderá nunca alcançar a destreza de um mestre ou que um discípulo poderá nunca ser sábio, um bom jogador de futebol poderá nunca vir a ser um bom treinador. Com a vantagem empírica de ter suado em campo, de ter recebido diferentes ordens tácticas e de se ter confrontado com diferentes tipos de equipas, poderá acontecer que o salto para uma carreira de técnico não ocorra com o sucesso e os resultados expectáveis. Quanto a mim, e mesmo que o panorama futebolístico me demonstre excelentes jogadores que alcançaram duplamente o mérito, quando se tornaram treinadores (a veia «barcelonista» lembra-me de Rijkaard e Guardiola), faço um olhar desconfiado a esta nova geração de técnicos, vindos da escola da Federação Portuguesa de Futebol.

Sá Pinto, Sérgio Conceição, Paulo Alves, Pedro Emanuel, Jorge Costa, Domingos Paciência, Costinha, Paulo Bento, Rui Jorge e Oceano. Embora esta lista possa parecer um retalho de uma antiga convocatória nacional, é, na verdade, a imagem da actual corrente de treinadores portugueses, dos quais ainda recordamos a imagem de jogadores em campo, de quinas ao peito e a figurar numa caderneta de cromos, que eu coleccionava com afinco. São antigos “craques” que, merecida ou exageradamente, construíram uma carreira sólida e conquistaram o lugar de referência no futebol português, perdurando na memória colectiva do adepto nacional. O desafio que se lhes coloca, agora, é o de apagar a imagem de um passado em que eram orientados e de construir uma sólida imagem de alguém que é capaz de orientar os seus pares.

A fórmula não é nova e a sobrevivência da espécie também não. Jesualdo Ferreira, Toni, Chalana, Octávio Machado, Jaime Pacheco, António Oliveira, Humberto Coelho ou Fernando Santos são alguns dos exemplares que vieram comprovar que a espécie futebolista começava a adaptar-se aos balneários do futebol e tendia a vingar e a aumentar. Só que, como nos salvaguarda a obra darwinista, o ambiente também tem o seu limite e a sua capacidade tende a esgotar. Aguardo, no entanto, e com especial entusiamo, que Cristiano Ronaldo termine a sua carreira como jogador. Não porque não o desejo ver mais em campo, de peito inchado e pernas possantes. Mas porque tenciono assistir à sua decisão de se tornar num Mister, que usa “Linic” e pochete, que detém a mesma incompetência arrogante de Vítor Pereira, o dom da palavra de Jorge Jesus ou Manuel Machado e a filosofia “mourinhista”, baseada na premissa “Eu sou o melhor”.

O sistema de Mourinho enganou muitos, no que diz respeito à evolução da espécie treinador, em Portugal. E, aqui, me incluo. Quando o técnico começou a coleccionar títulos e a mostrar que a sua arrogância selectiva funcionava na prática, depressa surgiu um par, ou dois, de técnicos que lhe pareciam seguir as pisadas. André Villas-Boas, o seu discípulo, tenta ainda hoje, mostrar que tudo o que aprendeu com Mourinho poderá representar a chave do sucesso. Mas, julguei que, como André, iriam surgir mãos cheias de novos técnicos teóricos. Que não se notabilizaram por jogar futebol, mas por estuda-lo. Porque teorizaram o jogo, passaram a conhece-lo e a desconstruí-lo, sendo capazes de pôr uma equipa a jogar em campo, como se de um laboratório se tratasse e a ciência se chamasse Futebol.

Mas, em Portugal, a ciência de nada vale, quando comparada com a experiência resultante de dois gémeos desenvolvidos pelo cansaço de uma carreira, das colecções de lesões que se vencem, das substituições que nunca são justas ou do árbitro que nunca juíza correctamente. Porque o jogador sente tudo isso em campo, durante décadas. Sente o auge e o desgaste, a vitória e a derrota, a sorte a sorrir-lhe ou o azar a negar-lhe o golo, a rejeição de treinadores e clubes ou o seu interesse, o carinho ou o sarcasmo dos adeptos. E, vivendo tudo isso na primeira pessoa, poderá ter um papel privilegiado na orientação dos seus pupilos. Porém, orientar também é um dom. Não acredito que todos nomes, que aumentam a lista de antigos atletas e novos professores, possuam o dom de orientar e de, mais importante ainda, obter resultados. Aqui, Darwin parece estar contra mim. Não é feita uma imediata selecção natural. A selecção é outra, é artificial e viciada, e mostra como os interesses clubísticos ou o charme de antigas glorias, conseguem penetrar num ambiente que pode não lhes ser favorável. Porque trocar calções e camisola por um fato de marca, em nada os investe da figura de treinadores.

Faltam-me resultados. A mim e ao Sporting, que insistiu, de forma dupla e consecutiva, em Sá Pinto e Oceano. A mim, ao Sporting e ao Corunha, que apostaram, antes, na firmeza vã de Domingos. A mim, ao Sporting e a todos os portugueses, que acreditaram, ou acreditam, no risco ao meio de Paulo Bento. A mim e ao Olhanense, pelo abandono de Sérgio Conceição. A mim e à Académica de Pedro Emanuel, pelos apenas 21 pontos no campeonato, quando faltam completar sete jornadas. A mim e a Barcelos, pela linha de água em que o Gil Vicente se encontra, comandado por Paulo Alves. A mim e a Aveiro, pela falha do salvador Costinha. Faltam-me resultados.

E, sem resultados, espera-se que a selecção natural seja executada. Porque nem todos merecem a braçadeira. Nem todos possuem os requisitos necessários para comandar uma equipa. Vou mais longe, quando afirmo que muitos são uma Fraude. E, por capricho próprio ou daqueles que os representam, poderão estar a prejudicar equipas, pela falta de competências. É urgente que os mais fortes se especializem, se adaptem ao novo papel, e que os caprichosos se remetam, rapidamente, para o seu lugar, o de antigas glórias. A acreditar em Darwin, isso acabará por acontecer, pois só os que conseguem melhores capacidades de adaptação (e não acredito que o campeonato português seja o melhor meio para as desenvolver), estarão destinados a sobreviver.

Mara desenhoMara Guerra 

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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