Home

564215_10151380013752175_1702738810_n

Sérgio Baptista Gomes, de baptismo. Patrão ou Dom Sérgio por direito. Leão de juba branca, da sabedoria dos seus 71 anos, percorreu muitas savanas, em busca de presas, na sua Angola natal.

Esta virilidade felina rendeu lhe 9 leõezinhos (que se saiba): «Sabes filho, nesse tempo não havia televisão». Se em Angola, nos anos 60, houvesse a Praça da Alegria ou o Programa da Júlia, a taxa da natalidade seria muito mais baixa. Uma política que sugiro ao governo chinês e do Níger.

Desde criança que fala fluentemente o Kimbundu, dialecto local, dos seus conterrâneos. Inclusive, já aprendi algumas palavras: Matumbo (espécie de rafeiro, boçal) e Uátopa (burro). Elogios que normalmente o Patrão me dispensa, injustamente, como daquela vez em que aqueci um ovo cozido no micro-ondas (imaginem o que se sucedeu) ou quando um ciclista se quis pôr debaixo do jipe, que curiosamente, era conduzido por este autor…

Dom Sérgio saiu de casa aos 13 anos para lutar pela vida. Formou-se em carpintaria, mas depois fez de tudo: foi peixeiro, merceeiro, empregado de modas, gerente duma fábrica de sabão, escriturário, vendedor de bicicletas, garçom, comercial de tabaco, funcionário de posto de gasolina, caixeiro-viajante e a mais longa das suas profissões, camionista. Foram mais de 40 anos de trabalho, afectos e histórias.

Rezam as crónicas que um dia comeu 105 pastéis de nata. O seu parceiro de «enfardanço» outros 95. No fim deste snack, o dono da pastelaria, surpreendentemente, não lhes cobrou nada: «Vão-se embora e nunca mais cá ponham os pés!». Anos mais tarde, graças à fama da primeira história, foi desafiado a comer todos os 8 pastéis de nata de um café (após um farto almoço), aposta que venceu com brio e lhe valeu uma semana de almoços grátis. Estas histórias ajudam a explicar a minha apetência familiar por bolos e os diabetes do meu avô.

Refiro-me ao Dom Sérgio desta forma, porque é a designação de respeito que um líder merece. Quando se senta para comer diz: «pão!» e ele surge. Bate o copo na mesa e este de forma mística enche-se de água. Quando há assuntos urgentes, o Patrão brada por um dos descendentes. Já vi um tio fazer os 300 metros (a subir escadas e a esquivar-se de obstáculos) mais rápido que o Bolt. Assim que chega à beira do líder (sentado na sua poltrona presidencial), o subordinado exausto e suado, recebe a sua premente missão: «Milton muda aí de canal». Há problemas que necessitam de acções imediatas.

O vozeirão do Patrão serve também para passar a mística Sportinguista aos netos. Uma delas, parece um coelho a saltar, sempre que ouve a palavra: «Spooooorting». Já os vizinhos, juntam-se à porta de casa, para espreitar. Pensam que há fogo e que estamos a pedir socorro.

O meu avô é Salazarista (em Angola, o ditador, não chateava, então estava tudo bem), acha que só alguém de pulso firme, como o Capitão Roby do Vimieiro, dava a volta à crise. Não gosta de comunistas: «Porque é que vou dividir aquilo que me custa a ganhar com os outros?». De qualquer forma, mantendo a sua ideologia política (inexplicável), este ano vota no PCP, «não sou comunista, nunca votei neles, mas estes parece que são os únicos que cumprem aquilo que defendem».  Em relação à educação, Dom defende o diálogo. Se este não for proveitoso, pêra neles. Um dia passeava-se pela ruas da metrópole, Quinta do Conde, quando avistou um jovem a insinuar-se e a fazer gestos obscenos a uma idosa. Pediu-lhe que a respeitasse e foi classificado como filho de moça com leve aderência à beira de estrada. Resolveu o problema com dois sopapos no prevaricador.

