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Limpe o sangue à camisa, resfolegue e tome nota da dor. Enquanto o oxigénio se faz respirar pelas veias, o eco palpitante da dor retumba em cada compartimento do seu corpo. Cuspa os dentes, engula a secura, cambaleie em linha trejeita. A dor é o analgésico mais vegetante de todas as rupturas transmissoras. A dor ela mesma, urdida e pungente, que nos alheia do resto – do resto sobrado de todas as outras dores. E por entre ganchos de esquerda e socos de obliteração, Tyler Durden sabe disso. A sua própria existência depende do fosso oblívio dessa constatação – a frustração crónica. O desejo pré-fabricado, o vazio consentimento, a vida remota e genérica do rebanho. A eternidade da angústia é latente e vizinha. E como em tudo o que se cala e consente, tudo floresce dissidente, como Durden e o seu sussurro existencial. «Slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don’t need. We’re the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our great war is a spiritual war. Our great depression is our lives». A conclusão esmurra-nos forte no estômago, os pulmões encolhem, as têmporas tilintam. O tapete existencial é-nos puxado, e todas as letras vãs de slogans e mensagens de ordem, de manipulações publicitárias, de ostentação consumista compulsiva, vão com ele, perdidas na descrença que se conhece por fim. Resta o indivíduo, endividado, segmentado no perfil do Marketing, reduzido ao catálogo dos seus gostos inócuos, compartimentado na secção dos amorfos, em descrédito para com o crédito que lhe extorque a vida e lhe consome a alma. Somos o produto autómato da engenharia do sonho.

Do sonho induzido, daquele sono maquinal que o espectro comunicacional faz questão de inculcar em nós. É pela formatação da vontade que se manieta uma pessoa, porque o desejo inclina e faz transbordar: controla o que uma pessoa quer e controlá-la-ás no seu modo de ser, agir e pensar. Assim tem sido, fatídica e tragicamente. A modernidade viu, empiricamente, o triunfo claro da manipulação sugestível sobre a força. Ambas são formas de coerção, mas a primeira reina: é o modo pacífico de se ser tirano – dói menos e aniquila melhor. Durden sabe disso, e por entre joelhadas e espirros coagulados, vai preferindo a dor redentora à dor opressiva e tentacular do discurso mediático, que se estende e se uniformiza aos domínios da política, da cultura, da arte, da economia e da sociologia barata. A viscosidade normativa que pauta a nossa vida assenta no pilar fundamental do soundbite elevado à categoria de elemento unificador e ampliativo – a moral consumista inunda o imaginário e tece a teia implacável da motivação, desde as ideologias políticas a seguir até aos hábitos culturais que adquirimos ou ao modo como percepcionamos a informação e o relato do evento. Somos parciais em causa própria, fiéis militantes renegados de ideias vendidas que não nos traduzem: «Beba um todos os dias, sentir-se-á melhor», dizem eles. «Compre já!», ordenam eles, confiantes na autoridade que possuem sobre um rebanho atípico de consumidores activos da passividade mediática, que joga a vida por eles próprios enquanto o sofá e o poder alienante da TV fazem o resto. O estímulo híper-sensibilizado da reacção é um reflexo pavloviano que faz babar o consumidor quando este é confrontado com a adulação corporativa do grande capital, a bajulação carnavalesca das marcas, a aceitação cega da informação veiculada, a interiorização do vazio gritante de quem faz fé noutro tipo de religião: a compulsividade doentia do consumo. Tal como os restantes fanatismos, o salto de fé não tem chão nem tem pé – a alma estatela-se no labirinto da angústia. Assim se condena alguém ao sonho. E o sonho requer uma vida completa para ser ansiado. O sonho demora uma noite inteira a que chamamos existência.

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Tyler Durden prefere a zaragata. Que a realidade que ele chama até si lhe parta a cara e não lhe minta nela pela descarada. A dor física bloqueia a metafísica. O pensamento atordoado é o anti-depressivo ideal para quem se vai enganando no caminho rumo à felicidade, esse conceito estático que nos espera no final do arco-íris – «We’ve all been raised on television to believe that one day we’d all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won’t. And we’re slowly learning that fact. And we’re very, very pissed off». A felicidade é uma prostituta intelectual que nos é vendida a troco da fixação permanente própria de um toxicodependente. Porque não existe como a pintam. A mercantilização do sonho fez-nos acreditar que há um paraíso existencial em série, montado numa paisagem pré-fabricada, à nossa espera. E o modo de lá chegar é levar o estilo de vida que a comunicação social nos impinge pela coerção do desejo e pela exaltação dos exemplos heróicos que postulam na nossa sociedade desdentada de ideias e de vitalidade intelectual. A imprensa sussurra-nos ao ouvido a realidade formatada, viciada, pronta a ser digerida através de palavras amigáveis, dóceis e condescendentes. O seu poder manipulativo advém da fusão inevitável entre o corporativismo titânico, a postiça democracia de massas e a necessidade de controlar o que pensamos, o que comemos, o que sonhamos, o que queremos. Pelo meio, tendo uma função mediática de sapa, temos o domínio do Marketing e da Publicidade, que nos lava o cérebro com a lixívia da solução. A solução são eles: as marcas, as opções, os vídeos publicitários, as cores vibrantes, os sorrisos joviais e os corpos esbeltos, o sexo implícito na mensagem, o glamour novo-rico da ostentação, a inveja espicaçada, a inferioridade tumescente, o nosso grito pelas palavras de ordem deles – até as revoluções são compradas. «Sê como és», ou «não deixes que te digam como viver a tua vida», ou ainda «liberta-te!», aconselham eles. Porque eles sabem, melhor até que nós mesmos, quem raio somos nós. E nós somos todos ouvidos – «We are consumers. We’re the bi-products of a lifestyle obsession», confirma Durden. Porque enquanto se esmurra e se é esmurrado, tudo fica mais claro.

