Home

Hoje vamos todos falar de revistas. Sim, isso mesmo, de revistas. Não daquelas que se lêem e que vêm cheias de letras e fotografias, nada disso. Vamos falar da Rrrrr’evista, a verdadeira, a “original”, a portuguesa, pronunciada com o “r” bem carregadinho que é para acentuar ainda mais o sotaque luso da coisa.

Lisboa tem o Teatro Nacional D.Maria II, tem o São Luiz, tem o Cinema São Jorge, tem o Museu Calouste Gulbenkien, tem o CCB…e depois tem o Parque Mayer e o Teatro Maria Vitória. Uma sala de espectáculos majestosa  onde tudo acontece.

Ali naquele cantinho, junto à Avenida da Liberdade, moram alguns dos mais afamados artistas e actores do teatro de revista que se faz em Portugal. Num dia destes enquanto me passeava por aquela calçada dei de caras com um deles – e jurei para nunca mais. Assustei-me de tal maneira que prometi para mim mesmo nunca mais passar por ali. Segui apressado e desci a avenida até aos restauradores, assustado, até entrar na estação do Rossio e suspirar de alívio já no interior da carruagem amontoada de gente e odores de toda a espécie. O momento de descompressão, ainda que comprimido pelos braços, pernas e cotovelos dos restantes passageiros, durou apenas alguns segundos. Segundos esses que foram interrompidos por uma autêntica visão dos infernos: um cartaz, gigante, repleto de criaturas maquiavélicas e assombrosas ancoradas por um título ainda mais assustador: “Vai de em@il a pior – Uma espectacular e moderna revista”.

1280830482305_f Tive medo daquele título, tive medo daquela assinatura e da utilização da palavra “moderna”,  tive medo daquelas pessoas e do actor Paulo Vasco, ali ainda mais alucinado do que ao vivo, minutos antes na Avenida da Liberdade. E fiquei sobretudo perturbado com esta frase em destaque, a chamar para si todas as atenções: “O regresso esperado da grande diva, Florbela Queiroz”.

Nunca cheguei a comprar bilhete para ver a peça. Também nunca cheguei a convidar ninguém para ir comigo e tão pouco teria coragem de ir sozinho, face ao medo que “se me irrompeu” depois de ver aquele cartaz. Ok ok, confesso, estou já a incorporar o personagem… Nunca se sabe o dia de amanhã, e ser actor de revista, nos tempos  que correm, pode calhar a qualquer um. Afinal até a mais recente estrela portuguesa de Hollywood, que há uns dias andou a ser crucificado nos ecrâs nacionais, já se teve de sujeitar a estas andanças. E com muito orgulho, deverá pensar de certeza o Diogo Morgado.

Se amanhã, sábado 6 de Abril de 2013, eu tivesse de subir ao palco do Maria Vitória, teria, antes de mais, de ter um aspecto esgrouviado.  Essa talvez fosse a parte mais fácil. O pior mesmo seria ter de subir dez vezes acima o meu tom de voz e falar como se fosse uma peixeira do Mercado da Ribeira. Mas depois de me enturmar com os colegas revisteiros de certeza que lá acabaria por apanhar o jeito. Fosse como fosse tinha mesmo de o apanhar, já que não há actor de revista à portuguesa que não fale aos berros.

Imbuído do espírito popular e brejeiro deste género tão português, quem sabe não conseguiria progredir na carreira e um dia escrever uma revista só minha. Talvez nem fosse assim tão difícil, até porque as revistas à portuguesa são caracterizadas por não terem história. A fórmula seria simples: inventar meia dúzia de sketches com referências a outra meia dúzia de episódios e personagens na crista da onda,  e despejá-los para cima do plateau.

No meio dos textos pouco ou nada elaborados enfiar uma gama generosa de piadas e trocadilhos ordinários que fizessem render o peixe, sem esquecer que 80% do guião teria de ter um cariz subliminarmente sexual, activado pelo subconsciente e disfarçado de “sátira social e política”.

Para escolher o elenco teria de ser rigoroso e exigente, indo ao encontro dos protagonistas de algumas das séries e programas de humor mais hilariantes de sempre, como o Bora lá marina, os Malucos do riso ou os impagáveis Batanetes. Dando de barato que existiria sempre, à partida, um forte grau de probabilidade de os escolhidos não serem parecidos com nenhum actor de Beverly Hills, o melhor seria, pelo sim pelo não, fazer um scouting à procura de uma figura sexy e atraente. Ou, ainda que não o fosse, apta a desempenhar esse papel, que é como quem diz, alguém não tão horrivelmente feio como os outros.

