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reservadoAs próximas linhas são quase um artigo sobre um quase campeão. Porque a competição está quase a terminar e as faixas estão quase entregues, ao clube que mora na 2ª circular, quase ao pé do seu quase rival, Sporting.

Entre a formulação mental de uma acção e a dita acção; entre a incerteza e a certeza sobre algo; entre o não facto e o facto, existe o “quase“. Antes de eu decidir ver o jogo de logo à noite e até ao momento de estar a assisti-lo, eu estou quase a ir ver o jogo. Ante a incerteza do resultado e a convicção de que o Benfica sairá vitorioso, eu tenho quase a certeza que a equipa da casa vai ganhar. Entre as minhas crenças clubísticas e a confirmação do resultado final, que o torna num facto, o Benfica quase festeja.

Não me parece existir um preciosismo maior na língua portuguesa, que o “quase”. Numa pátria que reclama para si a originalidade da palavra “Saudade”, deveríamos estar nós orgulhosos, de determos a utilização mais sensível e numerosa do advérbio “quase”, capaz de destronar a léguas a importância dos “almost”, “presque”, “casi”, “quasi” de outras línguas. Convoco, desde já, os grandes estudiosos da Língua Portuguesa (aqueles que não vão em Acordos Ortográficos) num apelo ao estudo daquelas que me parecem as cinco letrinhas mais importantes da lusofonia e que são sintomáticas da individualidade do Português no mundo. Somos, verdadeiramente, o povo do “quase“, por razões do uso desta expressão, mas também porque ela nos ajuda a definir enquanto colectivo.

Ora, vejamos, que é impossível contabilizar o número de “quases” utilizados diariamente, tal é transversalidade do advérbio, em termos de contexto, bem como o seu carácter unificador entre extractos sociais. Todos, sem excepção, somos portadores de “quases“. E, no fundo, todos somos quase alguma coisa. Estamos quase a ir para algum lado. Encontramo-nos quase a ir de viagem, quase a sair de casa, quase… E conseguimos tornar o futuro bem mais próximo de nós, quando fazemos do “quase” uma repetição: “Está quase, quase, quase a começar”.

Quando alguém espera por mim e me pergunta onde estou, respondo automaticamente: “Estou quase a chegar” (significa que não estou ainda à porta, mas já não falta tudo). Chego ao local e encontro facilmente o meu par, porque o café está quase vazio (tem pessoas, mas tem mais moscas). Quando olho pela janela, vejo que está quase a chover (não chove, nem faz sol). Enquanto conversamos e relembramos uma partida de jogos, eu defendo-me e digo que quase ganhámos (significa que tenho mau perder e não sei reconhecer a derrota). À pergunta se mais alguém se juntará a nós no café, eu respondo que quase de certeza que Beltrano não vem, porque quase nunca Sicrano se consegue despachar a horas.

O “quase” é tão maleável que destrona as certezas absolutas, quebra a separação entre a verdade e a mentira, faz a ponte entre um sim e um não. Mesmo acima, acabei de juntar o oportuno “quase” à “certeza” e ao “nunca”. Ora, não será uma contradição? Não há quase acontecimentos, quase certezas. Não há?! Em Portugal, há. Vítor Gaspar quase acerta no défice. A selecção nacional quase faz boas campanhas europeias e mundiais. Cristiano Ronaldo quase é o melhor jogador do mundo. Miguel Relvas quase tira um curso. É a democratização nacional do “quase”.

Porque o “quase” é mais uma manha bem portuguesa. Quase é uma bengala, mas é mais, é uma precaução. Quase deixa de ser um maneirismo linguístico e é transponível para a forma como o português se encara, a si mesmo e aos seus pares. Quase acertar é melhor que errar. Quase ganhar é melhor que perder. Quase a ultrapassar o défice é melhor que já estar a derrapar financeiramente. Usamos o advérbio porque ele nos salva. D. Sebastião negou-nos o regresso numa noite de nevoeiro e nós superámos a espera com a adopção do “quase”. Da quase salvação, da quase expansão, da quase afirmação nacional. Com um quase, o povo não erra. “Eu não disse que íamos ganhar. Eu disse que estávamos quase a ganhar. E, se perdemos, que mentira proferi eu?!”. Astúcia portuguesa na base do “quase”.

E de forma astuta, como boa portuguesa, eu afirmo, sem qualquer receio de que o futuro se volte contra mim: tenho quase a certeza que o Benfica, este ano, é o campeão nacional. Porque quase nunca um clube que se encontra no lugar cimeiro a cinco jornadas do fim, deixa fugir o troféu. Além disso, a moral vermelha está nos píncaros, com a meia-final da Liga Europa, que é quase a final, de uma competição que é quase a Liga dos Campeões. Contudo, preocupa-me que o título europeu possa atrapalhar o nacional, porque o calendário é apertado e as partidas quase seguidas.

Paralelamente, temos um rival azul em baixo da forma de outras épocas, mas que quase nos morde os calcanhares. E que espera ansiosamente o grande confronto, que está quase a chegar: receber-nos no Dragão. Mas o jogo hoje é outro, com um Sporting, que estabilidade esta época quase não teve, mas que quer fazer da deslocação à Luz, a sua grande defesa de honra, quase como se este confronto lhes pudesse salvar uma época cinzenta, quase sem vitórias e rasgos de Luz.

Não dispenso o quase na afirmação do meu desejo e convicção na vitória benfiquista, de hoje e desta época, porque, por vezes, quando a minha equipa quase entra no caminho da glória, acontecem os desaires, quase sempre amargos, quase sempre inesperados ou infantis. Mas de pensamentos negativos me afasto agora, quase a terminar este quase artigo. Porque a negatividade quase nunca agoira nada de bom, deixo apenas a ressalva, que se as coisas não me correrem de feição, terei um novo hino, pela mão de Paulo Gonzo: “Dei-te quase tudo e quase tudo foi de mais/ dei-te quase tudo, leva agora os teus sinais.” (Não te dei tudo, Benfica, deixei salvaguardada a minha honra, com o… quase).

Mara desenhoMara Guerra 

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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One thought on “O Benfica é (quase) campeão

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