Anos mais tarde, estava num café quando foi abordado por um homem: «Sr. Sérgio, lembra-se de mim? O senhor agrediu-me há uns anos e eu agradeço-lhe por isso! Eu era um rufia e você pôs-me no caminho certo. Aqueles murros mudaram a minha vida». O Patrão ripostou: «Não tem de quê, disponha amigo». Desde aí  usa este exemplo para defender que as pessoas só aprendem depois de chapadões nos olhos: «Tás a ver filho, funciona!». Só com ele, mesmo. Da última vez que dei uns bananos a alguém, quase fui processado, fiquei com fama de gladiador e recebi a promessa de que seria furado com garafa ou chacinado por um avião cheio de cabo-verdianos.

O Patrão é um homem brincalhão e bem-disposto mas também rezingão, com fortes laivos de nervosismo, pouca paciência e teimosia (óptimas características que passou a quase todos os seus discípulos). O contraste com a calma e serenidade da companheira de vida, a doce Mindinha.

Como todo pensador social, Dom Sérgio, tem opiniões importantes.

patrao 3Vejamos então o que o Patrão pensa da homossexualidade: «isso é um doençaaaaa!»

E acerca da homossexualidade, metrossexualidade, transsexualidade, bissexualidade, e tudo o que lhe lembre bichanices: «Epá, eu não sou contra ninguém e não tenha nada a ver com isso. Mas deixem- se de poucas vergonhas! Porque é que não fazem como o filho do Nené? Operem- se pá!». Espero que o Patrão, não siga este caminho, já há mulheres que cheguem na família. O Júlio César com certeza não iria aprovar esta medida. O que faria ele à sua parceira de sempre, a querida Belle Dominique?

Os croquetes que faliram o seu Sporting tinham boa solução: «Tudo preso para o Alentejo, para lavrar a terra e se não trabalharem em condições, chicotada no lombo». Parece que estou a ver o José Eduardo Bettencourt ou o Godinho Lopes, nos seus fatos brancos e calças cremes, com os óculos estilo pedófilo e lenços de seda nos blazers, a sujar os sapatos cor de caju enquanto pegam numa enxada.

Os jogadores quando fizerem corpo mole ou faltarem ao respeito aos líderes merecem o mesmo tratamento. O ídolo do Patrão é, obviamente, o Sá Pinto: «Alguma, o Levezinho lhe fez. Esses brasileiros são uns manhosos. Se levou, foi porque merecia!». Concordo.

A sua capacidade negocial (nunca vi ninguém regatear tanto com os ciganos da feira) seria importante para adquirir jogadores baratos para o clube de Alvalade. Apesar de ser leão, Dom Sérgio cria outros animais. Tem um gigantesco arsenal de coelhos, cães e gatos. Antigamente eram porcos, com nomes dos netos e filhos. Quando andam na linha, o tratamento é vip. Matateu, o coelho reprodutor, tem um «lounge» privado, onde recebe as damas para procriar. Um exemplo de trabalho bem feito e recompensado. Se trabalhasse mal ia para a panela. Se fosse gato tomava um banho de creolina ou no caso dos cães, ganhava asas e voava do segundo andar. Ao  contrário do Estádio do Bessa, o crime lá em em casa não compensa.

O Patrão não gosta de comer na rua, «faz-me mal ao estômago». É um caseiro invertebrado, que só come comida portuguesa, ou angolana. Não o convide para ir ao McDonald’s ou ao chinês: “Vai tu! Isso é comida de cão!”. As pizzas também se enquadram neste quesito.

patrao 2

No seio familiar, a amizade, o amor e carinho pela figura do chefe, são os sentimentos que perduram. Em relação aos netos, a galhofa é total. Mas sempre com muito respeito. Nada de chamar retornado ao Patrão: «Retornado é o Álvaro Cunhal e o ladrão do Mário Soares. Como é que vou retornar para um sítio onde nunca fui? Esse Soares é o maior ladrão deste país. É uma vergonha ter mais de uma reforma, depois de ter enchido os bolsos como encheu com a descolonização de Angola.» Acerca do bochechas, disse mais umas coisas  carinhosas que não posso reproduzir.

