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1995-1996 (0)Compor o melhor onze do Benfica das últimas décadas é mais do que destacar bons futebolistas, salientar vantagens individuais ou enaltecer carreiras pessoais. Eleger onze jogadores, das centenas de profissionais que atravessaram o clube nos últimos vinte anos, é olhar, de forma apaixonada, para o meu clube e para a sua vida enquanto instituição. É depositar num restrito número de indivíduos a minha memória benfiquista e projectar neles as melhores vivências que o Benfica me proporcionou. E isso não é comprado por um passe do Jorge Mendes ou por uma transferência choruda para um clube considerado profissionalmente superior. O que pretendo com isto dizer, é que a minha escolha não reside em nomes e em números, mas na entrega do jogador a uma colectividade em que encontro a fé, que a religião não me oferece.

Como mulher, a minha educação não se cruzou com a incitação ao gosto pelo Futebol ou, muito menos, com a fidelização a um clube. Como expectável, as chuteiras foram substituídas por bonecas. O Benfica era o clube do meu pai, o que me tornava, naturalmente, benfiquista, por afinidade familiar. Desta forma, posso dizer que eu escolhi, racionalmente, gostar do encarnado. Já crescidinha, percebi como me fascinava o futebol e como me entusiasmava a pertença a algo maior, algo como o Benfica.

E isso não aconteceu há vinte anos. Aconteceu há pouco menos. Mas, como fazem questão de me lembrar as minhas amizades leoninas, a RTP Memória tem sido uma das minhas aliadas, na construção mental e bíblica da minha memória benfiquista. Não porque quero ser uma cientista do futebol (o equivalente feminino de Rui Santos), mas porque percebo que o meu entusiasmo com camisolas de águia ao peito é transversal a épocas futebolísticas.

Elucidados que deverão estar do meu historial enquanto adepta encarnada, passo a apresentar-vos as minhas escolhas em campo, para apresentação do melhor Benfica das últimas vinte temporadas (1992/1993 – 2012/2013).

Sendo o Benfica um clube de tradição, é no clássico 4 x 4 x2 que as estrelas entram na Luz. Deixando de lado os losangos de Fernando Santos, entrego-me, pois, ao classicismo de uma boa táctica. Quatro “Senhores” desfilam no meio-campo, suportados por uma defesa com cheiro a samba e um gigante belga na baliza. O objectivo: deixar o ataque nacional facturar o golo.

luisao1Michel Preud’homme é o número 1 desta equipa. Talvez a escolha mais consensual, o belga formado no Standard de Liège, e que devemos a Manuel Damásio, é o guarda-redes da história recente do Benfica. Superadas as inibições por ser o primeiro guardião estrangeiro na Luz, provou que a segurança na defesa encarnada poderia ser importada. Fica a tristeza por apenas ter carregado uma Taça de Portugal e por ter sido substituído pelo gigante desajeitado Bossio. Fica a alegria por ter sido acarinhado pela massa associativa, que se despediu numa ovação. Penso que até hoje fica por entregar, de forma honrosa, a camisola número 1. Artur tenta, de forma eficaz, provar que merece guardar as mesmas redes. Moreira fica, na minha história, como uma simpática promessa, que poderia ter sido consensual, não fosse o departamento médico do Benfica e os 4-1 que sofreu em Belém a ditarem-lhe o afastamento da titularidade.

MozerBenficaA verruga de Maxi Pereira acompanha o batuque do samba brasileiro, com Luisão, Mozer e Leo, a compor o quarteto defensivo. Maxi, que mora na luz desde 2007, pelo custo de 3 milhões de Euros, honra a posição de lateral-direito ao histórico Veloso, que se senta no banco pelo cansaço de épocas anteriores. Até encontrarmos a solidez de Maxi, sofremos com os remendos nesta posição. Luisão já mora na luz há dez épocas, sendo impossível falar no Benfica dos últimos anos sem imaginar o gigante central. Que eu colocaria de braço dado a Mozer, que defendeu no Benfica por duas vezes, porque o bom filho a casa retorna, e os adeptos agradecem. Para completar de forma eficaz, apresento Leo no lado esquerdo, fruto do Benfica de Koeman, a roubar o lugar a Fábio Coentrão, o ex-pupilo de Jorge Jesus. Ficam de fora, mas honrados, David Luiz e Ricardo Rocha, para entrar num segundo tempo.

