Home

image

Luca Onesti, fotógrafo profissional apaixonado por Lisboa, acaba de voltar à cidade pela qual se apaixonou durante o seu período de estudos em Erasmus e, juntamente com o jornalista Daniele Coltrinari, é o criador do blog Sosteniamo Pereira: uma janela para o Tejo dedicada aos italianos que deixaram um pedaço de coração entre Alfama e Camões e que, a partir desta semana, se abre também aos leitores do Palavras ao Poste.

Marco Gaviglio – Luca, por que resolveste regressar a Lisboa, apesar da crise?

Luca Onesti – Porque é uma cidade com a qual tenho uma relação profunda, devido ao Erasmus que fiz aqui em 2007, e não só. Quando resolvi deixar Itália, quis voltar aqui também por razões mais práticas – enfim, Londres ou Paris são muito mais caras! – mas claramente havia algo mais: Berlim também é uma cidade bastante barata, e ainda por cima é uma grande metrópole onde tenho varios amigos e que me fascina pela sua cultura, mas a verdade é que gosto do carinho das cidades da Europa do Sul. E o calor de Portugal, e não estou a falar de clima, atraía-me muito antes de o ter descoberto pela primeira vez. Mas nem posso dizer que tenha abandonado Itália: continuo a ficar em contacto com o meu país, nomeadamente com o Sul onde nasci. Nestes ultimos anos tenho colaborado para uma editora da minha cidade, Cosenza, e fazer este trabalho numa região meridional como a Calábria torna tudo até mais complicado de quanto já não seja, hoje, o sector da comunicação social em Itália ou em geral na Europa.

MG – Conheces Lisboa há bastante tempo. Em relação à altura anterior à crise, achas que a cidade mudou muito? E em que é que mudou mais?

imageLO – Penso que sim, mudou muito. Mas em algumas formas, mudou para melhor. Há vários bairros que foram recuperados de acordo com um planeamento urbano inteligente. Por exemplo, pensem no Intendente, uma zona central que, até há pouco tempo, era considerada muito perigosa: a Autarquia transferiu para aí os seus gabinetes e deu rumo a uma transformação em vários níveis. Arquitectónica e exteriormente primeiro, mas também mais em profundidade. De facto, hoje em dia há muitas pessoas que resolvem abrir aqui novas actividades, cafés ou associações culturais, que estão a mudar significativamente o rosto do bairro. E o mesmo se está a passar em outras zonas do centro da cidade, como a Mouraria ou o Cais de Sodré. Mas Lisboa está a mudar também num outro sentido, e não é algo devido à crise, mas sim um processo que demora já a partir dos anos 80: o centro começa-se a “esvaziar” e os arredores vão crescendo em excesso. Isto é devido à subida dos preços das casas no centro histórico que faz com que a maioria dos cidadãos não se possa permitir de morar aí. E neste sendido, a crise não agravou o problema porque, apesar dos preços das casa baixarem, também o dinheiro das famílias portuguesas diminuiu. O resultado é que há um grande número de prédios vazios no centro de Lisboa, que se vai transformar cada vez mais numa zona turística pois apenas os estrangeiros é que têm o dinheiro para comprar. Agora, há também os grandes cruzeiros que chegam mesmo ao pé de Alfama, sobre o Tejo. De certeza, o turismo encarna um grande recurso económico, mas este tipo de transformação, às vezes, deixa-me com um pouco de amargura.

MG – Pergunta seca: Benfica ou Sporting?

LO – Benfica. Muitos amigos são adeptos do Sporting, mas eu sigo preferindo o Benfica, se calhar devido à “aura” que esta equipa leva consigo pela própria história. Também os Leões têm um passado importante, mas “a Águia” é que sempre me envolveu mais. Já estive várias vezes no Estádio da Luz e até cheguei a ver jogar o Rui Costa no fim da sua carreira. Gosto muito do futebol português, que acho bem diferente do italiano. Também julgo a forma de jogar à bola em Portugal muito diferente, mesmo ao nível de amadores, e é muito divertido comparar estas duas formas de interpretar a modalidade que temos.

 MG – Bacalhau à Braz ou com natas?

LO – Prefiro o bacalhau com natas, mas gosto imenso do bacalhau cozido em qualquer maneira que seja à portuguesa. E afinal basta jantar na “Tí Natércia”, nas Escolas Gerais em Alfama, para experimentar todos os pratos melhores!