O Patrão como bom branco de segunda, é um defensor acérrimo de Angola e da sua Nova Lisboa (Huambo) natal. Lá tudo era melhor, o clima, a comida, as pessoas, a terra…

Fala do seu tempo com a saudade de uma região que já só existe na mente. Foi obrigado a fugir para salvar a família da morte, deixando tudo aquilo que numa longa vida de trabalho tinha conquistado. Como muitos, deixou contas em bancos, de que nunca viu um tostão. De uma empresa bem sucedida e criada de raiz, trouxe apenas um camião, que foi o ganha-pão que alimentou, com luta e dificuldades, uma (enorme) família inteira. O Estado, o mesmo que não preparou a tal descolonização e que o empurrou para um país que não o queria, mal lhe paga a medicação, com uma triste pensão. Depois de quase meia centena de anos a pagar impostos e a fazer descontos, chegamos à conclusão que a honestidade e o trabalho, em Portugal, não compensam.

Já se passaram 39 anos, esses «retornados» fizeram a vida de novo. Criaram filhos, netos e ajudaram a desenvolver um tacanho País, que hoje como sempre, prefere ignorá-los.

É preferível rir que chorar, daí partilhar as aventuras de um herói anónimo, como muitos africanos que se espalham, com saudade da sua terra, por todo o território nacional.

O que Portugal esquece, a história não apaga. Talvez um dia se faça justiça, o Patrão bem merece.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

SONY DSCBruno Gomes

 

 

Anúncios

8 thoughts on “As coisas que o meu Avô diz

  1. Parabens Bruno pelo bom texto e verdades que nos deixas do nosso tao querido Dom Sergio “O Patrao”.Estava a ler o texto e a ver o tio, muitas saudades!!

  2. As grandes histórias do Sr. Sérgio que eu já conhecia é claro sempre muito fortes hehehe. E como o Sr. Sérgio existem muitos avós por aí que sairam de África mas África não saiu deles e que tiveram que recomeçar a vida e que foram desvalorizados por ser retornados. Felizmente temos muitas histórias de retornados como o teu avô e o grande Sr. Ramiro por exemplo, o meu avô e outros que nos desfazem em gargalhadas pela forma que encaravam e resolviam as coisas. Vamos ter sempre grandes histórias para lembrar sem sombra de dúvidas e ainda hoje é uma alegria ouvir as histórias que tenho a certeza que iremos partilhar sempre não tenho a menor dúvida disso.

  3. ” Quando há assuntos urgentes, o Patrão brada por um dos descendentes. Já vi um tio, fazer os 300 metros (a subir escadas e a esquivar-se de obstáculos) mais rápido que o Bolt. Assim que chega à beira do líder (sentado na sua poltrona presidencial), o subordinado exausto e suado, recebe a sua premente missão: «Milton muda aí de canal». ”

    «Sr. Sérgio, lembra-se de mim? O senhor agrediu me há uns anos e eu agradeço lhe por isso! Eu era um rufia e você pôs-me no caminho certo. Aqueles murros mudaram a minha vida». O Patrão ripostou: «Não tem de quê, disponha amigo».

    Patrão, sem qualquer dúvida. Oficialmente certificado.

  4. Bruno manda um abraço do mulato ao Patrão! Diz-lhe que na próxima vou a casa dele cortar lenha e dar de comer aos coelhos! Valeu Bruno, estas a escrever cada vez melhor! Abraço!

  5. Obrigado a todos. Bjnhs e abraços. O Patrão está muito satisfeito com o seu sucesso instantâneo e está a ponderar entrar num programa tipo Big Brother Famosos ou ter o seu próprio reality show. 🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s