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Se eu fosse um homem, teria um farfalhudo e orgulhoso bigode. Se eu fosse um homem e tivesse um farfalhudo e orgulhoso bigode, seria um jogador de futebol. Se eu fosse um homem, tivesse um farfalhudo e orgulhoso bigode e fosse jogador de futebol, teria medo dos carecas em campo.

Os jogadores de futebol carecas, quer a ausência capilar se deva à genética ou uma opção estética, são como os lobos das histórias infantis. Para comer a «Capuchinho Vermelho» ou os «Três Porquinhos», os lobos maus iniciam a sua história de focinho afável e olhos meigos. Com o desenrolar do enredo, começamos a suspeitar da sua índole e, quando damos por isso, já a boca está aberta e as garras afiadas para atacar a presa.

Por norma, a calvície no futebol resulta numa imagem simpática. Desprovida de uma cabeleira despenteada, a imagem do futebolista careca é bem recebida pelo adepto. Todos simpatizamos, ou simpatizámos, com Pepe, Luisão, Roberto Carlos e Zidane. Atletas em forma e boa postura, sorriso convidativo e alguns gestos de fair-play para enganar a malta. Mas, todos eles nos provaram que a falta de cabelo, mais cedo ou mais tarde, acaba por ter consequências comportamentais e fazer estragos, num azarado jogador adversário (ou num árbitro à mão de semear).

ZidaneAinda não são conhecidos os impulsos que desviam o careca da sua carreira pacífica. Os casos de estudo ainda não nos permitiram perceber qual o acontecimento que desencadeia o acto violento do careca, que até então era tão calmo como o seu couro cabeludo. Zinedine Zidane, gaulês de carreira impecável, eleito melhor jogador do mundo, teve que percorrer muitos quilómetros em campo, até chegar ao momento em que Materazzi se pôs à sua frente, chamou pelo nome da sua mãe e ficou pronto a levar uma cabeçada mediática. E assim Zidane encerrou a sua carreira. De cabeçada no tórax e com recusa a pedido de desculpas.

1078182002_740215_0000000000_noticia_normalTambém Roberto Carlos teve que vestir a camisola do Real Madrid, para, em 2004, cometer a sua agressão afável a Demichelis, num jogo a contar para a Liga dos Campeões. Até então, os únicos actos violentos que conhecíamos do brasileiro eram os seus livres directos, de velocidade trucidante. Recordo, num jogo remontante à época de 97/98, o ar de pânico da barreira do Borussia Dortmund, ante o pé de Roberto Carlos. E, perante o corpo encolhido e a testa franzida dos jogadores alemães, aquele livre já deveria contar como agressão.

O Santiago de Bernabéu começa a ser um local de crime ou a casa do agressor careca, já que Pepe também teve o seu momento de ribalta no campeonato espanhol. Depois de se naturalizar português, o Képler, para os amigos, rapidamente percebeu, como bom lusitano, que «é tudo à grande». E em vez de agredir um jogador, decidiu agredir dois, de forma sucessiva. Em 1240353719_extras_albumes_0instantes, Casquero e Albín, a representar o Getafe, provavam o sabor da chuteira de Pepe. Uma chuteira mortífera, como um bom careca deve ter. Que o diga Arbeloa, que apesar de jogar na mesma equipa, não foi poupado aos carinhos de Pepe, que diz se ter enganado e pensar que era um adversário. Ficamos mais descansados.

pepePepe é, de facto, o ex-líbris do jogador duro e sem cabelo. Aquele tipo que toda a gente continua a achar simpático, mesmo que seja capaz de nos dar com os pitons, ou pisar a mão de Messi. É que Pepe não tem qualquer problema em deitar uma lágrima em frente à câmara  redimir-se, e pedir desculpa. Acreditamos que foi tudo um acidente, que queria “pontapear o ar”, como se justificou depois de agredir os jogadores espanhóis. É um tipo inocente. Vejamos que depois do par de agressões, saiu de campo e ofendeu o árbitro: “São todos filhos de uma prostituta”. Ora, sabemos que Pepe pode dar um bom chuto, mas agressão verbal não é com ele («filhos de uma prostituta»?!).