1282561823530_fComo as coisas estão o segredo é mesmo não perder tempo e procurar pelas estrelas em final de contrato e lutar pelo sonho inatingível:  assinar com uma qualquer Marina Mota, Vera Mónica ou Paulo Vasco do mundo artístico seria a cereja no topo do bolo. Quem sabe daqui a uns bons aninhos consigo convencer um destes três, já octogenários, a regressarem, quais divas, e assim servirem de chamariz para a minha peça, que nem fizeram com a “aclamada” Florbela Queiroz.

Mas para a minha revista ter sucesso garantido teria de puxar pela cabeça e arranjar um título espectacular que deixasse todo o mundo de boca aberta. Um trocadilho de partir o côco a rir bem ao estilo do “Vai de em@il a pior”. De facto, de há uns anos para cá, e depois de toda a gente falar na decadência deste género teatral nascido no Brasil, os autores  de revistas, refutando as críticas que as classificavam como uma “coisa de velhos”, procuraram desmistificar essa ideia através do recurso a termos e expressões que reforçassem o seu lado moderno e cool. E assim revistas como a “Vai de em@il a pior”, “Hip hop’arque” ou “Arre Potter qu’é demais”  revolucionaram o conceito e provaram a juventude e modernidade das suas peças, indo beber alguns dos valores e símbolos das novas gerações. Estavam dissipadas todas as dúvidas: a Revista é mesmo uma coisa moderna!

1322546780279_f Como eu também sou moderno não teria muitos problemas por aí. Se para além de reforçar o lado inovador e arrojado do texto quisesse ir por outros caminhos, teria sempre muita obra com que me inspirar: “Agarra que é honesto”, “Piratada portuguesa”, “Ora Vira e troika o Passos”, “Bué da tesos” e por aí fora.

155026_169415616410974_100000276092172_460032_1016856_nQuanto à música e coreografias também não seria muito complicado. Duas horas de ensaios com os grupos das Marchas de Lisboa de Alfama ou Marvila eram mais do que suficientes. Aprendido aquele clássico agitar de ombros com as mãos colocadas sobre as ancas, e decoradas as letras dos números musicais que iriam compôr  quase toda a peça, o problema estaria resolvido.  Para o vestuário era arranjar umas quantas plumas e tecidos cintilantes que também estaria quase tudo encaminhado.

O grande desafio estaria na dinâmica das piadas que os meus autores teriam de emprestar à revista. É sabido que o humor é um terreno delicado onde cada passo é determinante na criação de ritmos que embalem o público e o agarrem ao longo daquela hora e meia, mesmo nos momentos de menor fulgor. Olhando para aquelas que daqui a um par de anos serão as minhas bases inspiradoras, dá para perceber como é que a lógica poderia mais ou menos funcionar.

Em “Arre Potter qu’é demais”, que para quem não sabe conta a história de um jovem feiticeiro encarregado da difícil missão de salvar Portugal, a cena de abertura desenrola-se na escola de feiticaria desse mesmo personagem, Potter, o pequeno mago a quem dois típicos “tugas”, vestidos com cachecóis da selecção, pedem ajuda para salvar o país, já que “Portugal não tem remédio e só lá vai com magia”, afirma um deles.

odete_santosSe dúvidas houvesse quanto à dinâmica destas cenas, a representação no segundo quadro de uma princesa espanhola que ridiculariza o nosso país, por parte da ex-deputada do PCP Odete Santos, é a demonstração cabal do ritmo e vivacidade que preenchem estes espectáculos. E, sendo capaz de imprimir esta velocidade e dinâmica, a minha revista teria certamente lugar na “catedral da revista à portuguesa”, o Teatro Maria Vitória.

Se o futuro não me reservar esta surpresa, e não me sujeitar a tamanha agressão psicológica, provavelmente nunca assistirei a nenhuma destas revistas de terror. A não ser que alguém me pague o bilhete e me segure a mão durante toda a peça, com vigor e carinho. Alguém que seja capaz de me fazer perder o medo. Porque quero ser uma pessoa feliz e livrar-me de todo o tipo de traumas, fica desde já lançado o desafio.

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

Anúncios

3 thoughts on “A minha revista

  1. Tenho imeeeeensa vergonha de confessar que eu ADORAVA ver as revistas que transmitiam na RTP África há uns quantos anos em Moçambique, mas em minha defesa acho que se devia à falta de programação interessante ; )

  2. Muito bom! Que me lembre nunca vi nenhuma revista mas, pelo que li, acredito que farias um excelente trabalho a dirigir uma, André!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s