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O futebolista é visto, quase de forma unânime, como um privilegiado da sociedade. Os avultados rendimentos de uma minoria levam à generalização da ideia de que este é um mundo de rosas. Falta, porém, analisar o outro lado da moeda. A frágil situação económica, que se faz sentir agora com especial incidência na Zona Euro, tem repercussões também nesta classe profissional, traduzindo-se em salários em atraso e situações extremamente delicadas para alguns futebolistas e suas famílias. Com isto quero esclarecer que poucos são os futebolistas com a conta bem recheada e que quase nenhum tem a garantia de um futuro sem preocupações. À questão financeira juntam-se fatores mentais e físicos umbilicalmente ligados à profissão. Sobre as questões físicas já o Hugo Almeida nos esclareceu num excelente artigo. Tudo o que escrevesse sobre essa questão seria manifestamente incompleto face à vigorosa base de argumentação usada nesse artigo.

Não faltam casos de jogadores com um talento excepcional que viram a sua carreira interrompida ou limitada por questões acessórias ao jogo. É sobre aqueles que tinham tudo para ser referências do desporto-rei durante gerações e que falharam esse desígnio que hoje vos escrevo. Vejam a lista e recordem os momentos.

Tanto talento para isto?

Álvaro Recoba: Aquele pé esquerdo… O uruguaio chegou a ser considerado o jogador mais dotado do futebol mundial, tal era a sua capacidade técnica. Foi também, durante algum tempo, o jogador mais bem pago do planeta. A soberba capacidade técnica e o absurdo número de golos que marcou na liga do Uruguai despertaram a cobiça dos tubarões europeus. ‘El Chino’ acabou no Inter de Milão, chegando no mesmo ano de Ronaldo, o Fenómeno. A ideia era fazer dessa a grande dupla atacante de Itália e da Europa. Mas o uruguaio não cumpriu a sua parte. Com apenas 21 anos de idade, não se adaptou à agressividade dos defesas do Calcio e, passado um ano, acabou emprestado ao Venezia. Aí sim, voltou a ser sublime. Chegado em janeiro, assinou 11 golos e 9 assistências em 19 jogos e ajudou o clube a permanecer na Serie A. No ano seguinte começou a ‘abrir o livro’ pelos nerazzurri e no final da temporada Moratti renovou-lhe o contrato, tornando-o o jogador mais bem pago do mundo. Só que a partir daí a situação inverteu-se por completo. Primeiro ‘El Chino’ foi suspenso por vários meses devido ao uso de um passaporte falso. A isso juntaram-se as lesões no joelho e no tornozelo. Daí para a frente as aparições de Recoba foram cada vez menos, apesar de volta e meia mostrar ao mundo a sua genialidade. Depois de uma época emprestado ao Torino, Álvaro Recoba saiu em 2008 para os gregos do Panionios. Em 2010 voltou ao Nacional de Montevideu, clube onde foi formado e no qual ainda vai espalhando magia.

Sebastian Deisler: Que talento, que forma de tratar a bola! Formado nas escolas do Borussia Moenchengladbach, Deisler tinha tudo para liderar a Mannschaft durante muitos anos, ao lado de Michael Ballack. Porém, as sucessivas lesões no joelho não o deixaram. Num período em que a Alemanha procurava ansiosamente por novas referências, o talentoso destro deixava água na boca sempre que tocava na bola. Depois de dar nas vistas na primeira equipa do Gladbach, transferiu-se para Berlim. No Hertha começaram os problemas físicos e fez apenas 70 jogos em três anos. Não obstante esse facto, o Bayern München antecipou-se à concorrência de vários clubes e juntou Sebastian Deisler às suas fileiras. As perspectivas de recuperar Deisler fisicamente rapidamente caíram por terra, tal era a gravidade dos problemas no joelho. Ao todo, fez apenas 86 jogos pelos bávaros nas cinco temporadas em que representou o clube. Em 2007 cedeu às lesões e à consequente depressão em que se deixou cair e abandonou a carreira. Tinha 27 anos.

