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Ao longo dos últimos 20 anos, o domínio do Fc Porto no futebol português raramente tem sido perturbado. Sporting e Benfica lutam, temporada após temporada, para fazer frente ao rival do norte, mas as suas tentativas não têm passado disso mesmo.

Falar dos 14 títulos dos dragões neste espaço temporal nem sequer merece ser tema de conversa, tão evidente se torna a supremacia azul e branca. A discussão, sempre mais irascível para os lados da capital, promete eternizar-se porquanto perdure este percurso vitorioso, e só mesmo Benfica e Sporting, e porque não outros, poderão encerrá-la iniciando um novo ciclo no futebol em Portugal, se tudo decorrer “dentro da normalidade”.

Nos entretantos, convém olhar para a questão com olhos de ver: a superioridade do Fc Porto, para além de Pinto da Costa, e de tudo o que a ele surge associado, encontra-se vincada de forma aritmética nos quadros e registos portadores da história. Esquivando-nos de outras variáveis que para o caso não importa analisar, os números que se nos apresentam são claros: Porto é sinónimo de golos.

O ADN  ofensivo dos azuis e brancos já vem de trás e contou, desde sempre, com algumas das moléculas mais letais do futebol português. Fernando Gomes e Domingos Paciência são nomes incontornáveis do historial genético da nossa liga e que ajudam a explicar a liderança portista no ranking de máximos goleadores do campeonato, com 23 avançados. É claro que a eles poderíamos juntar Peyroteo, Eusébio, José Águas, Manuel Fernandes, Nené e outros matadores de Benfica e Sporting que durante anos consecutivos balancearam as redes adversárias.

Mas é do Fc Porto de que falamos, equipa por 14 vezes melhor ataque do campeonato nos últimos 20 anos e por 10 vezes representada pelo bola de prata da competição. Continuamos numa linha puramente aritmética, e uma vez mais os números, abissalmente distantes dos rivais, não nos deixam mentir.

A quantidade exorbitante de remates certeiros dos azuis e brancos devolve-nos por isso a Pinto da Costa e à tão propalada “estrutura” da formação da cidade invicta. Parte deste vendaval ofensivo explica-se pela mesma pontaria negocial que aquela revelada em campo, sobre quatro linhas. No Dragão, ou antes no velhinho Estádio das Antas, jazem nos anais os nomes dos melhores pontas-de-lança do campeonato português dos últimos anos. Pese embora algumas “lêndeas” apanhadas pelo caminho, Pinto da Costa, e agora Antero Henrique, revelaram sempre uma enorme frieza na hora de encostar o esférico e trazer avançados com faro de golo para o Porto.

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Jardel foi um terror para as defesas durante anos a fio.

“Tu querias perceber os pássaros/ Voar como o Jardel sobre os centrais (…)/ Agora diz-me o que aprendeste/ De tanto saltar muros e fronteiras/ Olha p’ra mim e vê como cresceste/ Com a força bruta das trepadeiras”. Os versos, de Carlos Tê, dão corpo à música de Rui Veloso que personifica com elegância o estilo letal do antigo número 16 de Fc Porto e Sporting. O “Supermário”, máximo goleador nacional durante anos a fio, com 129 golos marcados no campeonato ao serviço dos azuis e brancos, era uma autêntica ave de rapina temida pela sua actuação implacável em frente às balizas adversárias: faminto de golos, mortífero pelos ares e com uma visão de longo alcance. A sua impulsão fazia-o chegar às bolas mais improváveis do jogo, tornando-o protagonista no trampolim de golos que era para si a pequena área. Posicional, fixo, estanque, Jardel era mesmo assim e fazia dos seus defeitos virtudes, sendo tremendamente eficaz naquele raio de acção. O “pássaro que voava sobre os centrais”, natural de Fortaleza, foi determinante na conquista do penta pelo Fc Porto e depois no título de 2001/2002 do Sporting, onde formou dupla com o “pai” João Pinto. Os golos marcados no Estádio das Antas ao longo de quatro épocas tornaram-no num dos melhores marcadores de sempre da história do clube.

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Força, técnica e explosão de Benni Mccarhty: tudo o que Mourinho gosta de ver num avançado.

Depois de Jardel, talvez o primeiro grande achado goleador de Pinto da Costa, o melhor aluno da escola de pontas-de-lança portistas seria Benni Mccarhty, o sul-africano vindo do Celta de Vigo que viria a despontar pela mão do inevitável José Mourinho. Robusto, muito forte fisicamente e com uma técnica assinalável, Mccarthy era um avançado completo que gostava de jogar na frente, marcar golos e desgastar os defesas contrários. O estilo, tão do agrado de Mourinho, quase o levou para Stamford Bridge e para a aventura londrina de Special One, mas a contratação de Didier Drogba por parte do Chelsea frustraria as suas intenções e deixá-lo-ia um ano mais no Dragão.  O mesmo temperamento que o levou a ser o melhor marcador da temporada 2003/2004 deixou-o arrefecido e contrariado na cidade do Porto, até sair, já desvalorizado, para o Blackburn Rovers, onde, apesar da boa primeira época, não conseguiu o tão ambicionado salto para um grande da Premier League.

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A raça e o “sangue na guelra” de Lisandro López, tão típicos do jogador argentino.

