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Adoro assistir no mesmo espaço ao delírio simultâneo de um sapateiro sem dentes ou de um garboso senhor de bigode à Dali. Cada emblema tem na sua génese vários estereótipos de apoiantes, hoje debruçar-me-ei sobre alguns: um género particular de adepto de cada um dos três grandes.

Começo por um grupo de adeptos do Sport Lisboa e Benfica. Muita gente se refere a este tipo de adeptos como lampiões, encarnados ou águias. Esse tipo de cognomes ajusta-se bem aos adeptos do Benfica, no geral. Contudo, não faz jus a uma camada (enorme) específica dos adeptos do clube de Cosme Damião.

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Estes preciosos exemplares da causa benfiquista, são aquilo a que chamo Tonis. A minha inspiração vem do original, o pai do Hassan c*ralh* , o grande Toni. Um pensador do futebol dono de frases como: “Chora Beckham, quanto mais choras menos mijas (em directo – quando Portugal eliminou Inglaterra do Euro 2004)!” ou “Benfica vai ser campeão até com a minha avó ao colo (sobre as chances de título encarnadas) ”.

Sempre que penso num típico benfiquista, é ele que me vem à cabeça. Bigode farfalhudo, bochechinhas rosadas (pelo tinto), cheirinho a fritos, cachucho de ouro na mão esquerda, a característica proeminência abdominal e aquela implacável convicção de que o Benfica é o maior.

IMG_0525O motorista do Traktor é o líder deste protótipo de adepto. Em termos religiosos são devotos de dois deuses: Baco e Deusébio. Apoiam o seu clube como se não houvesse amanhã. Defendem irracionalmente que o Armando Sá, o Dudic ou seja lá quem for que assuma a lateral direita encarnada, é superior ao Cafu, Daniel Alves e a todos os laterais direitos da história do futebol. Isto aplica-se a todas as posições em campo. Eu conheço um que prefere o Yannick Djálo ao Messi (“Não tenhas dúvidas”) e juro que não estou a mentir…

O Toni pode ter diversas classes sociais mas normalmente vem mais do Zé Povinho, é quase Automááático, citando El Parreira. Algumas características básicas dos verdadeiros Tonis:

IMG_0529– Podem ter dentes (nem sempre acontece); Apesar de não serem matemáticos (os que sabem contar), conseguem precisar a existência exacta de 6 milhões de benfiquistas; fatiotas personalizadas (há Diabos, Papas, Toureiros); Andam em grupos (adoram excursões, que os trazem de terras tão dispares como Senhora do Alívio ou Mata Porcas até à sua Catedral); invadem os espaços onde o Glorioso joga para fazer românticos piqueniques. As sardinhadas, garrafões de tinto, bagaço, sandes de torresmos, caracóis, tremoços, minis e chouriças são indispensáveis nas arcas e tupperwares encarnados;

Após este fartote, que por norma os deixa facialmente vermelhos (e fisicamente embriagados), seguem para o jogo. O Toni é exigente com a sua equipa mas também com os seus atletas. Quando o Benfica está bem, todos apoiam e carregam a equipa. Mas basta uma recaída de qualidade exibicional, durante algum período do jogo, que surgem os assobios e desejos ínfimos de apertões nos gasganetes do plantel. Uma característica básica dos Tonis é o facto de todos os árbitros, motoristas da CP, talhantes e restantes terráqueos, virem ao mundo com o único e simples propósito de gamar o Benfica!

IMG_0526O árbitro até pode ser o Lucílio, marcar um penalti fora da área e expulsar injustamente um adversário, que vai estar sempre a assaltar o Glorioso. Afinal se há água quente nos balneários ou roulottes à volta do Estádio é porque estão a gamar o Benfica.

Esta sociedade de fiéis seguidores encarnados não representa toda a nação benfiquista mas tem uma fatia grande dos ditos 6 milhões.