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A comunicação social é o clorofórmio dos incautos. De todos. Produz, com o seu discurso selectivo e parcial, um sentimento de pacificação mastigada que ocupa a mente vazia do consumidor impreparado. Tal como um «pacifier» (chucha) que se dá às crianças para pararem de chorar, a imprensa dá-nos aquilo que o desejo de passividade quer ouvir. A sua espectacularização progressiva só reflecte a perda do jornalismo de investigação para o jornalismo sensacionalista de quinta categoria, que desinforma e baralha para voltar a dar, à sua maneira: estamos perante armas de distracção maciça. De fomento do défice cognitivo a que estamos sujeitos. Da desordem de atenção, do lixo editorial que fartazana a barriga do espectador democrático e gorduroso. Estamos flácidos por entre tanto músculo. Merecíamos um soco no queixo e uma derrocada joelhos abaixo, com um beijo no chão para finalizar. Porque somos enganados na cantiga – e só porque o que se diz é cantado não significa que seja positivo. Os optimistas são os verdadeiros terroristas da inteligência. São eles que constroem a moralização da derrota com a visão positiva do mal, encontrando sempre algo de risonho na humilhação e dando em troca nada: «Ao menos temos isto. Ou aquilo. Vê pelo lado positivo isto ou aqueloutro. Pensa assim, há-de se resolver…». Toda esta arquitectura mental traduz a mesquinhice intelectual que ganha vida a partir da preguiça da eventualidade. É assim que a democracia nos fugiu. Que os direitos adquiridos vão sumindo. É assim que o ministério da mente toma controlo, pela adjudicação ao desbarato, pelo controlo alheio daquilo que deveria ser tão só e tão nosso. Tão único. A falta de independência crítica e de autonomia pensante impede o poder colectivo da acção criteriosa. Estamos segregados pela filosofia separatista dos meios comunicacionais, como diz Chomsky: «People have to be atomized and segregated and alone. They’re not supposed to organize, because then they might be something beyond spectators of action. They might actually be participants if many people with limited resources could get together to enter the political arena. That’s really threatening». Somos apenas espectadores emburrecidos do mundo. Pelo mundo que optamos comprar. A distracção e distorção dos Média esconde outro mundo lá fora: assim como escondeu as falsas premissas sobre o real motivo pelo qual a guerra no Iraque se sucedeu. Assim como escondeu o esquema fraudulento que a Grécia levou a cabo, no início do milénio, pela mão dos grandes bancos internacionais e com o conhecimento do Eurostat, e que hoje vai resultando na falência total e decadente do país. Assim como escondeu as subtis manipulações da Primavera Árabe ou o caso islandês de recuperação económica e de responsabilização criminal dos políticos e banqueiros que jogaram o destino do país na bancarrota. Assim como escondeu a revolta estudantil no quente Fevereiro em Itália e assim como esconde constantemente graves atropelos à sociedade civil, reportando à censura educada dos seus interesses corporativos. Aqui e no mundo inteiro.

O carrossel da porrada continua, os sobrolhos incham e a visão dissipa-se no escuro de uma cegueira dormente e coalhada. Escorremos de dor e de ignorância. Cuspimos o que temos dentro, inspiramos o resto de tudo, e ficamo-nos a sobrar. De certo modo, uma voz trémula e críptica diz-nos que não somos quem deveríamos ter sido. Tyler Durden tem razão, mas como toda a armadilha que se preze, também ele representa o engano. A consciência vendida reconhece a sua frustração e fala do alto da sua invisibilidade, mas assume a forma do sonho a crédito. Durden é a reacção que não existe. A acção que ficou por personalizar. A busca de um narrador que o leve com ele e aja. Entretanto a dor vai mitigando a angústia. Não há nada como nos deitarmos numa cama depois de uma sova. Aceitemos, não somos melhores que isso: «You’re not your job. You’re not how much money you have in the bank. You’re not the car you drive. You’re not the contents of your wallet. You’re the all-singing, all-dancing crap of the world». Pressione play e diga ámen.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso 

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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