MG – Agora vamos falar do Sosteniamo Pereira. Como nasceu este projecto?

imageLO – Foi uma ideia do Daniele Coltrinari. Daniele é jornalista e trabalhou para vários diários de Roma; ele é que deu o corte ao blogue. Conhecemo-nos durante o Erasmus, há cinco anos, e ficámos em contacto até hoje, nomeadamente quando, há dois anos, mudei de Nápoles para Roma. Aí, na capital italiana, falávamos infinitas vezes de Portugal, e os dois tínhamos imensa vontade de voltar um dia. O blog nasce assim, entre uma cerveja e a outra à sombra do Colosseo, nem me lembro a altura certa em que aconteceu, de verdade. Muitas sugestões sobre o projecto em geral vêm do nosso amigo Fabio Rollo. Agora é que enfim estamos aqui e, partilhando também a paixão pela escritura e a fotografia, criámos o Sosteniamo Pereira, tomando inspiração pelo nome do romance “Sostiene Pereira” (“Afirma Pereira”, em português) de Antonio Tabucchi: um grande escritor italiano, ele também namorado de Lisboa e de Portugal, que desapareceu no ano passado, demasiado cedo. O título italiano tem este duplo sentido, porque o verbo “sostener” quer dizer “afirmar”, mas também “apoiar”. E assim, nós é que apoiamos Pereira, ou seja, apoiamos Portugal.

MG – Há pessoas, situações ou mais simplesmente esquinas de Lisboa que não conhecias, e que graças ao blog acabaste por descobrir?

LO – O Sosteniamo Pereira é mesmo isso, a oportunidade de descobrir de cada vez uma parte imagedesconhecida desta cidade. Também deu-me a ocasião de tirar fotografias que, de outra maneira, nunca tiraria. Por exemplo todas as fotos do Street Art, um mundo muito vivo, aqui em Lisboa, onde nunca se acaba de encontrar novidades. Neste caso muitas vezes as escritas sobre os muros têm um particular significado de protesto. Uma destas, que se tornou famosa, diz “Muros brancos, povo mudo”, mas há muitas outras que merecem ser levadas em conta, é só andar pela cidade e reparar no que quase diariamente aparece. Também é muito significativo o que se lê sobre as paredes dos prédios vazios, como “Aqui podia viver gente” ou “Tanta casa sem gente, tanta gente sem casa”. Em geral, gosto imenso de andar de passeio sozinho, ficar a falar com as pessoas em frente de uma imperial ou de um café e ouvir os contos dos mais velhos. Tendo sempre comigo a câmara para tirar fotos que sejam espontâneas. Ou até esquecendo mesmo de levar a máquina fotográfica, e apenas ouvir.

MG – Mas não é apenas de Lisboa que se fala no vosso blogue: agora, o vosso olhar abrange também o resto de Portugal, não é?

LO – Sim, recentemente começámos a traduzir aos leitores italianos uns artigos mais significativos da imprensa portuguesa, para dar contas do que passa no país, e também a colaboração com o Palavras ao Poste encaixa-se nesta perspectiva. Em breve, iremos contar o que se passa em Portugal também viajando pelo país. É algo que até agora eu e Daniele não pudemos fazer porque estávamos a trabalhar para um documentário sobre os italianos de Portugal e que se irá chamar “I figli di Tabucchi” [“Os filhos de Tabucchi”] mas sobre o qual não vou dizer muito mais, por superstição.

MG – Qual é o melhor spot de Lisboa que já captaste com a tua máquina?

LO – Não sei  escolher, mas há uma foto pela qual tenho muito carinho, e que fiz na Mouraria. Tirei-a de inverno, num dia de chuva; penso que Lisboa, naqueles dias e também à noite, revela o lado do seu carácter muito diferente do que estamos acostumados. Quando chove, Lisboa pode até fazer lembrar as cidades da Europa do Norte.

 MG – E qual é, por fim, a fotografia que ainda queres tirar?

LO – Queria fotografar as periferias de Lisboa, cujo crescimento foi muito parecido ao que tiveram as maiores cidades italianas, sem um planeamento urbanístico certo. Lisboa parece pequena ao olhar apenas para o centro, mas tem imensos arredores. Muitos cineastas estão a virar a própria atenção rumo a este mundo urbano marginalizado. Há muitos italianos que fazem o mesmo, e também escritores, por exemplo o romano Walter Siti que contou as periferias da capital italiana, “le borgate”. Entre os cineastas portugueses, o primeiro que se interessou por este mundo foi o recém-falecido Paulo Rocha. O seu primeiro filme, Os verdes anos, mostra o que nos anos 60 era o limite entre a cidade e a campagna (n.d.r “o campo”), limite que hoje em dia foi muito mais para lá: os dois protagonistas, para ir a pé até ao aeroporto da Portela, tinham que atravessar uma zona de campagna que desapareceu. Enfim, apetecer-me-ia fotografar o resto de Portugal, algo que, como já disse, ainda não tive tempo de fazer. Um projecto em que estou a pensar é uma viagem fotográfica em bicicleta: oxalá consiga este verão!

Marco_desenho copyMarco Gaviglio (Fotos: Luca Onesti)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s