Analisemos agora uma franja de adeptos do Sporting Clube de Portugal. O clube do Visconde de Alvalade está hoje dividido. Apesar de génese burguesa, é um clube com grande massa popular. “Essa gente” (é assim que os burgueses se referem aos populares) é a maioria, mas quem manda (tem sido assim desde sempre) são aquilo a que chamo (os populares também) de Croquettes.

Ao contrário dos Tonis, que vibram com o futebol do seu clube, o Croquette é mais dado ao ténis e ao golfe. De bola percebe pouco (ou nada), mas sendo ele engenheiro, médico, economista ou advogado acha-se habilitado a dirigir um clube de futebol. Faz sentido, apesar de ser jornalista, creio que sou um ótimo bate-chapas. 

LIGA ZON SAGRES 2012/2013Esta turma, que há anos, gere o clube não organiza reuniões da direcção e do conselho leonino, sem certos acepipes e digestivos. A água da escócia, o rum e Moet Chandon são indispensáveis (isto explica o coma alcoólico do Sporting) para molhar as gargantas secas de charutos cubanos e cachimbos britânicos. Iguarias como foie gras, lagostas, jaquinzinhos e croquetes ajudam a enganar a fome enquanto se negoceiam acordos paralelos entre o Sporting e as suas próprias empresas.

IMG_0520Ao contrário do Toni, que ama o Benfica, o Croquette prefere uma bela negociata. O leão fica para depois, ele prefere ver o rival encarnado perder do que o seu clube ganhar. Se o Sporting ficar à frente do Benfica, mesmo que em penúltimo (descendo juntos de divisão) o clube atingiu os seus princípios croquettianos. Há espaço então para prémios financeiros em pleno Verão, que permitem grandes degustações de cerejas e uvas, desde que as empregadas extraiam os caroços e as grainhas.

Para se atingir o estatuto de Croquette, é necessário ser de uma faixa etária avançada, financeiramente dotado e denominado pela comunicação social como notável sportinguista. A indumentária tem traços muito próprios: calças cremes (fundamentais), blazers brancos (muito do agrado de Godinho Lopes, aka Mr.Magoo) e sapatos beges são fundamentais. As camisas de seda, os óculos de visão com lente escura (próprios dos pedófilos) e os lenços (com padrões aos quadrados e às bolinhas) para serem utilizados nos fatos (normalmente, num tom marrom) também são um chamariz. Para mostrar o seu entusiasmo, os Tonis berram suados, com as camisolas de manga cava cheias de gordura (provavelmente dos couratos) e pingos de cerveja. Já os Croquettes fazem-no batendo lentas palminhas e fumando cigarrilhas, bem agasalhados, com os seus pullovers de cachemira.

IMG_0523O Croquette tem um vocabulário muito próprio: Ele não caga, defeca; ele não mija, urina; para ele, não existe casa de banho, as suas necessidades fisiológicas são feitas no Toillete (adora estrangeirismos); um grande golo (Ganda goluuu c*ralh* – na versão Toniziana) no linguajar croquettiano, é um lance bestial; os associados leoninos são os consócios; o clube, uma colectividade; os árbitros ladrões são juízes vigaristas; uma batalha campal, uma peleja no recinto desportivo; para o Croquette o Sporting não tem Casas, mas sim Núcleos; os putos rabugentos são “meninos taciturnos”; uma prostituta, é uma meretriz e um chulo, um proxeneta;

Enquanto o Toni sabe o nome da tetravó materna e o número da Segurança Social de cada um dos seus jogadores, o Croquette não acerta uma: Pereirinha é Parreirinha, Capel é Chapel, Schaars é Cheers, o peruano Carrillo e o chileno Rubio são sul-africanos. Apesar de bem falante, o seu (des)conhecimento desportivo é total. Como característica máxima desta tipologia, temos a humildade. O clube está nas lonas financeiras mas, ainda existe, porque todos eles o (“modéstia à parte”) salvaram.

