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Fábio Paím regressa hoje à ribalta da nossa televisão, rádio e imprensa. O mediático futebolista reaparece em público não por se transferir para um grande clube europeu, nem por ter feito um golaço de outro mundo, nem mesmo por ter inventado uma nova finta daquelas incríveis que o tornaram famoso, mas sim por ser a cara da campanha publicitária que neste sábado se inicia da Young Lions 2013, competição internacional de criatividade que visa encontrar jovens talentos nos mais diversos ramos da comunicação. Com uma já longa carreira que lhe conferiu o frustrado estatuto de “eterna promessa”, Paím vem agora aconselhar todos os jovens a aproveitarem o seu talento e a não desperdiçarem oportunidades que podem ser únicas. E quem mais indicado para dar tão sábia lição?

Nunca me poderei esquecer das longas tardes passadas em frente ao computador a jogar o tão viciante Championship Manager 2001/2002. A máquina era lenta e bloqueava vezes sem conta, mas a fogosidade da minha já enorme paixão pelo futebol fazia com que a paciência se superasse e eu me mantivesse sereno e excitado em frente àquele ecrã. O meu percurso como treinador começava irremediavelmente no Sporting, clube que naquele princípio de século parecia estar em grande forma mas que quase sempre me despedia ainda antes do final da primeira época. Relegado para uma equipa nacional de pequena dimensão, o hábito passava então por facultar o empréstimo dos mais jovens jogadores da formação de Alvalade, de onde já se destacava pela elevada cotação em atributos como a ‘finta’, a ‘velocidade’ e a ‘criatividade’ um miúdo que apesar da sua tenra idade todos diziam ser de enorme talento: Fábio Paím.

imagesPassados 11 anos desde então, muitas foram as peripécias ocorridas na carreira do jovem natural de Alcoitão e agora com 25 anos o graúdo Fábio já nem nos jogos de computador é craque. O promissor estatuto que lhe era atribuído quando actuava nos juniores do Sporting talvez tenha sido demasiado pesado para um rapaz que ainda não tinha completado os 15 anos de idade. Aquando da sua chegada a Manchester, Cristiano Ronaldo afirmou que “se acham que eu sou bom esperem até ver o Fábio Paím”, mas enquanto jogador leonino o “Romário de Alcoitão” só esteve na Academia até à época 2006/2007, altura em que teve início o seu cálvário de empréstimos sucessivos: Olivais e Moscavide, Trofense, Paços de Ferreira, Chelsea e Real Massamá. Depois desta última cedência ao clube lisboeta e situados no verão de 2010, o Sporting optou por não lhe renovar o contrato e Fábio Paím ficou temporariamente sem clube, reencontrando uma oportunidade uns meses mais tarde no modesto Torreense, do qual se transferiu pouco depois, e pela primeira vez na sua carreira, para o 1º de Agosto. Mas a sua passagem por Angola começou mal desde início e os atritos com o treinador português Carlos Manuel relegaram-no para mais um empréstimo desta feita para o Benfica de Luanda, sendo que  na presente temporada acabou por assinar pelo Clube Futebol Benfica (também conhecido como “Fofó”), onde se mantém até aos dias de hoje já depois do falhanço de uma transferência para o Qatar no último mercado de inverno.

Mas no meio de tanto talento e de tantos clubes o que falhou neste estranho caso de Fábio Paím? Em declarações que foi prestando à imprensa ao longo dos anos, o internacional português pelas selecções jovens foi-se queixando das circunstâncias, da falta de oportunidades no plantel principal do Sporting, da desmotivação que lhe trazia alinhar numas reservas do Chelsea onde não existia um campeonato regular, das ilusões e da falta de lucidez que o dinheiro lhe trouxe. Quem trabalhou com ele insiste em destacar a bipolaridade que sempre o caracterizou: o talento que se via dentro de campo e a vida boémia que o tentava nas ruas. Cedo se viu que estas duas forças estariam em permanente confronto na vida de Fábio Paím e que, mais cedo ou mais tarde, alguma delas acabaria por levar a melhor; triste é hoje constatar que foi a pior das duas a grande vencedora deste conflito.

paimNa essência do declínio de um jogador de futebol que poderia ser um dos melhores do mundo da actualidade está uma poderosa figura do desporto rei. Numa entrevista que tive oportunidade de realizar há dois anos a Paulo Torres, o técnico que deu uma segunda chance a Fábio Paím depois da sua rescisão com o Sporting confidenciou-me que “quando ele chegou ao Torreense estava gordo, desmotivado e sem dinheiro”, algo que seria impossível de prever face à sua “enorme habilidade com a bola nos pés”. Grande conhecedor do percurso do extremo português muito em função da sua própria ligação ao Sporting, Paulo Torres não hesita em afirmar que “o mais prejudicial para Fábio Paím foi terem-lhe dado enormes quantidades de dinheiro e carros para as mãos quando ele ainda nem tinha 18 anos” e que “o que ele tinha precisado na altura era de um empresário que lhe tivesse dado uma mesada suficiente para ele sobreviver e que guardasse o resto do dinheiro pelo menos até ele ser maior de idade, mas não foi isso que aconteceu”. Esse empresário, o tal que lhe ofereceu de prenda um potente BMW quando o rapaz ainda nem o podia conduzir, foi o mesmo que o deixou de representar quando o Sporting decidiu não lhe renovar o contrato profissional, e foi o mesmo que conduziu o Figo e o Ronaldo à eterna glória de melhores do mundo. Mas será Jorge Mendes o único culpado em toda em história? Decididamente, não.

Oferecer um contrato de 300 mil euros anuais a um miúdo de 16 anos pode parecer uma loucura, mas talvez fosse a única forma de o segurar face aos assédios de grandes emblemas internacionais. Castigá-lo pelas suas faltas aos treinos e mau desempenho escolar com uma presença casual no banco de suplentes que logo era invertida quando a equipa se ressentia da sua ausência pode parecer suficiente, mas talvez só lhe transmitisse a ideia de que o seu talento era imprescindível para as vitórias daquela formação de juniores. Não o chamar à equipa principal do Sporting quando ele nem era capaz de impor o seu futebol em clubes de muito menor dimensão parece de todo sensato, mas talvez nessa altura o futuro de Fábio Paím já estivesse traçado.

Inúmeros são os casos de jogadores de enorme talento que passam ao lado de uma grande carreira em virtude de excessos pessoais e de uma deficiente gestão da própria carreira, e Fábio Paím será mais um exemplo. Apesar do peso que tiveram outras personagens e entidades no desenrolar deste caso, o insucesso do “Romário de Alcoitão” verificou-se acima de tudo pela falta do empenho, do trabalho e do profissionalismo tão necessários para se vingar no mundo do futebol, carências que justificaram no passado o seu fracasso em clubes como o Sporting e o Chelsea e que estão a ter efeito semelhante nesta temporada no “Fofó”, onde ainda conta apenas com 16 minutos jogados.

Fábio Paím desperdiçou o seu dom e a oportunidade de uma vida. Mas se o seu caso parece já ser dado como perdido, que pelo menos tenha a capacidade de mobilizar jovens como ele a não cometerem os mesmos erros.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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