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Há imagens que não se esquecem, que insistem em permanecer na nossa memória mesmo que não queiramos. Momentos entristecedores, comoventes, capazes de provocar em nós um sentimento misto de revolta e pena que nos toca o espírito e que desde logo tentamos esquecer, quase sempre sem sucesso. Por mais incrível que possa parecer, um destes memoráveis instantes insurgiu-se diante dos meus olhos no decorrer da transmissão do último FC Porto vs SC Braga, realizado na passada segunda-feira para a Liga Zon Sagres. O clube do Dragão perdia por 0-1 e parecia incapaz de dar a volta ao resultado, quando a realização foca num plano apertado a figura de Liedson, sentado no banco de suplentes e envolvido num blusão desproporcional à sua magreza, com uma expressão facial triste, resignada, quase a fazer beicinho, como quem transmite para o exterior um silencioso e esganiçado pedido, semelhante àqueloutro tantas vezes repetido no metropolitano lisboeta: “tenham a bondade de me auxiliar”.

É verdade, meu caro Liedson, quem te viu e quem te vê. Durante sete anos deste inúmeras alegrias ao meu clube, muito me fizeste gritar com os teus golos impossíveis que iam sendo a salvação de um Sporting que já nessa altura se arrastava. Estive em Alvalade no teu último jogo, aquele em que te despediste em lágrimas daqueles que sempre te idolatraram e tudo te perdoaram, e nem quis acreditar que realmente estavas de saída. Mas o destino tem destas coisas, Liedson, e a vida é feita de opções. Tu fizeste as tuas e acabaste por regressar a Portugal mas para aquela equipa do norte, já depois do Flamengo ter percebido que não valias os 140 mil euros mensais que te pagavam de ordenado. Vieste à procura do Campeonato Nacional que nunca conquistaste em Alvalade e preferiste despertar o ódio dos sportinguistas ao dizeres que jogar no Porto já era “um sonho antigo”, mas agora a escolha já não é tua. Estás relegado à humilhante condição de suplente inutilizado numa equipa que apenas possui um ponta-de-lança, e até putos sem provas dadas no futebol como Sebás e Kelvins te ultrapassam na lista de preferências de um Vítor Pereira que reflecte nas suas opções técnicas a tua já evidente incapacidade e decadência. Ao que tu chegaste, Liedson.

Mas como se não bastasse, tu próprio contribuis para a tua auto-humilhação pública. Vens agora pedir uma indemnização de um milhão de euros a uma seguradora por uma alegada incapacidade de 23% no joelho esquerdo, decorrente de uma operação realizada em 2009. Explica-me, Liedson, como pode um jogador de futebol exercer a sua actividade profissional sendo portador de tal insuficiência física? Não percebes que com esta atitude estás a colocar em causa a competência dos departamentos médicos dos três clubes por que já passaste depois do Sporting? A vida é feita de escolhas, Liedson, e se essa incapacidade realmente existe tu no momento imediato em que esse diagnóstico te foi apontado só tinhas que optar por uma de duas alternativas: ou terminavas a carreira e solicitavas a tal compensação financeira, ou continuavas a jogar e esquecias a questão de vez. Mas depois de teres jogado mais 4 épocas a receber centenas de milhares de euros por ano vires mendigar mais um milhão por suposta justa-causa só te transforma num anedótico pedinchão que anda por todos os cantos a ver onde pode pingar mais uma esmola, mais uma ajudinha que componha o pé-de-meia para a reforma que se avizinha, quando de facto já nem justificas o ordenado que o Porto te paga.

Para qualquer situação do dia-a-dia e em qualquer profissão ou actividade, mais vale sair cedo e em graça do que tarde e desgraçado. Tu não tiveste consciência deste timming, Liedson, e agora já é tarde demais. O Liedshow há muito abriu falência e neste momento Levezinho será o apreço que os adeptos dos clubes por onde passaste têm por ti. Os do Sporting desprezam-te, o carinho que os Corinthianos nutriam por ti ficou ferido com a tua mudança para o Flamengo, no Mengão pouco fizeste e desde logo te transformaste num insuportável encargo financeiro, e a imagem que os portistas terão de ti será apenas a de um veterano que chegou cheio de promessas mas que já não era capaz de jogar futebol. Até pode acontecer um milagre, até podes vir a marcar um golo e, quem sabe, o Porto até pode vir a conquistar o título de campeão; mas não te iludas, mesmo que isso aconteça não será com certeza por mérito teu.

O tapete vermelho que te foi sendo estendido ao longo de toda a tua carreira e que até te levou à Selecção Nacional está nos últimos metros, nos últimos dias. Cada um pauta o seu destino e tu, Liedson, não tiveste a dignidade de todos aqueles invisuais que por condição natural ou puro infortúnio se mantêm firmes na luta por umas moedas pretas numa qualquer carruagem de Metro da cidade de Lisboa, dia após dia. Ao contrário deles, a tua expressão facial já não sensibiliza ninguém: ela soa a mentira, a cinismo, a hipocrisia, e um dia, Liedson, ninguém mais terá a bondade de te auxiliar.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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5 thoughts on ““Tenham a bondade de me auxiliar”

  1. Infelizmente é a mais pura das verdades, sinto traição pelas lagrimas que chorei aquando da saida do Liedson, mas as escolhas foram efectivamente dele preferiu o dinheiro não o posso censurar, só o posso ter como um mercenário, mais um….

  2. Belo artigo! Por acaso fui daqueles que não chorou no momento da partida do Liedson. Sempre fui daqueles que acham que os jogadores passam e o clube fica! Ele e outros acabam quase todos por comprovar isso mesmo…

  3. Liedson é, e será sempre, uma legenda do Sporting, como o foram outros goleadores do passado desde Yazalde, jordão, Manuel Fernandes ou Acosta, e nem a sua situação profissional actual e algumas declarações menos felizes poderão escamoteá-lo,
    E, além do mais, foi há duas épocas atrás o sacrificado, como único activo vendável (ao preço da chuva), para que o Sporting, seu clube, pudesse pagar os salários dos restantes jogadores, por decisão recorde-se, de mais um da meia dúzia de presidentes incompetentes, que depois de João Rocha, levaram o nosso clube quase à insolvência. Obrigado Liedson por tudo o que deste ao Sporting durante anos, sem nunca teres demonstrado uma grande vontade de sair para outros voos, quando tinhas então, há 4 ou 5 anos atrás, um elevado nível de rendimento.

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