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O jornalismo é uma das profissões mais importantes no nosso mundo democrático, que queremos livre, mundo justo e transparente. Os jornalistas, quando bons, são de extrema valia para a sociedade em que vivemos, dando-nos conhecimento, sendo porta-vozes do mundo livre, peões avançados em defesa da liberdade, dos direitos humanos, da justiça ou, pelo menos, da verdade.

É isso que leva para o jornalismo os estudantes de jornalismo, uma visão romântica do seu ofício, que os coloca vestidos à paisana, de bloco no bolso e caneta na mão, capacete e colete à prova de bala, seguindo uma coluna militar no Iraque, ou de escuta colada ao peito, desmascarando o próximo Watergate, infiltrando-se numa rede de narcotráfico numa floresta colombiana ou numa rede de prostituição no leste europeu.

O problema com o jornalismo (sinónimo aqui, e sempre, dos grandes media) será, talvez, o de mais vezes do que não, acabarem por se confundir com uma organização mafiosa. Pronto, agora que captei a sua atenção – nada como sentirmo-nos ofendidos para tomar mais atenção às letras que se seguem −, explico: o problema com os jornalistas está, em grande parte, na sua incapacidade para reconhecerem que, entre os seus pares, há maus, péssimos profissionais. O problema está em que, quando se diz que um jornalista é mau ou que errou, toda a classe se sentir ofendida e vir, ressabiada do fundo das suas redacções, investir contra quem se atreveu a proferir tal despautério, e é mais ou menos sabido que a coisa há-de redundar nos microfones marulhando sobre a liberdade de imprensa e as pressões sobre os media, que nisso os jornalistas são como aqueles indivíduos negros que acham que tudo é racismo, nomeadamente quando a polícia lhes pede o teste do balão por terem espatifado um carro contra a montra de uma loja, como já vi acontecer. É aí que começa a semelhança com a Máfia, pois que por muito mau que o sobrinho Vinnie seja a disparar um revólver, o padrinho Dom Simeone fará de tudo para que os outros lhe prestem respeito, e não se coibirá de destacar um Joe e um Tommy, ou talvez um Carlo e um Giuseppe, que se assegurem de lhe manter a honra intacta, encomendando e distribuindo paletós de madeira para todos os incautos que em boa hora não se afastem da contenda.

A Máfia, porém, tem um atributo ao qual o jornalismo poderia ir beber: quando um dos seus denigre a imagem do colectivo, ofendendo os seus valores e mutilando a sua reputação, é prontamente posto à margem, de formas mais ou menos violentas. Dispensando-se aqui a violência, o jornalismo deveria ser lesto em fazê-lo. Os jornalistas deveriam ser os primeiros a denunciar as más práticas no seu seio, deveriam ser os vigilantes mais atentos da conformidade das suas acções, e das dos seus pares, com o seu código de ética e livro de estilo, garantias do jornalismo sério e rigoroso mais vezes pelos próprios ignoradas do que não. Porque isso, sim, seria prova da sua honestidade e comprometimento com a verdade, Porque isso, sim, seria honrar e defender a classe, cuja boa actuação e reconhecimento da sociedade por esse bom trabalho deveriam ser o seu bem maior. Mas, hoje, o jornalismo é mais empresa de entretenimento do que serviço de verdade e esclarecimento.

Tartaruga romana. (Neil Carey)

Em Portugal, o jornalismo tem essa tendência a cartelizar-se. Será, talvez, a sua grande proximidade com o poder político, num roçagar de costas e casacos nos estreitos corredores do Parlamento e dos Ministérios edificados em imóveis dos tempos da ditadura, ou resquícios ainda da luta importante contra a censura, que talvez tenham modelado a classe nessa espécie de tartaruga romana, de corpos colados uns aos outros para suster qualquer ataque, vindo de qualquer parte. O problema de uma tal formação, porém, é o de, de olhos semicerrados vendo apenas por entre as frinchas deixadas entre escudos, tudo ser entendido como ataque, e a natureza da formação não colocar os seus soldados senão à defesa, prontos a responder com golpes violentos que os retirem àquela posição de inferioridade.

Depois de o jornalismo ter tido a necessidade de se profissionalizar, para garantir a seriedade e idoneidade do seu trabalho, talvez hoje seja preciso democratizá-lo novamente, para atingir os mesmo fins. A Primavera Árabe e a Crise Financeira trouxeram à superfície uma noção clara, a de que os media (os formais e normalmente considerados) se entretêm, na sua relação amorosa com o poder político que também querem disputar, encenando o debate que se passa no Parlamento e prolongando-o na nossa sala-de-estar; para aceder à informação que interesse, para tentar a compreensão dos acontecimentos, das suas fundações e das estruturas que os sustentam, temos hoje de nos afastar dos slogans dos grandes canais noticiosos, mais interessados em mimetizar a publicidade e vender chavões do que descer às razões por detrás dos acontecimentos e pôr a nu a racionalidade dos eventos, as relações mais ou menos ocultas que formam a teia da realidade. Cada vez mais, a verdade que o honesto jornalismo de investigação, jornalismo em profundidade e rigor, nos pode trazer, chega até nós através de ONGs, blogs de cidadãos e outras iniciativas que os media tentam calar ou minimizar, rotulando-as de activismo, no esforço de garantir a sua leitura como alinhada com determinados movimentos. Claro, para esconder a impiedosa verdade de que eles, sim, o são, no esforço desesperado de manter o seu oligopólio, num selo de qualidade em que cada vez menos parece possível acreditar.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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