Adriano: O Imperador tinha tudo para ser um dos melhores avançados da história do futebol. Compleição física assinalável, potência de remate, cabeceamento e uma técnica muito acima da média para alguém com 1.90m. Formado nas escolas do Flamengo, Adriano chegou ao Inter de Milão com apenas 19 anos. Pouco tempo depois da chegada a Itália, acabou emprestado à Fiorentina de forma a acumular minutos e acelerar a sua adaptação ao rigoroso futebol italiano. Os primeiros tempos em Itália não terão convencido os responsáveis nerazzurri e o jogador acabou no Parma, em regime de co-propriedade. As prestações nas duas épocas no Ennio Tardini voltaram a despertar a cobiça do gigante milanês que, em 2004 resgatou Adriano, comprando a metade do passe que estava nas mãos do Parma. O regresso a Milão foi imperial, tal como indica a sua alcunha. Nos primeiros 16 jogos apontou 15 golos e já era visto por muitos como o melhor avançado do momento. Só que o falecimento do pai, em 2006, precipitou o declínio da sua carreira. Em Milão ficou quase um ano sem marcar golos e foi uma nulidade no Mundial’2006, onde deveria ter sido um dos líderes do Escrete. No ano seguinte, os problemas disciplinares levaram ao conflito com Roberto Mancini. A saída foi inevitável. Regressou ao Brasil em 2008, para actuar pelo São Paulo. À falta de motivação juntaram-se problemas com a condição física (excesso de peso) e com o álcool. Apesar disso, ainda marcou muitos golos com a camisola dos paulistas. Voltou ao Inter mas esteve em Itália pouco mais tempo. Fugiu (literalmente) para o Brasil e interrompeu a carreira por tempo indeterminado. Três semanas depois voltava ao Flamengo, onde regressou aos tempos de goleador. O relativo sucesso no Brasil voltou a abrir as portas da Europa e de Itália. Seguia-se a Roma. Esteve na capital italiana menos de um ano e golos nem vê-los. A carreira de Adriano ainda se arrastou por mais ano e meio, com passagem pelo Corinthians e novo regresso ao Flamengo. Quem o viu na fase final da carreira fez um esforço para recordar o ‘Imperador’ de outrora.

Denílson: O ‘Morcego’ estreou-se na equipa principal do São Paulo em 1994, com 17 anos. No clube paulista rapidamente se tornou num dos ídolos da ‘torcida’, chegando ao Escrete dois anos mais tarde. Era visto de forma unânime como ‘the next big thing’ do futebol brasileiro. E quem teve oportunidade de o ver num dia bom, concordará que estamos a falar de um jogador com habilidade para ter sido um dos melhores da história do desporto-rei. Em 1998 foi transferido para o Real Betis, tornando-se na transferência mais cara da história do futebol até então (34,5 milhões de euros). Mas as coisas no clube espanhol correram mal. Na primeira temporada o clube falhou por completo a meta europeia (11º lugar). Pior: na época seguinte o Betis caiu na segunda liga. Na temporada seguinte, Denilson mudou-se para o Flamengo por empréstimo, em mais uma experiência falhada. O Betis voltou à primeira liga espanhola e colocou-se nos anos seguintes em posições europeias. Mas Denilson raramente justificava o valor pago pelos espanhóis na sua compra e nos seus salários. No meio de tudo isto, fez parte da selecção brasileira que conquistou o Mundial 2002, com participação discreta. Em 2005 mudou-se para Bordéus onde continuou a brilhar apenas a espaços. As suas exigências salariais levaram-no para países com pouca expressão no futebol (Arábia Saudita, Estados Unidos e… Vietname). Pelo meio ainda mostrou algumas qualidades no Palmeiras, em 2008.

Ups, perdi o comboio…

Andrés D’Alessandro: Formado nas famosas escolas do River Plate, rapidamente foi rotulado como novo miúdo maravilha das Pampas. Com um pé esquerdo que tratava a bola por ‘tu’, os especialistas auguravam um futuro muito promissor para aquele que ficou famoso pela invenção da finta ‘La boba’. Porém, geriu mal a carreira (a opção Wolfsburg, em 2003, não terá sido a mais acertada, sobretudo tendo em conta o interesse de Man Utd, Barcelona ou Juventus) e teve sempre um temperamento difícil de domesticar (não é qualquer um que consegue andar à pancada num treino com o pacato Pablo Aimar). Aos 31 anos continua a jogar no Internacional de Porto Alegre, depois de passagens por Portsmouth, Zaragoza e San Lorenzo.

Van der Meyde: Mais um produto da conceituada escola de formação do Ajax. Andy van der Meyde estreou-se no Ajax aos 17 anos e, depois de uma passagem por empréstimo pelo Twente, agarrou o lugar na direita do ataque do clube de Amesterdão. A finta curta e a capacidade de cruzamento valeram-lhe comparações com Luís Figo. Em 2002/03 realizou uma temporada fantástica, marcando 11 golos ao lado de jogadores como Ibrahimovic, Rafael Van der Vaart, Sneijder, Chivu, Pienaar ou Mido. No final dessa época assinou pelo Inter de Milão (outra vez eles…). Com a camisola dos nerazurri desiludiu e em 2005 saiu do clube. Rejeitou o regresso ao Ajax para ingressar no Everton. A carreira em Inglaterra também foi decepcionante e o jogador refugiou-se no álcool. Ainda regressou à Holanda, em 2010, mas não fez um único jogo oficial pelo PSV. Acabou a carreira nos amadores do WKE.