Por fim, vamos examinar os adeptos portistas. São sem dúvida, os mais difíceis. Até porque sendo eu um cidadão natural do Barreiro, que cresceu em Moçambique e reside na Buraca, são espécies raríssimas. Talvez na Europa haja muitos, mas como só estive em África, deparei-me com poucos. Apesar de ao nível de alimentação, vestuário e sabedoria não serem propriamente um estereótipo formado, possuem pontos em comum.

IMG_0532Por norma, sabem que abaixo de Gaia são todos mouros imprestáveis, logo há que odiá-los. Muitos deles acabam por detestar-se a si próprios. Depois, têm um ódio especial aos de vermelho, esse não prestam. Os de verde também não, mas como os Croquettes pouco percebem de bola sempre dá para beber uns uísques e trocar craques como Nuno André Coelho e o Miguel Lopes por cepos do género do Moutinho e do Izmailov.

Amor mesmo, os Fruteiros só têm à sua religião: Pinto da Costa. Não existem budistas ou muçulmanos portistas, esses têm o seu próprio Deus. Como todo bom fanático religioso, defendem o seu criador com unhas e dentes. Para os Fruteiros, ele é perfeito e não tem deslizes. Se por algum motivo tiver um deslize, recebe uma chamadinha e parte para um retiro espiritual em Vigo.

IMG_0531O criador tem sempre perdão. Até quando cai no pecado da carne e surge com jovens Marias Madalenas provenientes do bar evangélico do apóstolo Reinaldo. Os seus desvarios são visíveis e passíveis de confirmação. Há um capítulo da bíblia azul que dá pelo nome de Youtube. Trata-se de uma questão de consulta. Nesse excerto bíblico, são várias as referências a fruta para dormir, café com leite, rebuçadinhos, suborno, moças com leve aderência à beira de estrada, árbitros e pessoas ligadas a todo o futebol português.

Estas revelações são relativamente recentes, mas para descobrir os benefícios da fruta, bastava assistir às competições desportivas portuguesas dos últimos 31 anos. Sem vídeos ou escutas, qualquer suricata surdo/mudo percebe que o FC Porto é um emblema que beneficia de um sistema viciado há imenso tempo. Contudo, com escutas, passamos a deter provas cabais que permitem ao mais incauto dos cidadãos, pensar de forma diferente. Menos aos Fruteiro.

IMG_0533Ele pensa sempre de formas diferentes. Defende que o caso já foi julgado e está tudo esclarecido. Não se lembra, talvez, que os azuis foram penalizados, mas nisso perdoo-o. O castigo (se lhe podemos chamar assim) foi tão curto como o governo do Durão, quase ninguém se lembra dele. O Fruteiro é sempre coerente, e depois de dizer isto é capaz de criticar a justiça nacional e o estado português porque não funcionam em condições. Outra boa forma de defesa, é negar as evidências. É a minha preferida. Dada a ingenuidade dos apoiantes do Dalai Pinto, é bem possível que acreditem que o buraco do BPN foi criado pelo Saúl Ricardo e que o Manuel Serrão é vegetariano.

Este tipo de portista, é realmente inocente porque acha que o clube é prejudicado pela arbitragem. A coragem também lhe assenta bem, até porque é preciso lata para reclamar do apito amigo. Como é lógico, os adeptos do FC Porto não são todos assim. O Bobby e o Tareco parecem bem menos facciosos. Estas duas alminhas, são a prova viva de que os Fruteiros são apenas um género, assim como Tonis e Croquettes.

Bruno Gomes SONY DSC

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4 thoughts on “Tonis, Croquettes e Fruteiros

  1. Conheço, pelo menos, um exemplar de cada!
    Os mais comuns são, na minha experiência pessoal, os Tonis. E são também os que mais gargalhadas me rendem (também são os que deixam o parque por trás da minha casa imundo semana sim, semana não)!
    Considero a maioria dos Croquettes figuras simpáticas e que, nos últimos anos, se manifestam muito pouco em público, vá-se lá saber porquê!
    Sobre os Fruteiros não tenho muito a dizer. Como Portista que sou, só partilho com eles a adoração ao Pinto da Costa (não, nem isso temos em comum)!

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