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A ironia é, não raras vezes, o âmago eloquente da mensagem que às tantas nos envergonha por não ter sequer um singular pingo da mesma. Vergonha. Assim acontece sempre que se reduz a acção a uma insidiosa propaganda, emoldurada pelos quatro cantos da acefalia padronizada e asténica a que chamamos «democracia de massas». No torpor macambúzio em que caminha esse tal Estado, o tal democrático, pálido e em estado de sítio estático, a ironia dos eventos vai deixando um travo cru a morte. Como de um declarado embuste ao qual insistimos assistir, de trunfo inútil na mão, a democracia perpassa por nós como a dama que tudo ignora à sua volta – prova delatória da sua enobrecida canalhice. Se existe slogan que cuspido e colado à parede não caia bem, por ora, não caia nunca – porque não dizê-lo – será o da General Electric. A empresa multinacional não produz somente ventoinhas e frigoríficos: isso é para meninos e donas de casa. Além do extenso espólio de artigos para o lar, a General Electric também se pode vangloriar de ter um não menos utilitário arsenal de coisas para matar. Porque entre o leite expirado do prazo no frigorífico e a raiva autoritária de quem procura poços de petróleo como um drogado procura a sua seringa num palhal, há que ser empreendedor e dar o passo que se impõe. A General Electric apenas facilita a vida ao consumidor: um dia, todos poderemos, através de um plasma Electric a preceito, ver a guerra a rebentar, em directo, por tudo o que é canto do HD, enquanto o General lança umas bombas nucleares numas esquinas «jihadistas» repletas de potenciais suspeitos «soon-to-be» indubitáveis (e execráveis) terroristas. Tudo isso enquanto desfrutamos de uma cerveja gelada no sofá – afinal, quem precisa de se irritar por causa de um qualquer pacote de leite azedo? Calha como ninguém, tudo na sua justa proporção, pois dizem que o leite faz mais mal que bem. É por isso que a General Electric pensa em nós – a benfeitoria do General é uma generalidade aplicável à generalidade das pessoas, ou não fosse o seu slogan «We bring good things to life»…

12 drones kill kidsPois trazem. A comodidade é tanta e tão multifuncional que a democracia só pode, indulgentemente, suspirar de deleito e conforto. Desde fogões numa cozinha cinza metálica a teatros de guerra onde países são varridos com ataques de «drones» (Unmanned Aerial Vehicle) da mesmíssima marca, a «democracia de massas» pode sossegar a sua consciência na almofada. O sonho americano vai desde a mesa do jantar às ruas estraçalhadas de Karachi ou às entrincheiradas montanhas do Waziristão, no Paquistão. Do prato quente de comida ao fumo sitiante que emana dos escombros fatais de civis para sempre anónimos e para sempre mortos. A guerra contra o fantasmático terrorismo, encabeçada pelos EUA, levou os serviços militares norte-americanos a descobrir a Nova Guerra: clínica, higiénica na consciência e remota na abjecção mortificante das suas casualidades. A um simples clique de um botão no Ocidente, equivale, segundos depois, um ataque aéreo que destroça ruas e habitações, aniquilando vidas como se de um «strike» de bólingue se tratasse, no Oriente. Longe do sangue e do terror, o combatente do outro terror, o da cruzada terrorista, analisa friamente os resultados num écran, sentado numa divisão munida de computadores e teclas de ordem, que substituem a granada ou o tiro metralhado. Do outro lado, o suposto terrorista do real terror afinal, marcado para a morte, morre – mas a estatística diz que terá de levar consigo cinquenta outras mortes, de civis, crianças e velhos. Por cada rotulado «terrorista», cinquenta vidas alheias: o preço a pagar pela suposição de culpa é a colateralidade do esquecimento. Ninguém soube nem sabe, os nomes dos perecidos. Países como o Paquistão, o Afeganistão, o Iraque e o Iémen, são o palco vivo de uma morte expectada que pulsa pelo medo rasante dos «drones» que patrulham os céus como um semi-deus tecnológico e irracional – a expressão máxima da desumanização higiénica tem na guerra a sua grande sujidade moral, mancha inextrincável que nem uma eternidade amoníaca poderia limpar.