Royston Drenthe: O que o baixinho holandês fez no Europeu de sub-21 em 2007 foi de predestinado. Formado nas escolas do Feyenoord, Drenthe fez a sua estreia na equipa principal do clube de Roterdão na época 2005/06. O Euro sub-21 de 2007 foi a rampa de lançamento de um jovem que já estava no radar dos tubarões europeus. O Real Madrid ganhou a corrida, pagando 14 milhões de euros pelo virtuoso canhoto que podia desempenhar qualquer função no flanco esquerdo. O passo foi maior que a perna e o jovem rebelde holandês deixou-se seduzir pela luxúria da vida. A primeira época nos merengues até foi positiva mas acabou por perder o lugar para Marcelo. Em 2010/11 foi emprestado ao Hércules e na época seguinte ao Everton, mas não brilhou em nenhum deles. Acabou dispensado pelo Real Madrid e, aos 25 anos, joga nos russos do Alania. Na teoria, ainda pode fazer uma grande carreira. Mas quando o perceber vai ser tarde demais.

Joaquín: Outro que apareceu e rapidamente foi comparado a Luís Figo. O que fez na ala direita nos tempos do Real Betis lançou o alerta nas agendas dos tubarões. Mas o clube andaluz segurou o jogador até aos seus 25 anos, não resistindo ao poder dos cifrões e à vontade do jogador, aceitando uma proposta de 25 milhões de euros do Valência. Mas no Mestalla nunca conseguiu ser o Joaquín que se notabilizara em Sevilha e na segunda temporada já nem era titular indiscutível. A estadia em Valência chegou ao fim no verão de 2011, quando assinou pelo Málaga, tentando relançar a carreira. É titular do clube andaluz mas não passa de um jogador fiável com alguns rasgos do génio de outrora.

José Antonio Reyes: Ficou na história do Sevilla como jogador mais jovem a estrear-se na equipa principal, com apenas 16 anos. Mais tarde tornou-se também no mais jovem jogador a marcar no principal escalão espanhol. A ascensão na equipa andaluz valeu o interesse de meia Europa. O Arsenal ganhou a corrida, pagando mais de 30 milhões de euros. Os seus primeiros jogos em Londres, actuando como avançado, foram demolidores, com golos atrás de golos. Foi campeão na primeira temporada e chegou à final da Liga dos Campeões, sendo batido pelo Barcelona de Ronaldinho. Porém, foi perdendo fulgor no Arsenal e acabou transferido, em 2006/07, para o Real Madrid. Nos merengues teve pouco sucesso individual, apesar de ter ficado ligado directamente ao título da liga espanhola, marcando o golo decisivo diante o Mallorca. No final da temporada assinou pelo Atlético Madrid. O primeiro ano nos Colchoneros foi horrível e acabou saindo, por empréstimo, para o Benfica, no verão de 2008. Por cá, também foi intermitente e o Benfica não avançou para a sua aquisição. A segunda etapa no Atlético já foi diferente, para melhor, e ainda foi a tempo de ganhar uma Liga Europa e uma Supertaça Europeia. Em janeiro de 2012 regressou ao Sevilla, mas a vontade já parece pouca.

Djibril Cissé: Azar é o seu nome do meio. O ‘quebra-ossos’ dos penteados originais foi formado nas famosas escolas do Auxerre. As excelentes prestações no Auxerre e na selecção francesa e os golos em catadupa valeram-lhe a transferência para o Liverpool, em 2004. Os primeiros meses na cidade dos Beatles foram promissores mas em outubro partiu, pela primeira vez, a perna depois do pé ficar preso na relva. Recuperou em tempo recorde. Mas, num jogo de preparação para o Mundial’2006, voltou a partir a perna, depois de uma entrada arrepiante de um oponente chinês. Nessa altura já vestia as cores do Marseille. Ainda voltou a Inglaterra, para representar o Sunderland, em 2008. Seguiu-se uma bem sucedida passagem pelo Panathinaikos e uma atribulada estadia na Lazio. Os ingleses do QPR foram a última equipa europeia antes de ceder aos petrodólares do Al Gharafa, do Qatar. Às lesões é bom juntar o mau feitio. Que o diga o lateral Mário Sérgio que, depois do famoso França-Portugal em sub-21, foi chutado pelo irreverente avançado.

Fica provado que, também no futebol, nem sempre 1+1 é igual a 2. O jogador que hoje parece uma estrela emergente depressa se pode tornar numa estrela cadente. Os exemplos são muitos e a lista é tão extensa que, por ora, ficarei por aqui. Também dependendo do feedback dos leitores, a saga pode continuar.

joni_desenhoJoni Francisco

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