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AUTOCARRO

Chegou esse dia Pedro. A polissemia metafórica do «autocarro» é um recurso estilístico de pouca envergadura estilosa. No fundo diria que não passa disso mesmo: de um recurso – o último. Tu estacionaste-o em segunda fila, na Luz, fazendo orelhas moucas às buzinadelas do perigo que te rondou o lugar reservado. «Saber defender bem também é uma arte», retorquiste tu, Pedro estilístico, agora na arte de dissimular. É sim Pedro – quando se ataca. Daí que a política, como o futebol, deva ser feita de brio, coragem, risco e frontalidade. Porquê, perguntas? Porque a arte é fugidia e esvai-se como a água se vai por entre os dedos da sede: há que domá-la no limbo da intenção, porque a magia com que nos reproduzimos na arte é selvagem, assim como o risco da bravura, próprio de quem se assume ambicioso. A alma da arte tanto glorifica como faz carpir: é esse o desafio que se esconde por detrás da vontade. E tu, tão Seguro, negaste-te a esse aventureirismo. Acabaste por corar de raiva. Minuto 95, grande penalidade, Lima faz ponto final. Nem morte nem glória, nem risco nem chance. Nem jogo nem história. Seguro reincide contigo. Num campo tão inclinado ao contra-ataque oposicionista, mastiga as farpas e refreia o ímpeto, calcula a queda sem nunca ter provado a vertigem. Quem tem medo alimenta a fome de o ter ainda mais. Uma barriga cheia de nada.

Na conferência vi-te frustrado, houve quem balbuciasse, indignado, que o treinador rival teria dito que a tua equipa não jogava um baralho. Pois não Pedro. Juntar a malta toda dentro da área é uma coisa, ser o United é outra – tal táctica não significa necessariamente que o amontoado defensivo se torne United por si só. É preciso arriscar porque jogar e competir só se perfaz se atentarmos contra a nulidade, e convenhamos Pedro, para nulidade já basta o placard inicial. Anti-jogo não é só queimar cartuchos com o compasso do relógio a favor: também é empatar. É defender algo que não foi obtido sequer. Jogar pelo Seguro é um paradoxo – «jogar» é arriscar, «Seguro» é um adjectivo que pressupõe um caso «onde não há perigo» ou em que se está «bloqueado». Todos os outros significados de Seguro não interessam. Porquê, perguntas? Porque estamos a falar na arte das coisas, e aí, como a vida tão apaixonadamente nos vai demonstrando, significados como «dado como certo» não entram no vocabulário dos seus destinos turísticos. É urgente afrontar, dizer a verdade mesmo que vá doendo, mesmo que a populaça brade ou que a bola beije a nossa rede por uma ou outra vez. Ou três. É preciso despir o fato e envergar o facto, mesmo que o passado possa envergonhar. Porque ser oposição digna implica atacar com muitos, argumentos. Sem medo. A polissemia metafórica do «autocarro» vai resultando até nos apercebermos que não houve resultado nenhum. Promessas cheias de nada, desgoverno à vista. Seguro e previsível, como tu foste Pedro.

CHICOTADA

Abrindo o jogo abres a probabilidade ao desbarato da mal-afamada sorte. Quem não vive também não sente a morte. Recapitulo-te: ter medo da sorte dá azar. A chicotada era previsível, haverá quem diga um dia que a tua equipa, detentora da taça cá do burgo, se remeteu a jogar pouco mais que um baralho. Quando esse tal dia chegar, far-te-ei um périplo pelos malefícios obstinados de se ser Seguro. Há significâncias de «Seguro» que não servem para aqui; e outras que, por serem tão dúbias, deixam demasiados vazios por preencher – não deixes que falem por ti, que te palavreiem os teus balões de diálogo, nem sejas o último a ter uma palavra a dizer. Estar tão Seguro de si a ponto de reagir em último à chicotada do Primeiro-Ministro é desperdiçar terreno para o contra-ataque furtivo, nas alas «para que te quero». Tanto argumento por escalpelizar, tanta vitória por arrancar aos ferros farpados desta democracia mal parida…E tu tão Seguro disto tudo.

Eu não estaria, se te pudesse ser bom. A ti e a eles. Eu atacava para não perder: poderia sair derrotado, mas pontapeava o marasmo tirano do sonambulismo idealista que se enublou sobre a nossa outrora causa nobre. Porque chicotada após chicotada, há menos tempo para virar o placard dos empatas: o presente engoliu o futuro. São eles que jogam como tu Pedro, no anti-jogo da retórica unívoca, vexatória e racionalmente fanatizada. Cortes e cortes e mais cortes, bola para canto, simulações de números falsos e resultados que se empatam e se anulam ainda o mandato vai a meio. United lá atrás, na defesa indefensável do corte com a insensibilidade em riste, bem emparedados na baliza dos verdadeiros propósitos do empobrecimento, qual guarda pretoriana do segredo apolítico. É isto que se faz enquanto se queimam os cartuchos dos Abris cravejados de cravos que o tempo foi mitigando. E assim, com essa postura própria de quem se acha Seguro, tudo resultará em resultado nenhum, pois a plateia do voto não vibra com o fulgor de quem se apaixonou pelas ideias trucidantes da mudança. Elas simplesmente nunca nasceram por ti.  Não sabes mais que o empate, disso podes estar Seguro. E assim não se completam, nem as épocas nem as políticas Pedro.

DRAMATIZAÇÃO

Nos actos narrativos que se seguem, Pedro e Seguro serão os meus álibis, assim como a cadeira de comentador o é para Sócrates, e como a decisão do Tribunal Constitucional foi para Passos. Meios justificativos dos fins. Desculpas e didascálias, onde o guião se desenrola pelo espírito dissimulado e coreografado do jogo político: pérfido, anti-democrático, atentatório das fronteiras constitucionais e delirante no exercício da sua presunção coligada. O jogo político é um anti-jogo de «apolitiquices» onde a dramatização é um subterfúgio dos opressores. A cena em que Passos ofende o Tribunal Constitucional – por este fazer respeitar o texto estruturante da nação – é o expoente máximo da patifaria institucional. Farto de antever este chumbo, o governo tem agora aquilo com que contava: o álibi perfeito para se condoer das interferências externas à sua imaculada governação (quando o país está mergulhado numa espiral recessiva, com um desemprego medonho e uma derrapagem orçamental que contradiz o princípio base da austeridade) e o pretexto ideal para fingir o «espanto» e os ares de «choque» com que reagiu ao chumbo lógico, deixando antever mais austeridade na Saúde, na Educação e na Segurança Social. O ministro supremo dramatizou a trama da responsabilidade alheia, o drama do capote, sacudindo a água fora do mesmo. Afinal, a culpa é do Tribunal Constitucional. Assim, qual deus ex-machina sacado de uma cartola há muito elucubrada, atingimos o clímax da mentira. Os próximos actos adivinham-se, e não se adivinham bons. E o pior de tudo é que, se o Pedro foi corrido por não arriscar, o Seguro morreu de velho.

Pronto, já me desboquei e desvendei a moral da narrativa que o leitor a seguir lerá. E a moral é que não há alternativa. Ao anti-jogo, ao medo, à retranca, à verdade por decreto, à dissimulação cobarde e à resignação dos Seguros. Enquanto nos definharmos na defesa de nada. Sem golos nem ideias, não se passará nunca para além do empate.

 Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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