b14_-_O_árbitro_Christian_Fischer_ficou_caído_no_chão_após_se_chocar_com_o_zagueiro_Luisão-y_620x444Até aqui encontrámos um padrão satisfatório para a relação entre os carecas e a cacetada. Zidane, Roberto Carlos e Pepe vestiram a camisola merengue. Contudo, antes de chegarmos a conclusões precipitadas, Luisão baralhou os factos e fez questão de agredir… um árbitro. O gigante careca quis fazer diferente e não foi inteligente. É que os árbitros são mais mariquinhas. Tivesse escolhido um jogador e o Benfica teria aproveitado para jogar a partida amigável a que se propunha. Mas desta só há registo do árbitro Christian Fischer estendido em campo. Aposto que se fosse o Colina, de careca brilhante, o jogo teria sido realizado e Luisão não teria sido suspenso. É que os carecas entendem-se.

708150Tal como os bigodes se entendiam em campo na década de 70. Confesso a minha simpatia pelos bigodes estilosos e com personalidade que invadiam os relvados há décadas atrás. Principalmente porque estes eram, muitas das vezes, acompanhados de cabeças gadelhudas, a merecer uma boa permanente. Tivesse, na altura, a indústria cosmética descoberto os jogadores de futebol para promover os seus champôs, e o sucesso teria sido óbvio. Os carecas teriam ficado, certamente, invejosos.

velosonf6Veloso fez mais sucesso com o seu intocável bigode aparado, em jeito galã, que o seu filho conseguirá fazer até ao final da sua carreira, com as suas mudanças constantes de visual. Aprendesse com o pai, que a dedicação a um clube se consegue com a escolha de um barbeiro fiel. Como Toni também escolheu e o ajuda a manter, até hoje, os pêlos por cima do lábio, que lhe valem tanto respeito, que até pode cantar o fado, que os adeptos aprovam.

chalanaChalana, que com o seu pé esquerdo e o seu bigode descuidado, conseguiu atrair os franceses do Bordéus e, assim, permitiu que o seu emblema do coração conseguisse encaixar o valor necessário para a construção do 3º anel da velha Luz. É isso mesmo. Devemos aos pêlos de Chalana, o último anel do velho estádio. O anel já se foi, mas o bigode não. Artur Jorge, que hoje enverga um bigode tão consistente, que dá vontade de descolar como se fosse postiço, conseguiu representar os grandes de Portugal (falo do Benfica, do Porto e do Belenenses), viver o sucesso portista europeu de 88/87 e consolidar uma carreira de treinador.

O defesa Pietra ou o guarda-redes Bento também passearam os seus estimados bigodes em campo. Era250px-ManuelBento moda. Como era a música de intervenção, de José Afonso ou Carlos Paredes. Como era a Paz e o sexo livre. Como era, depois, o cabelo black power e a música Disco. E, como é sabido, isto das tendências é algo cíclico. É por isso que aguardo, com especial impaciência, que nasçam tufos de pêlo na cara dos jogadores de futebol e que estes passem a honrar não só a camisola, mas também os seus bigodes.

Não se trata apenas de um revivalismo ou de uma corrente estética. São necessários bigodes para trazer jogos pacíficos e travar surpresas em forma de agressão. Porque os bigodes impõem respeito, como o bigode tricolor de décadas que o meu pai enverga. E, tal como nos jogos de solteiros contra casados, sabemos que as barrigas de aliança estão dotadas para derrota, sei que no duelo bigodes contra carecas, a ausência de pêlo não conhece a vitória.

No calor do jogo, na provocação do adversário, na injustiça da arbitragem, há que parar, respirar fundo e ajeitar o bigode.

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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One thought on “Carecas contra Bigodes

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