Drones-kill-innocent-people1Num mundo cada vez mais estrangulado pelo panóptico supremo da espionagem tornada em segurança, a utilização de «drones» é um modo eficaz de controlar, de amedrontar e de ameaçar. A capacidade de monitorizar conversas e comportamentos é a pedra de toque de uma tecnologia ao serviço militante da cruzada ocidental contra a caricatura pouco rebuscada e tão sempre emboscada do malfeitor islâmico das cavernas. A democracia nem tem de se preocupar com gastos supérfluos: afinal, os «drones» são uma credencial de inteligência teleguiada da mais barata que existe no mercado da matança: enquanto as acções sobem, os «drones» descolam e as balas aterram na carne macia, de quem calhar – quanto custarão as vidas de milhares de pessoas, assassinadas desde 2004, pela unilateral decisão do governo norte-americano, que gemina, secretamente e à discrição a ninguém justificada, alvos ditos «terroristas»? Para Obama, aparentemente, de pouco valem. O Presidente da adiada mudança triplicou a frequência destes ataques desde que chegou ao executivo. Se a guerra ortodoxa já uma tragédia imoral sem possível justificação, a guerra cobarde tem todos os defeitos da primeira, com um acrescento: é anónima, distante, alada e incomensuravelmente desigual. Nações como os EUA ou a Inglaterra, tomam a liberdade de ir à guerra, sem a declarar: disparam a bel-prazer, abrigados pela infalibilidade secreta dos seus arquivos, onde se listam supostos bandidos morais, donos certificados do terror, daquele terror que somente os filmes de Hollywood conseguem dramatizar com fidedigna veracidade, nada maniqueísta por sinal.

barack-drone-bomber-obamaA boca do «Bem» mastiga a mentira e cospe-a num discurso odioso e metódico que almeja deslegitimar o que os direitos humanos têm como fundamento proteger: a integridade do ser humano e o seu valor intrínseco. Nenhuma narrativa, por mais serpenteante e presunçosamente democrática que se faça parecer, pode dar luz verde a massacres. A autênticos homicídios silenciosos, a inegáveis execuções sumárias, sem direito a defesa, julgamento ou testemunho. A ironia com que encetei este texto é amarga e envergonha até ao osso. Como numa reviravolta grotesca de quem se depara com o espelho moral da sua distorcida face, o Ocidente descobre, se parar para pensar, que afinal, o terrorista é ele mesmo. Sempre foi e continuará a ser, independentemente dos outros vilões. Esta filosofia subterrânea (camuflada pela mordaça conveniente da comunicação social) é aquilo a que chamo a «democratização do azar». Uns compram fogões e ventoinhas, outros esgueiram-se na probabilidade de serem chuviscados pelas balas de uma máquina pilotada por nenhures. A ironia do slogan representa a moralidade desta imoralidade capitalista: «We bring good things to life» diz a Electric General, enquanto crianças, adultos e velhos morrem sem quase ter tempo de sentir o cheiro do fim iminente.

Mas o consumismo acalma a ânsia, a mecânica formatada do desejo instala-se e a história volta sempre a ter a mesma moral: a que nos soar melhor. O telejornal conta fábulas de embalar, ou «thrillers» de nos colar ao sofá. Pelo HD afora, explosões rosnadas matam indefinidamente. A democracia bate à porta – partilhamos uma cerveja e falamos de assuntos mais importantes.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

3 thoughts on “A ironia terrorista

  1. “Esta filosofia subterrânea (camuflada pela mordaça conveniente da comunicação social) é aquilo a que chamo a «democratização do azar». Uns compram fogões e ventoinhas, outros esgueiram-se na probabilidade de serem chuviscados pelas balas de uma máquina pilotada por nenhures”. Texto fantástico, forte, com uma ironia que condena e sentencia os culpados.

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