Após a saída de Mourinho para o Chelsea, já depois da época dourada de 2003/2004, com a conquista da Champions, viveu-se uma verdadeira revolução no plantel azul e branco, com camiões de jogadores a chegarem à cidade invicta. Numa dessas mercadorias chegou Lisandro López, um jovem avançado argentino contratado ao Racing de Avellaneda. Irrequieto, ágil e lutador, “Licha” começou por desequilibrar nas faixas laterais do ataque portista, através da sua técnica e velocidade que em todos os jogos ajudavam a desbaratar as defesas opositoras. Apesar de duas primeiras temporadas de bom nível, seria no seu terceiro ano com a camisola dos dragões que a promessa argentina, entretanto reconvertida em ponta-de-lança por Jesualdo Ferreira, viria a revelar a sua veia goleadora, com 24 tentos marcados em 2007/2008. Extremamente móvel e combativo, Lisandro era (e é)  o típico avançado argentino lutador que os adeptos tanto apreciam. Ser servido por Lucho González e Ricardo Quaresma, no auge das suas carreiras, também ajudou.

O apetite do Fc Porto pelo mercado sul-americano de matadores, depois da saída de Lisandro para o O.Lyon, continuaria a ser aguçado pelo despontar de grandes craques naquele continente, e que alguns dos mais de “250 olheiros” que os dragões têm espalhados pelo mundo inteiro, segundo Antero Henrique, nunca deixaram perder de vista.

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Radamel Falcao, o melhor ponta-de-lança da actualidade, jogou no Fc Porto.

A par da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, o Fc Porto abriu as suas portas ao mercado colombiano e viu chegar um dos melhores goleadores de sempre a exibir-se no Estádio do Dragão. O craque, hoje estrela-maior da elite futebolística internacional, assina no BI sob Radamel Falcao, e só o seu nome poderia bastar para que nada mais se dele dissesse. Falcao chegou ao Fc Porto “já” com 24 anos, depois de ter sido dado como certo no Benfica por praticamente toda a imprensa desportiva. Acumulou golos ao serviço do River Plate e até hoje está para se perceber como nenhum tubarão europeu deu por ele. Quando deram, “El tigre” já valia 40 milhões de euros, valor que o Atlético de Madrid se dispôs a pagar para substituir Kun Agüero. Falcao nunca chegou a ser melhor marcador no campeonato português, tendo sido suplantado por Óscar Cardozo na sua época mais produtiva, com 25 golos, mas as oportunidades concretizadas na gloriosa temporada de 2010/2011, sobretudo na caminhada triunfal até à final europeia de Dublin com o Sp.Braga, mostraram o calibre do goleador que André Villas-Boas tinha nas suas mãos. Com uma capacidade de movimentação e desequilíbrio impressionantes, Falcao tem no seu brutal jogo aéreo e cabeceamento a principal ameaça. Os pés também não o deixam ficar mal, antes pelo contrário, e manejam o seu rápido raciocínio que o torna no pivot atacante que qualquer equipa gostaria de ter. Por fim o forte remate, tanto dentro como fora da área, fazem dele o melhor ponta-de-lança da actualidade.

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“El cha cha cha” chegou, viu e venceu.

O vazio deixado por “El Tigre” voltou a preocupar os corações dos adeptos portistas, mas a verdade é que uma vez mais, depois de alguns erros de casting pelo caminho, o Fc Porto voltou a acertar. O joker de Pinto da Costa, também desta vez, voltou a vir da Colômbia, e é o actual melhor marcador da Liga Zon Sagres, com 23 golos. O ponta-de-lança, que tem nome de actor de cinema e cara de faraó egípcio, está a ter uma época de estreia de sonho, posicionando-se na frente dos melhores marcadores em Portugal com uma larga vantagem para os concorrentes. O “cha cha cha” de Jackson Martínez seduziu desde logo os exigentes seguidores  azuis e brancos, que aquando da sua chegada não pensavam noutro 9 que não Falcao. A verdade é que em meia dúzia de meses o ponta-de-lança colombiano já marcou golos de toda a espécie e com a categoria e a elegância dos melhores. Exímio a jogar de costas para a baliza, Jackson faz-se valer da sua forte compleição física (1.88 cm), registando um domínio de bola que lhe permite manter a posse e raramente perder um lance por antecipação. Ao excelente jogo de cabeça alia uma velocidade de certa forma surpreendente, deambulando por toda a frente de ataque sem se fixar a tempo inteiro no centro do triângulo ofensivo do Fc Porto. Ainda assim é na pequena área que Jackson Martínez faz a diferença, sendo absolutamente mortal nas oportunidades que em cada jogo tem para marcar. Se na primeira época em Portugal o avançado contratado ao Jaguares, do México, por 9 milhões de euros, está a ser capaz de atingir estes números, imagine-se o que poderá fazer na próxima temporada, se a Juventus ou qualquer outro colosso não o resgatar para fora da cidade do Porto.

Mas mesmo que isso aconteça, nos corredores do Dragão é para o lado que Pinto da Costa e Antero Henrique dormem melhor. A injecção de capital nos cofres azuis e brancos é oportunidade que nenhum clube português pode desdenhar, ainda para mais o Fc Porto, que na sua órbita terá já outros avançados espalhados pelo mundo prontos a explodir num ataque em permanente ebulição de há 20 anos para cá. Adrianos, Brunos Moraes, Marc Jankos e Klébers continuarão a ser meros cromos prontos a divertir as plateias rivais de Benfica e Sporting. O faro para o golo, tão frequente no Dragão, valerá sempre mais do que todos os flops juntos que Pinto da Costa já contratou.

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

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One thought on “O faro azul e branco

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