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Sentadas nas suas cadeiras com rodinhas já sem rodinhas, de tão velhas que são, e cercadas por uma divisória envidraçada que limita as fronteiras dos seus cubículos, as senhoras dos guichés são uma das espécies mais exóticas que a humanidade já viu nascer. Seja no privado ou no público, seja no Hospital, nos Correios, na Câmara Municipal, nas Finanças, na Segurança Social ou no Metro, onde for, a empregada de guiché é, por norma, complicada e de difícil trato.

                (Se existir alguém, neste mundo, que não se reveja em absoluto nestas palavras, que não esteja em linha com esta corrente de pensamento, que mande o primeiro email. Acredito que a caixa permanecerá vazia, porque a empregada de guiché é mesmo assim, não engana).

Continuando, as senhoras dos guichés fazem parte das nossas vidas e é impossível evitá-las. Primeiro porque elas estão em cada esquina, desde que saímos de casa; e segundo porque precisamos delas e elas sabem disso (e como elas gostam disso…).

372547A empregada de guiché  gosta de sentir que tem poder. Gosta de o exercer, gosta de o demonstrar. Precisa, de resto, que esse mesmo poder lhe seja reconhecido por todos os que dela dependem. Todos nós, portanto. A demonstração de poder começa desde logo no primeiro acto de qualquer serviço de guiché que se preze: o tirar de senha. “Tem que tirar uma senha e esperar que EU o chame” – tudo começa assim. É o primeiro sinal de confrontação, a primeira delimitação de fronteiras, o  prelúdio do diálogo, ou antes monólogo, que ainda estará para vir. Com esta tirada, dita quase sempre de forma seca e seguida de um tradicional “revirar de olhos”, ficamos logo avisados e conscientes sobre quem é que manda ali.

Vezes há em que o painel electrónico das senhas não funciona. Quando assim é, há que levantar a voz e gritar pelos números das pessoas à espera – “fazer a chamada”, na gíria da classe. O problema é quando a chamada é tão baixa que os números vão passando sem que metade das pessoas os consigam ouvir. Passa o 30, passa o 33, passa o 35 e nada. “Minha senhora, peço imensa desculpa mas eu já fiz a chamada. Próximo”. Com esta não há argumento que valha, se calhar a culpa é mesmo nossa, se calhar a culpa é mesmo minha. Ouvidos de tísico? “Pneumologia, piso 3, primeiro corredor à direita”

Se tudo estiver a funcionar dentro da “normalidade”, é esperar pela vez e ser atendido. O mau é que essa é mesmo a pior parte. “Pedir uma informaçãozinha”, que por muito pequenina que seja requer sempre uma senha, pode demorar uma eternidade ou simplesmente nunca chegar a acontecer. O tempo destes “diálogos” é sempre, aliás, uma incógnita: tanto pode demorar 30 minutos como exactos 3 segundos.

“Diga”, é assim que começa. Nada de bons dias nem de boas tardes, que simpatia é coisa que não combina com empregada de guiché. A conversa apressa-se à medida que o documento x, a assinatura y e a fotografia z vão sendo pedidos e entregues. De forma tão rápida e “eficiente” que nem sequer há necessidade de trocar olhares. Os óculos caem invariavelmente sobre o nariz, sustidos por pencas mais ou menos pontiagudas, ou por elásticos e cordéis à moda antiga. As órbitas, quando desviadas da papelada,  cumprem o ritual do “olhar de esguelha” que estas meninas sentadas atrás do balcão tanto gostam de fazer.

Dos adereços e indumentárias das senhoras dos guichés muita coisa haveria para dizer, mas não temos tempo. Podemos, ainda assim, tentar ser objectivos e simplificar. Há dois tipos de empregada de guiché: as jovens e as velhas. As mais novas até podem ser mais aprazíveis mas nem por isso deixam de ser…empregadas de guiché. Gostam de se maquilhar e de “cuidar da imagem”, usar unhas de gel e vestir roupas em tons rosa. Se tiverem até 38 anos, têm , regra geral, o cabelo descolorado a fazer lembrar uma qualquer vendedora de farturas. Como são jovens sentem-se naturalmente à vontade para tratar todos os “miúdos” por tu e usar expressões que normalmente pronunciam nas saídas ao Bairro Alto com os amigos. Os outros são todos corridos ao pontapé com “você” para aqui, “você” para ali. Serve para tudo.

Já as mais velhas adoptam um estilo mais pesado. Embora não descurem a imagem, não carregam tanto na maquillage, como as mais novas. Gostam de usar blusas de lycra e outros materiais de qualidade duvidosa quase sempre com padrões animalescos, tipo pele de leopardo. Não fazem as unhas e já nem estão para se chatear com isso. As mais multifacetadas adoram fazer crochet enquanto fazem o serviço.

Outra das características básicas da empregada de guiché é estar a trabalhar como se estivesse a fazer um favor a alguém, como se estivesse a cumprir uma promessa de uma amiga ou ainda como se estivesse a ser torturada por uma ceita ou grupo mafioso. É como se, depois de uma pergunta sobre o horário de fecho do departamento, por exemplo, tivéssemos de pedir desculpa pela maçada. Ser pouco paciente é, de certeza, um dos requisitos de admissão para trabalhar no lugar destas senhoras.

As mais batidas na profissão conseguem muitas vezes disfarçar a má disposição. São as empregadas-robot que em vez de refilar, suspirar ou revirar os olhos, gostam de responder por cima e mostrar que sabem sempre as respostas às nossas perguntas, mesmo antes de nos deixarem acabar,  respondendo de forma automática por associação a palavras-chave.

Confinadas à realidade burocrática que são as suas vidas, as senhoras dos guichés nada mais conseguem ver à frente do que a lenga lenga que ocupa a rotina de 8 horas dos seus dias. Requerer uma procuração, solicitar uma credencial, assinar e carimbar um recibo, timbrar um documento e fazer uma fotocópia já é automático. Elas já sabem isto de cor, mas nem assim se mostram receptíveis a oferecer informações de qualquer maneira, de mão beijada. Há que sofrer, há que chorar, há que implorar de joelhos no chão.

Sobretudo os mais idosos vêem-se vezes sem conta vergados a esta postura despótica das empregadas dos guichés, que adoram fingir ter paciência para os mais velhos e tratá-los como se fossem atrasados mentais. Às bocas e informações que procurem uma vez mais demonstrar o seu poder, segue-se um sorrisinho cínico e um desabafo sussurrado que a surdez, própria da terceira idade, não deixa ouvir. “Dai-me paciência, meu senhor, dai-me paciência”, dizem elas.

Enquanto lhes for dado o poder de fazer a chamada, ou mesmo o de manipular o painel electrónico das senhas, as senhoras dos guichés hão-de continuar a sentir-se poderosas. “Elas têm a faca e o queijo na mão”, e nós só comemos se falarmos com jeitinho.

Nota: A palavra “guiché” foi, propositadamente, utilizada por 15 vezes neste texto. 

???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

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