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article-2204210-1507C2A8000005DC-574_306x423Se há barretes que se enfiam por desleixo, informação errónea ou por simplório pedantismo, outros há que assentam que nem um sérvio num meio campo defensivo recém-nascido. Há barretes que, enfiados a ninguém, acabam sempre por entre linhas jugoslavas beneficiar um outro alguém. Rima e é verdade, pois já a minha avó dizia: as rimas são como os sérvios que por sua vez são como o algodão – não engana. Ora, há barretes que se enfiam por bem sem ninguém ter querido trapacear alguém. E quando assim é, somos massajados na consciência por um casual altruísmo balsâmico que tudo ordena à sua passagem, sem que tenhamos prestado atenção ao seu ímpeto imperceptível de regeneração. Nada se arruma sozinho. A tralha não salta de volta para a prateleira, nem os pares de meias desemparelhados se voltam a casar bem sem que alguém os enfie de novo na gaveta. No Benfica é Jesus quem concilia os irremediáveis remendos desse aparente e inopinado altruísmo, mas é com o sérvio como prova cabal que a acusação finaliza o argumento e fecha à chave uma condenação antecipada: Roberto Mancini enfiou, por vontade própria a que o Benfica é completamente alheio, um barrete daqueles que, pelo assolapado preço a que foi comprado, deverá certamente vir com orelhas e tudo. Falo da prova seguinte: Javi Garcia.

Ora, a antiquíssima expressão «enfiar o barrete» ou «enfiar a carapuça» faz remontar o seu significado aos terríficos tempos da Inquisição, em que os condenados eram forçados a trajar de modo pouco ortodoxo: mandava o código que estes se apresentassem de túnica em formato de poncho, sendo a cabeça coberta por um chapéu longo e de forma pontiaguda; sim, a tal carapuça, ícone representativo da culpa assumida perante o poder divino. Se por um lado os dias negros da incendiária Inquisição já nos são somente um retrato infame da História, por outro lado os barretes continuam, ainda hoje, a serem enfiados, mas agora com a pompa e a classe que a ironia do tal inadvertido destino exige – Mancini e o seu City, de Manchester, que o digam. A admissão de culpa que o punitivo acto simbolizava permaneceu intimamente ligada à vergonha de carregar um suposto fardo: não que Mancini e o seu adjunto, Fausto Salsano, devam, carnavalescamente, fazer uma marcha processional do túnel até ao relvado, de barretes enfiados nas monas, enquanto a bárbara multidão lhes acena gentilmente com tomates voadores e odes prosaicas de se lhe tirar o chapéu. Nada disso. Ou ainda que o treinador italiano devesse adornar a sua cabeça com o dito barrete, num sentido tão estrito quanto figurado, caminhando na passerelle do arabesco Etihad Stadium com o espanhol Javi Garcia encavalitado na sua nuca. Longe de mim. A minha intenção é a de tão-somente narrar a narrativa até agora inenarrada – aquela em que o barrete era a lei.

javigAvancemos adentro: a primeira época do espanhol das fechaduras foi um mimo de cacetada leal e de garra bem sincronizadas com a generosidade infinita do «box-to-box» Ramires. Apesar de ocupar o lado direito do meio-campo, o brasileiro emprestava ao primeiro bloqueio defensivo do Benfica uma dinâmica pressionante e uma incansável ocupação dos espaços. Sempre disponível para funcionar como pêndulo na transição da defesa para o ataque, Ramires nunca renegou as suas tarefas defensivas e fez do trinco Garcia um trinco da noite para o dia: ao espanhol bastava limpar a sua zona, marcar cerrado e ser pujante no duelo aéreo. Não é pouco, e Javi fê-lo sem mácula. Mas o «queniano» fugiu pelos ditames doutrinários da libra inglesa que o russo fez questão de bater na mesa dos portugueses pobretanas. E assim se desfez o meio-campo do campeonato, logo ali na sua zona nuclear. Mesmo mais tarde, com o furtivo belga da cabeleira a pautar o jogo no centro do terreno, o Benfica sentiu dificuldades para dominar como dominava em 2010. Porque reside, nestas transições milionárias de que falo, um barrete «blue» que o Chelsea não enfiou: e esse foi e é, Ramires. Titular indispensável dos londrinos, médio todo-o-terreno que merece a inesgotável confiança da torcida, Ramires é um género de jogador que nunca deita os bafos pela boca: corre, corta, recupera, sai a jogar, finta, cruza e entra na área para marcar. Não soube jogar mal na Luz nem o sabe fazer em Stanford Bridge. Perfila-se na adjectivação múltipla de quem possuiu um rol de qualidades que não acabam – é o jogador moderno que um treinador pede quando quer logo dois ou três. Ramires defende bem, é raçudo e combativo, mas também tem as proficiências técnicas que lhe permitem fintar, ter óptima visão de jogo e poder de fogo quando se trata de alvejar a baliza do inimigo. Quando saiu da Luz, deixou um vazio central e lateral, direito. Como um perneta que se esquece da prótese em casa, deixou Javi sozinho, perdido nas tarefas que não tinha tido necessidade de encetar a sós. Levou consigo a dinâmica superior que permitia balançar entre sectores. Javi perdeu-se na empreitada. A sua escassa apetência técnica para ter a bola no pé, para ler o jogo de construção e para dar incremento ao ataque continuado, deixaram a nu as suas limitações. Javi é só um trinco às antigas. Só tem uma mudança: perra. É bom no que faz mas é insuficiente para quem quer fazer mais. E o City de Mancini precisa de mais – tem é de parar de enfiar barretes, qual pé descalço tornado rico que de repente se acha connaisseur das mais-valias que a arte abstracta tem para oferecer à sua sala de tigresa e tons de vaca malhada ornamentada. Javi Garcia é um risco e dois traços pendurados na moldura da meia-lua, pouco mais.

Nemanja+Matic+SL+Benfica+v+FC+Twente+UEFA+-cXjKFTBOFylE com isto já disse tudo sem ter dito nada sobre ele. Falei de tudo sem lhe ter dado o parágrafo tão merecido. Mas fi-lo a preceito, com o anonimato com que pauta os seus toques na bola, embrulhada entre duas pernas que desengonçadamente a tratam tão bem. Fi-lo com a descrição de quem joga sem bandeletes nem cristas, sem gel nem pose, nem ginga nem nada. Fi-lo como merece, por retratá-lo tão fidedignamente, o estilo como se desembaraça dos adversários e percebe o que tem pela frente. Do corte ao passe, da simplicidade à abnegação, da finta ao golo. É ele quem faz o meio-campo do Benfica existir outra vez. Porque é mais que um simples médio defensivo. É um médio defensivo de construção criativo e marcador de golos. Estava escondido no banco da Luz e só enganava (como me enganou a mim…) porque não pôde provar-nos errados antes. Juízo precipitado, enfio o barrete eu também.

Enfiado que está ao italiano dos ingleses o barrete espanhol, o melhor ficou para contar em sérvio como se domina um meio-campo com categoria cá em Portugal. Serve para nos avisar que as verdades que damos como impossíveis de desconstruir afinal sempre são capazes de esconder verdadeiros mitos em vez. O Javi essencial deu lugar a um sérvio três vezes ele: mais critério, mais posse, mais visão. A inquestionável titularidade do espanhol na Luz foi a prova de que o que parece bom pode sempre esconder algo melhor. Matic é essa prova.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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