00012No meio campo, chega-nos a solidez bruta. À direita, o inigualável Karel Poborsky, pronto a percorrer o corredor, num brilhante lance ofensivo. Mora também no meio, Paulo Sousa, com hipóteses de recuo, para as costas da estrela do plantel: Rui Costa, o ainda insubstituível camisola “10”. Paulo Sousa é antecessor do que assistimos actualmente em Matic, no que toca à organização de jogo num espaço recuado do campo, capaz de se entrosar com a visão de Rui Costa, pronto para abrir, magicamente, novas linhas de passe. A ala esquerda será experimentada por Simão, capaz de tornar eficaz a marcação de livres e cantos, como não voltou a acontecer desde que saiu da Luz. Deixo na reserva, a força de Petit, as pernas de Miguel, o sucesso de Vítor Paneira ou a esperança Di Maria, para venda no final da época e encaixe financeiro na Luz.

FBL-POR-SPORTING CP-SL BENFICAO ataque deste Benfica tem sangue luso e é partilhado por João Vieira Pinto e Nuno Gomes. Cedo ao primeiro a oportunidade de continuar na Luz, que Jupp Heynckes lhe negou, e honro ao segundo a sua primeira incursão sedutora de “camisola berrante”, bem como o seu regresso, esforçado mas ineficaz, anos mais tarde. Capazes de marcar, mas também de se assistir mutuamente, os meninos de ouro esperam a oportunidade de tento pelos corredores de Poborsky e Simão e pela distribuição estudada, e com classe, de Rui Costa. Descanso o ataque sul-americano de Isaías ou Tacuara Cardozo, o par de jogadores mais eficaz dos últimos vinte anos, mas nos quais continuo a não confiar, por não fazerem jogo bonito.

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rui-costa-parabens-40-anosO maestro deste elenco é, de facto, Rui Costa, mas a batuta marca o compasso pela mão de Jorge Jesus. Penso que as grandes relações no Benfica se constroem na dicotomia amor/ódio, sendo, muitas das vezes, o elemento mais criticado pelos adeptos, aquele de quem estes mais precisam, para manter viva a “chama imensa”. Nas três épocas em que masca pastilha, de forma grosseira e sem preconceitos, Jesus já esteve demasiadas vezes na mira dos associados encarnados, face a escolhas tácticas, que se mostraram inglórias nos embates decisivos da equipa. Contudo, o técnico impõe a famosa força anímica, que as composições antecessoras não revelavam. A melodia é outra, de ritmo confiante e partitura estudada.

Em duas décadas, o Benfica foi orquestrado por dezoito personalidades distintas, investidas das vestes de treinador. Dezoito treinadores em vinte anos. Alex Ferguson mandará gargalhadas sobre este rol. Seguindo uma ordem cronológica, Ivic, Toni, Artur Jorge, Mario Wilson, Paulo Autuori, Manuel José, Graeme Souness, Shéu Han, Jupp Heynckes, José Mourinho, Jesualdo, Camacho, Trapattoni, Koeman, Fernando Santos, Chalana, Quique Flores e Jorge Jesus, desfilaram com a braçadeira. Destes, apenas Souness e Camacho se sentaram no banco por duas épocas consecutivas. Toni fez duas incursões, separadas por um interregno de quase uma década; Mario Wilson também, num intervalo bem menor, de apenas ano e meio. O espanhol Camacho também aqui se repete: sentou-se no banco encarnado em dois períodos diferentes. Só Jorge Jesus ordena há três.

O treinador é português e, ao contrário do que se verifica no panorama actual, o melhor Benfica dos últimos anos também apresenta uma mão cheia de atletas nacionais. Não se trata de uma escolha propositada, mas é, certamente, mais do que tem apresentado nos últimos tempos. Embora não seja uma defensora de que os clubes devem resistir a jogadores estrangeiros em prol de jogadores portugueses, não posso deixar de constatar que nos últimos anos foram produzidos vários talentos lusos, capazes de me incutir a paixão Futebol, a paixão Benfica.

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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